Outro mundo melhor é possível: Porque devemos usar o poder colossal de nossa voz

O que seria de nós no dia em que a deixássemos sair? O que seríamos como humanidade? Como seres individuais?

Ilka Corado

Território dos EUA

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Estamos acostumados a que outros opinem por nós, porque acreditamos que o que temos a dizer não é importante, que carece de consistência e sentido: por não ter tal grau de escolaridade, por não ser de tal classe social, por não ter tal cor de pele, ser de tal gênero, por ter tal peso, por ter tal idade, tal estatura, gostar ou não gostar de tal coisa; em um dos tantos padrões com os quais crescemos neste mundo de estereótipos, covardia, classes sociais, presunção e patriarcado.

E ficamos em silencio, com o coração a mil, com as palavras em borbotões entalando em nossas gargantas, sem sair; por medo, por vergonha, por timidez, por não ter a coragem de atrever-nos a escutar a nós mesmos e que outros escutem o que temos que dizer.

E é assim como vamos nos relegando, nos auto censurando; nos isolamos, nos convertemos nas massas que veem como outros falam por elas, como outros se atrevem a dizer; como outros elevam a voz, expressam sua opinião, debatem, questionam, propõem, criam. E o que é pior, muitas vezes em um inconformismo próprio da luta pessoal e dos demônios pessoais, a essas pessoas que se atrevem nós as apedrejamos por haver tido a coragem de fazer o que nós não fazemos. E apodrecemos por dentro, no silencio, na raiva e na frustração. Por isso é que existem as drogas médicas com as quais permitimos novamente que outros nos digam o que sentimos, o que pensamos e o que devemos fazer com nossas vidas.

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Quando seremos nós nos expressando para que outros escutem o que temos que dizer?

Geralmente a esses outros lhes damos o poder de pronunciar-se em nosso nome, embora muitas vezes não estejamos de acordo com o que têm a dizer; por crer que não somos importantes e por isso não é importante tampouco o que temos que dizer, nos paralisamos e é assim como vemos à distância a imposição de um sistema que nos converte em marionetes. Em massas em frente ao televisor. Em massas acreditando tudo o que dizem aqueles que manipulam a informação. Em massas dando volta nos shoppings, ansiosas, desejando comprar o que não necessitam.

Em filhos que não se atrevem a falar com seus pais, em pais que não se atrevem a conversar com seus filhos, em casais sem comunicação que terminam se enganando e fingindo estabilidade para não romper com o que sabem que é uma farsa, em amizades de mensagens de texto. Em estudantes que não se atrevem a questionar seu mestre, em docentes que são incapazes de questionar seus alunos. Porque o dever do docente é outro, nos disseram, e não nos atrevemos a romper com o que outros nos impuseram.

E por dentro nossa voz desejando sair, arrebentando-nos o peito, doendo-nos os ossos, à flor da pele a enclausuramos uma e outra vez.

E assim nos sucede e passa a nossa vida, deixando que outros nos digam o que pensar, o que comer, como vestir-nos, porque somos incapazes de escutar nossa própria voz. O que seria de nós no dia em que a deixássemos sair? O que seríamos como humanidade? Como seres individuais? Como gênero? Como sociedade que se atreve a derrubar padrões? Derrubando classes sociais e estereótipos? Quando seremos nós nos expressando para que outros escutem o que temos que dizer? Nesse dia talvez desapareçam as drogas receitadas que nos mantêm sedados e excluídos de nosso próprio ser e da nossa própria voz.

Nesse dia desapareceriam as fronteiras que nos impuseram. Nesse dia começaria o sonho de outro mundo inclusivo e, talvez, de repente, em algum lugar, não veríamos mais crianças vivendo nas ruas porque escutando nossa própria voz, saberíamos que as crianças do mundo também são nossos filhos. 


*A autora é poeta e jornalista, vive indocumentada nos Estados Unidos e colabora com Diálogos do Sul.


Tradução: Beatriz Cannabrava

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