O germe do fascismo

Como um mal hereditário, nas novas gerações se reproduz com facilidade porque são gerações desvalidas, abandonadas à intempérie, carcomidas

Ilka Corado

0

Todos os posts do autor

Infestadas desse gene que acaba com o cérebro em um piscar de olhos, estas gerações não sabem de primaveras, têm vivido invernando em quartos escuros desde sempre, não conhecem o calor do sol nem a alegria do trinado das aves, são incapazes de sentir algo que esteja fora da margem de seu radar de fascistas. Inclusive não sabem que o são, porque carecem de raciocínio.

Estas gerações são como pacotes empilhados que carregam e descarregam em seus lombos os operários do mundo, como blocos de cimento, como montanhas de ferro que formam colunas nas quais se continua alicerçando o germe do fascismo. Não têm vida, não sentem o perfume das flores, não sentem a dor do outro e muito menos seu próprio fedor.

A sede do Partido Nacional Fascista (Roma, 1934) | por Recuerdos de Pandora

Estruturalmente o fascismo está nas salas de aula, como mofo nas paredes, na linguagem do docente, nos livros da universidade, na mensagem subliminar dos anúncios televisivos, na fila de espera de um hospital público, nas mãos do médico. Estruturalmente está no arquiteto que desenha mansões nas colinas, na sentença de um juiz, nas decisões da Corte Suprema de Justiça, nas grades de uma prisão, nos corredores de centros de detenção para menores.

Está nos direitos negados, nas árvores que se arrancam para que jamais regresse a primavera, e continuem invernando em quartos escuros as gerações que são alimentadas pelo germe do fascismo. Uma má nutrição que cria seres humanos insensíveis, egoístas, preguiçosos, machistas, racistas, homofóbicos, arrogantes e insensíveis que na menor oportunidade tratam de eliminar de qualquer forma a quem represente um perigo para seu cativeiro e tente abrir as portas desses quartos escuros e lhes mostre o frescor do vento, o calor do sol e a neblina das madrugadas.

A quem se atreva a mostrar-lhes as cores do arco-íris, das árvores no outono, o adejar das borboletas, a suave brisa do mar. O palpitar de um coração feliz, o sorriso das crianças, a quem lhes convide a sentir os abraços curadores dos avós.

Por sorte, sempre estão os inadaptados, os loucos, os sonhadores. Por sorte, sempre estão os atrevidos, os néscios, os imprudentes que se lançam de cabeça ao vazio sem recurso algum a não ser um coração livre. São eles os que milenarmente nutriram a resistência, e é a resistência que continua embelezando as primaveras.

*Colaboradora de Diálogos do Sul, desde território dos Estados Unidos

Comentários