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Um mês depois, crise da água contaminada continua afetando periferia do Rio de Janeiro

Enquanto nomeados políticos correm para se explicar, preocupações com privatização persistem entre ativistas comunitários

No dia 3 de janeiro sob um sol escaldante de verão, com temperaturas acima de 35°C, moradores da Baixada Fluminense, bem como das Zonas Oeste e Norte do Rio, começam a notar problemas na água da torneira. Mesmo quando tirada dos onipresentes filtros, a água vinha turva e cheirava mal; tinha gosto de terra. A medida em que moradores preocupados corriam para supermercados, o preço da água engarrafada disparava. Em questão de dias, o problema se estendeu por toda a cidade.

A hashtag #AguaContaminada começou a se espalhar enquanto internautas se voltavam para CEDAE para cobrar por respostas. A CEDAE se apressou em explicar o problema, atribuindo o gosto e o cheiro da água a uma substância orgânica transportada por algas conhecida como geosmina. Enquanto isso, cariocas doentes abarrotavam as salas de espera de hospitais pela cidade com reclamações de náusea e diarreia.


Embora a geosmina propriamente dita não seja prejudicial, segundo argumentam especialistas da UFRJ em nota técnica, isso pode significar que outra bactéria não foi propriamente filtrada. Para Fabiano Thompson, da UFRJ, parte do problema está na qualidade da água que entra na estação de tratamento Guandu do Rio. Ele e outros especialistas contaram ao G1 que a CEDAE tinha, até recentemente, conseguido fazer “mágica, em transformar esgoto em água”. Em 2020, a situação chegou a um ponto de ruptura.

Como em diversos problemas do serviço público, a crise da água afetou mais intensamente as favelas e periferias do Rio. De acordo com Roberto Lucena, professor de história e ativista engajado ao grupo Rocinha Sem Fronteiras, “o problema de distribuição de água é crônico, seletivo e político”.

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Como em diversos problemas do serviço público, a crise da água afetou mais intensamente as favelas e periferias do Rio.

Ao comparar a Rocinha aos bairros adjacentes, na Zona Sul, como São Conrado, Lagoa, e Leblon, Roberto adiciona: “Nossos vizinhos têm dinheiro para comprar água mineral todos os dias, enquanto nós bebemos água com cheiro e cor, pois a nossa economia não nos permite comprar água mineral regularmente”. 

“Que água o favelado está bebendo?” Perguntou uma manifestante nas escadas da Câmara Municipal. Falando em um microfone aberto, disponível, como parte de um debate público organizado pela Marcha Mundial das Mulheres Rio, ela ecoou Roberto. “Minha gente não tem dinheiro para ficar comprando água. A galera está tirando do arroz, da carne para poder tomar água! Isso é um absurdo”.


Na periferia, outros se preocupam que a crise possa se tornar uma desculpa fácil para a privatização da CEDAE. De fato, o Governador Wilson Witzel declarou que melhoras no Guandu apenas seriam viáveis após o leilão da CEDAE. Conforme a crise da água se arrasta, protestos anti-privatização eclodem pela cidade. Em 21 de janeiro, moradores do Rio e ativistas se reuniram do lado de fora do gabinete do prefeito, exigindo seu direito constitucional de beber água. Gritando, em coro, “Não à concessão! Não à privatização!”, os manifestantes marcharam até a sede da CEDAE, bloqueando o tráfego ao longo da Avenida Presidente Vargas. Privatização, segundo os manifestantes, tornaria a falta de qualidade ainda pior.

Em uma entrevista para a Carta Capital dias depois, Léo Heller, Relator do Conselho de Direitos Humanos da ONU para os Direitos à Água e ao Esgotamento Sanitário, apresentou preocupações similares sobre ações para privatizar serviços de utilidade pública. Léo apontou que essas medidas podem aprofundar desigualdades sociais no acesso ao saneamento básico, uma vez que a privatização frequentemente resulta no aumento nas taxas cobradas por serviços públicos e em falta de incentivo privado para atender regiões periféricas.

Roberto diz que a privatização não é solução para a crise. “Como pode um governo privatizar um bem comum, que deveria ser acessível a todos independente de sua classe social?” Ele questiona. Em vez disso, os políticos se desviam da responsabilidade—Se referindo a Witzel, ele diz: “Apenas um governador impopular com uma mentalidade excludente em uma sociedade estratificada colocaria em prática esse tipo de maldade”.

Conversando com o RioOnWatch, Aru Girota, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos de Niterói (STIPDAENIT), concorda que o problema é político. “Tem um problema na CEDAE sim, e ele se chama Hélio Cabral”, diz Aru, referindo-se ao agora ex-presidente da CEDAE. “Ele não conhece nada de saneamento. E isso está colocando em risco os 11 milhões de moradores do [Grande] Rio. Como em Mariana [Minas Gerais], quando ele era consultor da Samarco”.

Hélio, demitido pelo Governador Witzel na noite de 10 de fevereiro, é um dos 21 réus acusados de crimes ambientais e homicídios por seu envolvimento no desastre da Barragem de Mariana em 2015, que matou 19 pessoas e poluiu o abastecimento de água de milhares de moradores na cidade de Mariana, Minas Gerais. Hélio, que trabalhou como diretor financeiro da CEDAE de 2008 a 2015, assim mesmo falou em uma audiência pública na Alerj em 11 de fevereiro.

Mais de um mês após seu início, a crise continua. Embora supermercados tenham começado a reestocar suas prateleiras regularmente, comprar água engarrafada diariamente continua tendo custos proibitivos para moradores de baixa renda pela cidade. Alguns até mesmo passaram a procurar por nascentes naturais para ter água que possam beber. Ainda assim, Roberto Lucena, da Rocinha, está otimista: “Estamos convencidos de que nossas conquistas se darão através de lutas sociais e políticas—fiscalizando o poder público e cobrando nossos direitos. Temos plena consciência que somos os protagonistas de nossa história”.


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