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Montagem Cicral

Café com Vodka | Condenação de Bolsonaro por golpe é avanço da democracia e recado ao mundo

A condenação de Bolsonaro por golpe marca um divisor de águas: instituições se fortalecem, a democracia avança e o Sul Global envia mensagem soberana

Gabriela de Fátima Cia , Ollivia Galdino, Leonardo Argollo, Leonardo Nascimento, Luiza Calvette
Diálogos do Sul Global
Brasília (DF)

Tradução:

A coluna Café com Vodka é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil), em parceria com a Diálogos do Sul Global

* * *

A história registra um feito inédito: pela primeira vez, um ex-presidente, Jair Bolsonaro, e generais de alta patente das Forças Armadas são julgados e condenados por atentar contra o Estado democrático de direito. Esse marco não se explica isoladamente, mas se insere na longa e trágica tradição latino-americana de instabilidade institucional, em que golpes de Estado foram instrumentos recorrentes da classe dominante para barrar avanços populares e atender a interesses de potências estrangeiras.

Do Brasil de 1964 ao Chile de 1973, da Guatemala às ditaduras do Cone Sul, nossos povos enfrentaram sucessivos projetos de ruptura autoritária que buscaram interromper o desenvolvimento nacional e abrir caminho ao entreguismo.

Condenação de Bolsonaro rompe tradição de impunidade

A condenação por tentativa de golpe, após julgamento em tribunal civil, cria um marco na história do Brasil e da nossa ainda frágil democracia. Em um mundo em que governos e discursos autoritários seguem inflamando contra as instituições, nosso país dá um passo na direção oposta, reforçando que a vontade popular deve prevalecer.

Cannabrava | Condenação histórica dos golpistas: justiça, soberania e pressões externas

Desde a Primeira República, as Forças Armadas ocuparam o papel de “poder moderador”, intervindo de maneira recorrente na vida política. Essa perspectiva se consolidou em 1964 e deixou marcas profundas na sociedade brasileira.

Com a anistia irrestrita aos agentes da ditadura, consolidou-se uma lógica de impunidade que parecia permanente. A responsabilização de autoridades de alto escalão pelo ataque mostra que as instituições se fortalecem e que o país avança rumo a uma prática política mais estável, baseada no respeito à soberania popular e ao Estado de direito.

A ingerência estadunidense na América Latina, por outro lado, está presente desde o fim da colonização. Trata-se da dura realidade de países submetidos à dominação externa: a transferência do jugo de um império para outro. O imperialismo dos Estados Unidos sempre manteve um apetite especial pela América Latina; afinal, fazemos parte do mesmo continente e, no caso do México, até dividimos fronteiras.

Doutrina Monroe e o controle geopolítico da América Latina

Os colonizadores transformaram a América em extensão da Europa, padrão herdado pelos Estados Unidos. A expansão imperialista se desdobra em dimensões econômicas, ideológicas, culturais e sociais. Impuseram às colônias um processo de ocidentalização, moldando elites políticas, intelectuais e artísticas voltadas para seus padrões. As classes dirigentes se mantiveram nessa lógica de dependência a fim de garantir seus privilégios.

Exemplos clássicos dessa dominação são a Emenda Platt e a Doutrina Monroe, que consolidaram a pretensão de ter a América Latina como quintal estratégico. Durante séculos, seguimos sob governos subservientes aos interesses estadunidenses, entregando riquezas nacionais para assegurar o lucro do capital estrangeiro.

A ingerência política permanece constante, seja pelo apoio explícito das embaixadas estadunidenses, seja pelo financiamento de políticos alinhados à sua agenda de exploração econômica, controle de recursos naturais e mercados, ou até mesmo pelo treinamento de forças armadas locais.

Embora séculos tenham se passado desde a formulação dessas doutrinas, o imperialismo em nosso continente segue vivo. No século 20 e no presente, os Estados Unidos foram protagonistas no patrocínio de golpes — militares, no passado; parlamentares e judiciais, no presente.

No Brasil, tanto em 1964 quanto em 2016, o apoio estadunidense fez parte da trama golpista. Para nós, latino-americanos, a palavra “golpe” evoca lembranças amargas: tempos sombrios que não foram reparados, crimes que não foram julgados, desaparecidos que nunca tiveram justiça. No Brasil, militares seguem impunes pelas torturas e assassinatos cometidos.

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Bolsonarismo, imperialismo e extrema-direita caminham juntos

Por isso, não causa espanto o apoio estadunidense à tentativa de golpe dos bolsonaristas, os maiores vendilhões da pátria da nossa história. Mais uma vez, imperialismo, golpismo e extrema-direita caminharam juntos.

A condenação de Bolsonaro por atentar contra o Estado democrático de direito — com amplo direito de defesa, direito este negado outrora pelas ditaduras — é um marco histórico para a região em dois sentidos.

Primeiro, reafirma que conquistamos de volta a democracia, ainda que com contradições e limitações, garantindo o direito de existir e de se manifestar politicamente.

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Por décadas, a luta por uma pátria justa foi violentamente silenciada; hoje, a punição de uma tentativa de golpe é resposta simbólica a tantas rupturas institucionais impostas ao continente.

O fato de a sentença ter sido proferida em um 11 de setembro, data do golpe contra Salvador Allende (Chile, 1970-1973), demarca uma ruptura simbólica: meio século depois, não foi um presidente democrático que caiu por ação imperialista, mas um golpista que foi condenado com todos seus direitos garantidos.

Segundo, representa o rechaço à extrema-direita em ascensão na América Latina. O julgamento sinaliza que, apesar dos avanços do golpismo e da extrema-direita — do Brasil, passando pelos golpes na Bolívia e no Peru, aos governos nefastos do Equador e da Argentina — nossas sociedades são capazes de responder.

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Essa decisão repercute além das fronteiras brasileiras: fortalece setores democráticos latino-americanos, inspira lutas populares e mostra que não estamos condenados a repetir indefinidamente o ciclo de golpes, autoritarismos e entreguismo: Há forças democráticas e populares organizadas para resistir e avançar.

O Brasil e a resistência popular contra a extrema-direita

Julgamos Bolsonaro. As ruas mostraram que estamos organizados para combater a extrema-direita. Aqui, onde a exploração sempre se impõe com mais força, onde democracias podem cair em segundos e golpes se tornam laboratório de experiências autoritárias, mostramos que há dignidade.

Mostramos que nossa democracia precisa avançar, e não retroceder. E sabemos: o que acontece no Brasil reverbera em toda América Latina, porque o destino e as batalhas de nossos povos são compartilhados.

O bolsonarismo encarnou um projeto explícito de subordinação aos interesses geopolíticos dos países centrais do Ocidente, rompendo com a tradição brasileira de autonomia e multipolaridade.

Esse alinhamento incondicional significou, na prática, o apoio a sanções contra nações vizinhas, o abandono de fóruns de cooperação Sul-Sul e o enfraquecimento estratégico de mecanismos de integração regional.

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O resultado foi um Brasil deliberadamente isolado, que abriu mão de sua capacidade de mediação internacional e de sua vocação de liderança entre os povos do Sul. Este caso demonstra que instituições democráticas fortalecidas podem ser trincheiras eficazes contra a desestabilização geopoliticamente orientada.

A derrota jurídica e política desse projeto envia uma mensagem crucial aos países do Sul: é possível conter a onda autoritária e rejeitar a dependência estratégica.

Ao frear o bolsonarismo, o Brasil reabre a possibilidade de retomar seu papel como articulador de uma nova geometria de poder global, baseada na soberania e na cooperação horizontal.

O recado é claro: o Sul Global não está condenado à submissão — e o Brasil, com seu peso econômico, territorial e diplomático, volta a ser protagonista na construção de um futuro multipolar escrito com base em suas próprias escolhas soberanas.

Hoje, ao ver Bolsonaro e seus cúmplices condenados pela Justiça brasileira, celebramos não apenas uma decisão judicial, mas a primeira vez em que encaramos de frente a no


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Gabriela de Fátima Cia Gabriela de Fátima Cia é editora da Coluna Café com Vodka e da equipe de Comunicação do Cicral Brasil, é graduada em Engenharia Florestal e licenciada em Ciências Agrárias pela ESALQ/USP. Atualmente, é mestranda em International Development Policy and Governance no College of International Development and Global Agriculture da China Agricultural University (CAU), com foco em políticas públicas, desenvolvimento internacional, governança global e BRICS+. É ativista ambiental, integra o EngajaMundo e participa da BRICS Student Commission.
Ollivia Galdino Ollivia Galdino é secretária de Assuntos Políticos do Cicral Brasil, é graduanda em Ciência Política e consultora da Organização dos Estados Ibero-Americanos - OEI. Atuou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa de Pernambuco, com foco em meio ambiente e transição energética, e na Secretaria de Cultura do estado, com políticas de democratização cultural. Também é Secretária de Relações Institucionais da JPT.
Leonardo Argollo Leonardo Argollo é secretário de Integração Econômica do Cicral Brasil, é estudante de Comércio Exterior na FATEC-SP, com experiência em representação estudantil. Foi presidente do Diretório Central dos Estudantes e diretor da União Estadual dos Estudantes de São Paulo. É fundador e atual presidente do Comitê Nacional Brasileiro do Festival Mundial da Juventude, com atuação destacada em fóruns internacionais de juventude e integração.
Leonardo Nascimento Leonardo Nascimento é secretário-Geral do Cicral Brasil, é doutorando em Relações Internacionais pela PUC-MG, pesquisando inserção internacional e cooperação Sul-Sul. Integra o Observatório Rússia–América Latina (RUSLAT) e o Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina (CICRAL), contribuindo para a produção acadêmica e a articulação internacional no campo das relações Brasil–Rússia.
Luiza Calvette Luiza Calvette é diretora-Geral do Cicral Brasil, é cientista política e mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Brasília - UnB, com pesquisa sobre Estado na América Latina. Possui experiência no setor público e em organizações da sociedade civil, atuando com participação social e cooperação internacional. Coordenou o curso “América Latina: pensamento crítico e integração regional” na UnB e dirige o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz - Cebrapaz em Brasília.

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