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Relatório dos EUA acusa Cuba de comandar rede que formou a esquerda estadunidense

Documento de 100 páginas do Departamento de Estado afirma que Havana formou ativistas, influenciou movimentos de esquerda e operou redes de influência dentro dos Estados Unidos; críticos afirmam que a iniciativa pode servir de base para ampliar investigações e processos contra organizações e opositores do governo Trump

David Brooks, Jim Cason
Prensa Latina
Washington, DC

Tradução:

O secretário de Estado, Marco Rubio, acusou Cuba de “subversão” dentro dos Estados Unidos, incluindo sua infiltração “nos mais altos níveis do governo dos Estados Unidos”, o recrutamento e a formação de ativistas de esquerda e o apoio ao “terrorismo esquerdista em território estadunidense”.

Marco Rubio – Wikipédia, a enciclopédia livre
Marco Rubio – Wikipédia

Um relatório de 100 páginas divulgado em 20 de julho pelo Departamento de Estado faz parte de um esforço mais amplo dos Estados Unidos para estabelecer uma campanha global contra “a esquerda”, que alguns temem poder ser um primeiro passo para justificar a perseguição e até mesmo a detenção de opositores progressistas de Donald Trump e de seu governo no país.

“Por mais de seis décadas, o regime cubano foi o principal patrocinador do esquerdismo radical e do terceiromundismo nos Estados Unidos”, escreveu Rubio em sua conta no X (ex-Twitter) na manhã do mesmo 20 de julho, como parte da apresentação do novo relatório.

Nas primeiras páginas do relatório, os autores argumentam que a Revolução Cubana teve “um sucesso notável” ao promover movimentos revolucionários ao redor do mundo e identificam vários deles no Chile, em El Salvador, na Bolívia e na Argentina.

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Também sugerem que Cuba ajudou a lançar a “nova esquerda” por meio de uma conferência trilateral realizada em 1966 (da qual participou um grupo mexicano) e dão grande destaque a supostos vínculos entre grupos revolucionários em Porto Rico.

Há várias referências breves ao México no relatório, sobretudo como um país onde agrupações de extrema esquerda podem se reunir com autoridades cubanas.

O documento também inclui uma breve crítica: “(A presença de espiões russos de alto escalão no México — fazendo-se passar por diplomatas para obter informações de inteligência sobre os Estados Unidos — tem sido fonte de tensão diplomática entre os Estados Unidos e o México nos últimos anos)”.

Mas a maior parte do relatório consiste em alegações de interferência cubana dentro dos Estados Unidos. “O ataque de Cuba contra os Estados Unidos nunca foi, em sua essência, uma disputa sobre política econômica, soberania ou mesmo sobre quem é o proprietário de um determinado território.

Foi uma revolução contra a própria civilização ocidental — realizada, em parte, por meio do método novo e insidioso de persuadir os filhos do Ocidente a se voltarem contra sua própria herança”, afirma um trecho que depois foi amplamente divulgado nas redes sociais do Departamento de Estado.

Vale destacar que o relatório não faz qualquer referência ao bloqueio estadunidense contra a ilha, às múltiplas tentativas de assassinato contra líderes cubanos, à invasão da Baía dos Porcos nem aos esforços atuais para asfixiar a economia da ilha e promover abertamente uma mudança de regime no país.

Os autores destacam o apoio cubano às Brigadas Venceremos, que promoveram “viagens de solidariedade” de estadunidenses à ilha, bem como viagens de membros de organizações de esquerda dos anos 1970, incluindo o Weather Underground e revolucionários afro-estadunidenses.

“Uma parcela desproporcional dos ativistas, intelectuais e outros radicais que viriam a moldar as políticas raciais da esquerda nos Estados Unidos esteve vinculada, em algum momento, a Cuba”, sustenta o relatório oficial, que também se concentra no caso de Assata Shakur, uma líder dos Panteras Negras condenada por matar um policial e que posteriormente fugiu para Cuba.

A partir daí, o relatório volta sua atenção para alguns políticos estadunidenses contemporâneos, assinalando, por exemplo, que Barack Obama lançou sua primeira campanha eleitoral na sala da casa dos ex-líderes do Weather Underground Bernardine Dohrn e Bill Ayers, em Chicago, e que tanto a atual prefeita de Los Angeles, Karen Bass, quanto seu antecessor, Antonio Villaraigosa, viajaram para Cuba na juventude por meio das Brigadas Venceremos.

“O núcleo central de toda a rede de inteligência e influência cubana é o Instituto Cubano de Amizade com os Povos”, afirma o relatório. Acrescenta que o ICAP promoveu programas de “cidades-irmãs” entre Cuba e os Estados Unidos e impulsionou o trabalho de solidariedade com a National Network on Cuba, “uma coalizão de mais de 60 organizações estadunidenses — incluindo os Socialistas Democráticos da América (DSA), a National Lawyers Guild, a Code Pink e o Partido Comunista dos Estados Unidos — dedicada a fazer pressão política pelo fim do embargo e de outras políticas ‘imperialistas’ contra Cuba”.

Ao todo, 43 organizações e indivíduos nos Estados Unidos são identificados nominalmente no relatório como parte desses esforços, incluindo o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, Ben Cohen, cofundador da empresa de sorvetes Ben & Jerry’s, Medea Benjamin, da Code Pink, e o sindicato Amazon Labor Union.

O relatório parece fazer parte do recente esforço de Donald Trump, Marco Rubio e outros integrantes do governo para alertar sobre um ressurgimento do “comunismo” nos Estados Unidos e vincular opositores e críticos do presidente e de seu governo a grupos de esquerda que eles acusam de serem “violentos”.

“A Casa Branca não pode designar legalmente sua oposição doméstica como ‘terrorista’. Então aqui está o plano para fazer isso pela porta dos fundos”, escreveu Miles Taylor, que foi chefe de gabinete do Departamento de Segurança Interna durante o primeiro governo Trump.

Ao designar algumas organizações de esquerda no exterior como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês) e declará-las como “transnacionais” em suas operações, o governo Trump pode começar a perseguir grupos estadunidenses que mantenham algum tipo de relação com essas entidades estrangeiras.

“Pela legislação federal, oferecer conscientemente ‘apoio material’ a uma organização designada como FTO é um crime que pode resultar em pena de até 20 anos de prisão. E o conceito de apoio material é definido em termos incrivelmente amplos. Pode incluir dinheiro, ‘serviços’, ‘treinamento’, ‘assessoria especializada ou assistência’ ou ‘pessoal’. Críticos da lei advertiram que até mesmo compartilhar uma hiperligação da Wikipédia de uma organização designada poderia ser enquadrado”, explicou Taylor.

Questionado especificamente sobre essa afirmação de Taylor, de que a nova campanha internacional poderia ser utilizada para prender organizações domésticas, Gregory LoGerfo, coordenador de contraterrorismo do Departamento de Estado, respondeu ao La Jornada: “Não, claro que não”, acrescentando que “vemos uma tendência crescente de terrorismo de extrema esquerda, tanto em nosso país quanto em outros”. No entanto, acrescentou que “apoiamos enfaticamente a liberdade de expressão”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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