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ToggleO mar se comportou de forma nobre. Diferentemente do Granma original — o velho iate em que os 82 expedicionários do Movimento 26 de Julho partiram ao encontro da história desde o porto mexicano de Tuxpan, para cruzar as agitadas águas do Golfo do México —, desta vez, o barco Granma 2.0, com 32 internacionalistas e jornalistas de 11 países a bordo, navegou do porto mexicano de Progreso até o Porto de Havana, em Cuba, com bom tempo.
Assim, após 85 horas de viagem e de enfrentar os mais variados contratempos, o barco camaroneiro de 24 metros de popa a proa, que um dia atendeu pelo nome de Maguro, após algumas voltas, ancorou em 24 de março, por volta das quatro da manhã, em frente à antiga Vila de San Cristóbal. A tripulação do comboio Nossa América ainda aguardou para se dirigir ao porto e encontrar uma multidão que os recebeu entre aplausos e palavras de ordem. Uma verdadeira festa.
Já no porto, foram recebidos pela prefeita de Havana, Yanet Hernández, e outras autoridades. Foi uma recepção tão rápida quanto calorosa. Após um breve discurso, um poeta interpretou canções. Os habaneiros foram especialmente efusivos com os italianos, comprometidos em conseguir os painéis fotovoltaicos. Houve muitos choros e abraços.
Sua carga solidária, composta por alimentos não perecíveis, medicamentos, fraldas, bicicletas e 73 painéis fotovoltaicos, doados por cidadãos de outras partes do mundo, chegou ao seu destino. Os víveres foram descarregados em uma zona portuária de Hai Phong, homônima do porto vietnamita famoso por ter sido desminado por cubanos durante a guerra. Mais tarde, medicamentos e equipamentos de saúde foram levados ao William Soler, onde foi visitada a área primária de especialidade em cardiopatia congênita.
Manuel Estrada é o capitão da embarcação rebatizada como Granma 2.0. Ele explica sua missão sem rodeios:
Velho lobo do mar, reconhece o esforço dos cooperantes.
Internacionalismo sobre rodas
Samuel Terán é um dos navegantes solidários. É diretor logístico do Fórum Mundial da Bicicleta, uma organização humanitária registrada no México que realiza trabalho humanitário entre a nação mexicana e os Estados Unidos por meio da doação massiva do veículo de duas rodas.
Para eles, as bicicletas são meios de transporte pacificadores, que contribuem para os processos de democratização do acesso ao direito humano à mobilidade. Na flotilha, transportaram de forma simbólica dez bicicletas, que foram doadas pela organização Working Bikes, de Chicago e Illinois, nos EUA.
“Nós somos trabalhadores migrantes nos Estados Unidos e não nos resta outra opção senão contribuir para processos de pacificação”, explica Samuel, que segue:
De braços abertos
Disamis Arcia tem 45 anos. É professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana e pesquisadora do Centro Che. Ela compartilha seu ponto de vista: “É o bloqueio energético, é a agressividade, são os anos de medidas acumuladas e articuladas orientadas a asfixiar Cuba que desembocaram na situação concreta em que estamos.”
Ela acredita que o comboio de ajuda humanitária que está se reunindo em seu país tem uma “altíssima significação em vários sentidos”. Essa capacidade de mobilizar a vontade de tantas pessoas não se limita a um ato discursivo, mas se direciona à solução de problemas concretos, que talvez não sejam a solução estrutural do que gera essas necessidades, mas ajudam a resolvê-las.
A professora Arcia divide sua explicação em quatro pontos. Primeiro, na área da saúde:
O segundo, para ela, é que “também tem a ver com soluções relacionadas a como contribuir de maneira concreta para a estratégia de mudar a matriz energética do país de forma acelerada”.
Como terceiro ponto, a docente considera importantíssimo o valor simbólico da ajuda humanitária. É muito relevante que, de tantos lugares diferentes do mundo, de tantas correntes, de tantos espaços de mobilização, tantas pessoas encontrem na defesa do povo cubano uma causa comum. Ela afirma:
Por fim, a quarta questão, segundo ela muito relevante, é que a ação solidária acontece mesmo diante da enorme agressividade, repressão e capacidade dos setores mais reacionários de falar e agir contra esse tipo de mobilização.
O valor do gesto
Michel Torres Corona tem 32 anos. É diretor do grupo editorial Nuevo Milenio, roteirista e apresentador de Con Filo, um programa de sucesso da televisão cubana. Para ele, toda ajuda a Cuba em um momento em que se estreita o cerco dos Estados Unidos é importante. É importante a ajuda material, as doações, o auxílio em termos de alimentos, medicamentos, insumos de todo tipo, tecnologia, seja o que for.










Registros da chegada do Granma 2.0 no Porto de Havana. (Foto: Marco Peláez / La Jornada)
Mas mais importante ainda é o símbolo, é o gesto. Ele explica:
Para ele, a flotilha é um símbolo de solidariedade, é a demonstração de que Cuba não está sozinha. Que, apesar desse cerco, não está isolada. Que pode contar com a ajuda e a boa vontade dos povos do mundo e de toda pessoa sensível. A causa de Cuba é a dos despossuídos, a dos marginalizados, a daqueles que se deparam com a vontade de submissão do império e resistem a ela.

Para além disso, a presença dos cooperantes na ilha
Ele afirma de forma categórica:
Para Michel, não se pode falar em ser de esquerda se não se presta atenção ao que está acontecendo em Cuba, ou ao que aconteceu em Gaza, ou ao que pode acontecer em qualquer parte do mundo onde as potências buscam esmagar a autodeterminação de nações pequenas em desenvolvimento.
Enquanto a direita internacional tenta ridicularizar a solidariedade do comboio Nossa América, Michel conclui:





