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Sem planejamento de longo prazo e sem uma estratégia que coloque o crescimento com distribuição de renda no centro das decisões, o Brasil segue prisioneiro de uma lógica rentista, distante das necessidades reais da população. (Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil)

Cannabrava | Crescimento econômico em marcha lenta

Entrave estrutural compromete o desenvolvimento, a geração de renda e a capacidade do Brasil de acompanhar a dinâmica das principais economias do mundo

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deverá crescer 1,6% em 2026, abaixo da estimativa anterior de 1,9%, divulgada em outubro passado. Para 2027, a projeção é de 2,3%. Em 2025, a economia brasileira havia registrado crescimento de 2,5%, o que evidencia uma desaceleração relevante no curto prazo.

No cenário global, o FMI estima crescimento de 3,3% da economia mundial, impulsionado sobretudo pelo desempenho dos Estados Unidos e da China. Enquanto essas duas economias seguem funcionando como motores do crescimento global, o Brasil aparece entre os países que avançam abaixo da média internacional.

De acordo com o FMI, o principal fator que explica o baixo crescimento brasileiro é a política monetária restritiva, baseada em juros elevados para conter a inflação. A taxa Selic está em 15% ao ano. Descontada a inflação, o juro real chega a 9,23% ao ano, o segundo mais alto do mundo, ficando hoje atrás apenas da Rússia, com 9,88%. Para efeito de comparação, a Argentina opera com juros reais de 7,63%, a Turquia com 6,45%, enquanto os Estados Unidos mantêm juros reais em torno de 1,55% ao ano.

O contraste com a China é expressivo. A economia chinesa cresceu 5% em 2025 e projeta crescimento médio de 4,17% ao ano para a próxima década. Já a América Latina e o Caribe, segundo o FMI, devem crescer 2,2% em 2026 e 2,7% em 2027, taxas ainda modestas, mas superiores à previsão brasileira para o próximo ano.

Quando se observa o desempenho de longo prazo, o quadro brasileiro se torna ainda mais preocupante. No período de 15 anos, entre 2011 e 2025, o Brasil apresentou um dos piores desempenhos econômicos do mundo. Segundo o FMI, a economia brasileira acumulou uma perda de 13,66% nesse intervalo. Em valores aproximados, o PIB passou de US$ 2,6 trilhões em 2011 para cerca de US$ 2,3 trilhões em 2025.

No mesmo período, a economia global cresceu 57,94%. Entre os países desenvolvidos, a expansão foi de 46,30%, enquanto as economias emergentes avançaram 77,86%. Alguns países merecem destaque: a Índia cresceu 126,28%, a China 157,79% e o Vietnã, impressionantes 182,95%.

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O fraco desempenho brasileiro também se reflete na renda per capita. Entre 2011 e 2025, o Brasil registrou queda de 20,62% na renda per capita, enquanto a China apresentou crescimento per capita de 144,29% no mesmo período. Em 2011, a renda per capita brasileira correspondia a cerca de US$ 13,3 mil; em 2025, recuou para aproximadamente US$ 10,6 mil.

Os dados desenham um quadro claro: juros persistentemente elevados, baixo investimento produtivo e crescimento econômico aquém do potencial colocam o Brasil em posição desfavorável na comparação internacional. Mais do que um problema conjuntural, trata-se de um entrave estrutural, que compromete o desenvolvimento, a geração de renda e a capacidade do país de acompanhar a dinâmica das principais economias do mundo.

A política de juros excessivamente altos funciona, na prática, como um poderoso freio ao crescimento. Ao priorizar quase exclusivamente o combate à inflação por meio da taxa de juros, o país penaliza o investimento produtivo, encarece o crédito, desestimula a indústria e inibe a geração de empregos de qualidade. O resultado é um círculo vicioso: baixo crescimento, arrecadação limitada, fragilidade fiscal e dependência crescente do capital financeiro.

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Mais grave ainda é a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento integrado, capaz de articular política econômica, política industrial, investimento público, transição ecológica e justiça social. Sem planejamento de longo prazo e sem uma estratégia que coloque o crescimento com distribuição de renda no centro das decisões, o Brasil segue prisioneiro de uma lógica rentista, distante das necessidades reais da população. O contraste com países que apostaram em planejamento, investimento e soberania econômica revela que o atraso brasileiro não é inevitável — é resultado de escolhas políticas.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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