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Foto: Holly Hayes / Flickr

Cortes de orçamento e fundamentalismo religioso: o desmonte da educação nos EUA

“Um país que desmonta a educação, as artes ou as culturas já está governado por aqueles que só têm algo a perder com a difusão do saber”, alertava Italo Calvino
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Milhares de livros censurados em bibliotecas e escolas em várias partes do país, os governos estaduais e municipais cortando os orçamentos para bibliotecas, artes e cultura junto com os já limitados recursos para a educação pública, onde também buscam proibir nas instituições versões críticas da história do país, enquanto a Louisiana acabou de ordenar a exibição dos 10 Mandamentos em cada sala de aula de suas escolas.

“Um país que desmonta a educação, as artes ou as culturas já está governado por aqueles que só têm algo a perder com a difusão do saber”, alertava Italo Calvino. O senador Bernie Sanders destacou em uma audiência que “se quatro executivos de empresas de fundos especulativos, em um momento onde temos uma desigualdade massiva de riqueza, ganham mais dinheiro que a renda total de todos os professores de pré-escola em nosso país, talvez algo esteja errado com nossas prioridades nacionais”.

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Enquanto as luzes da educação e da cultura se apagam, e a narrativa nacional se perverte ainda mais com a infusão do “cristianismo nacionalista”, parece que o país caminha para uma nova era das trevas. Os elementos estão aí, incluindo frases com ecos históricos ominosos.

Nos Estados Unidos sempre esteve presente a ideia de Deus e pátria; não há evento público, desde jogos esportivos até formaturas escolares, passando por qualquer ato político, que não comece com o hino nacional e/ou alguma das piores músicas patrióticas. Quase sempre se rendem honras às forças armadas e todo discurso oficial – e cada dólar – diz que este país confia e é abençoado por Deus. E mais uma vez a direita busca sequestrar esses supostos pilares sagrados de “democracia”, “igualdade” e “direitos” para impor um regime neofascista. Neste ano eleitoral afirmam que eles e só eles podem resgatar, das garras da “esquerda radical”, os verdadeiros “valores” e “princípios” sagrados sobre os quais este país foi fundado.

Mas como disse o famoso comediante George Carlin há vários anos… “Este país foi fundado por um grupo de donos de escravos que nos disseram que todos os homens são criados iguais – certamente, com exceção dos indígenas, afro-americanos e mulheres. Acho que os americanos realmente mostram sua ignorância quando dizem que querem que seus políticos sejam honestos. Do que diabos esses cretinos estão falando? Se a honestidade de repente fosse introduzida na vida americana, colapsaria o sistema inteiro.”

Agora isso de “Deus e pátria” retorna a um país onde todo estudante teve que participar de exercícios sobre o que fazer quando uma pessoa armada entrar, onde nunca em um século se registrou tal desigualdade de riqueza, onde o orçamento militar alcançou um novo recorde, onde os migrantes – os que construíram e resgataram este país desde seus primórdios – de repente são o inimigo que, segundo Trump, estão “envenenando o sangue deste país” (frase nazista), onde já houve uma tentativa de golpe de Estado e se prepara outro (os republicanos se recusam a se comprometer a respeitar os resultados da eleição se não ganharem), e onde o cinismo chegou a tal nível que Trump promove a exibição dos 10 Mandamentos (apesar de que ele pessoalmente e seus cúmplices violaram quase todos).

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Há uma cena assustadora no filme “Cabaret” – obra essencial para o momento atual – que gira em torno do surgimento do fascismo na Alemanha nos anos 30 do século passado, onde primeiro se ouve uma voz doce e inocente de um jovem cantando uma canção chamada “O amanhã me pertence”, em um parque onde famílias o escutam e logo quase todos se juntam ao coro; a câmera primeiro mostra apenas seu rosto e aos poucos desce até mostrar seu braço onde tem uma faixa com uma suástica da juventude nazista.

Há muitos indícios de que se aproxima uma era das trevas nos Estados Unidos, e agora tudo depende de se votar um movimento suficientemente unido capaz de acender as luzes.

Bônus Musical

Santana | Put Your Lights On.  https://open.spotify.com/track/3uRaD26t3RkJ8n549udQ83?si=c0a376154af54aed

Bruce Springsteen | This Little Light of Mine.  https://open.spotify.com/track/45F5Du2IpQDwYdGN0jFYQb?si=2ad73e5e7ddb499b


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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