Novo filme de Alfonso Cuarón," Roma" marca retorno do cineasta ao México

Depois de 16 anos sem rodar em seu país, Cuarón entrega uma obra magistral. “Roma” é história, é pivô de mudança, é reflexão sobre relações humanas

Alfonso Gumucio

La Paz (Bolívia)

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“Roma” de Alfonso Cuarón é muito mais que a história de Cleotilde Gutiérrez (Yalitza Aparicio), a jovem empregada indígena mixteca em uma família pequeno-burguesa da Cidade do México no início da década de 1970. Cleo é sem dúvida a personagem central e ao seu redor evoluem as relações do clã matriarcal: Sofía (Marina de Tavira, a mãe), quatro filhos e a avó, enquanto que Antonio, o pai (médico), decidiu ir embora com outra mulher. No entanto, não se trata de um filme intimista de realismo cotidiano, pois diz muito mais sobre um momento histórico preciso na história do México e é mais do que uma história familiar. 

Houve quem quis comparar “Roma” com os filmes do neorrealismo italiano. Talvez o título do filme, o conflito social e a fotografia em preto e branco os tenha feito lembrar de “Roma, cidade aberta” de Rossellini, e com isso querem exibir sua cultura cinematográfica, mas seria demasiado óbvio, porque para penetrar na trama complexa do filme de Cuarón há que conhecer mais sobre história, arte, cultura e sociedade mexicana. É ali que está a chave, e não na Itália (embora Calígula e Nero são sugeridos, eu já direi onde).

Roma / Divulgação
Roma, o último filme de Alfonso Cuarón – o diretor de Gravidade e E Sua Mãe Também – ganhou o Leão de Ouro no último Festival de Veneza.

Para quem não conhece a cidade do México escapa um detalhe no título do filme. Cuarón chamou seu filme de “Roma” e não “a Roma”, como qualquer mexicano se referiria à colônia onde transcorrem as principais cenas do longa-metragem, na rua Tepeji 21, a casa de família onde confluem os conflitos. Creio que o fez porque queria dar ao título um duplo sentido: não só estabelecer a referência ao bairro (maravilhosamente reconstruído) onde Cuarón passou sua infância, mas, além disso, sugerir na mesma palavra a nação de cataclismo, de destruição, de mudança de época... E aí estão Calígula ou Nero, como parábola de uma sociedade burguesa que se desmorona, o que é evidente na separação de Antonio e Sofía, na maternidade frustrada de Cleo, no massacre de estudantes pelos Falcões em 10 de junho de 1971, e na metáfora do incêndio do bosque na Fazenda dos Zavaleta.

Em meio a esses eventos Cleo é a argamassa que mantém unidos os blocos. A empregada indígena é o fio afetivo da família, mas também está vinculada por seus próprios afetos a Fermín, que resulta ser um dos líderes dos Falcões, treinados pelo exército mexicano e pelos Estados Unidos para matar os estudantes, como aconteceu de maneira sangrenta três anos antes, em 2 de outubro de 1968, no massacre de Tlatelolco, e em 10 de junho de 1971 que Cuarón reconstrói com veracidade.

Por trás de ambos os crimes de lesa humanidade se perfila um dos personagens mais enigmáticos da história do México: Luis Echeverría, Ministro de Governo em 1968 e Presidente em 1971 (a quem, digo de passagem, conheci brevemente na instituição que dirigia, o CEESTEM, por intermédio de meu amigo “Chingo” Baldivia).  Embora a história oficialista tenha tratado de diminuir a responsabilidade de LEA em ambos os massacres, Cuarón lhe aponta diretamente o dedo, salpicando o filme com referências. Talvez por isso os grandes conglomerados da distribuição de cinema no México, eternos aliados do poder, se negaram a pôr em cartaz o longa-metragem, até que a avalanche de prêmios internacionais mostrou que os negócios passam na frente das ideologias.

Cuarón afirma que esta é sua obra mais pessoal, mas que sua intenção era fazer um filme “ao mesmo tempo íntimo e universal”, “sobre uma família, sobre uma cidade e sobre um país”. Aqueles que se concentraram somente no primeiro nó do conflito, a família, só entenderam um terço.

Não é casual que o trailer da Netflix, distribuidora do filme, destaque a palavra “mudança”. E tampouco é casual que cada vez que se olha para o céu haja um avião que o está sulcando, porque “Roma” é uma passagem de tempo entre a hegemonia pequeno-burguesa que se desvanece e o país que ingressa nos conflitos da modernidade. A película está semeada de pistas nesse sentido, por exemplo o enorme Ford Galaxie 500 que não cabe na garagem familiar, e sua substituição mais tarde por um Renault 12 TS que marca a nova independência adquirida por Sofía, um nome carregado de simbolismo.

A relação que podemos estabelecer entre “Roma” e outros referentes históricos e culturais, é com a pintura mural mexicana, de Rivera e Siqueiros, algo que a crítica de cinema não percebeu. “Roma” é um afresco, extenso, alongado como o formato da película e como os longos travellings que descrevem a cidade. É um afresco em preto e branco porque o que sobra dessa época são fotografias e filmagens onde a cor se esconde por trás de uma rica gama de cinzas. O próprio Alfonso Cuarón, formado como chefe de fotografia, se encarregou dessa tarefa que faz com que a obra se destaque pela beleza de sua imagem.

Cuarón controla todos os aspectos centrais da produção e o faz com uma solvência e uma segurança que provêm de sua vivência pessoal, de sua memória e das raízes que se bifurcam em direção à memória coletiva.

“Roma” trabalha a memória em dois níveis: um nível narrativo concreto, com datas identificáveis e personagens socialmente representativos, e um nível sublimado que é o da memória como lago interior que todos temos e podemos explorar, usar, resgatar ou compartilhar. É uma ode à memória individual ao mesmo tempo que recupera um período que não devemos esquecer.

E está também o tema indígena, central, essencial, mas desenvolvido sem demagogia, sem estereótipos e sem caricatura. Graças à versatilidade de Yalitza Aparicio, a professora primária convertida por primeira vez em atriz, Cuarón pode tratar o tema do mundo indígena na sociedade mexicana como uma bisagra na história da década de 1970. O papel dos indígenas muda e os indícios do que sucederá em Chiapas duas décadas mais tarde com os zapatistas já estão aí, mas não em sua maneira militarizada e espetacular, mas na crítica velada às relações feudais e ao paternalismo da sociedade acomodada para com a sociedade indígena invisibilizada.

Depois de 16 anos sem rodar em seu país, Cuarón entrega uma obra magistral, muito diferente à oscarizada “Gravity”, filmada em um gigantesco set com uma tela verde no fundo, para poder manipular os efeitos especiais e criar a ilusão do espaço. “Roma” é história, é pivô de mudança, é reflexão sobre relações humanas em conflito. 

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Não saber o que aconteceu antes de nós
é como ser incessantemente crianças.

Cicero


*Colaborador de Diálogos do Sul, desde La Paz, Bolívia


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