“Suraras do Tapajós”: música para empoderar mulheres indígenas em Alter do Chão

São muitos os preconceitos que precisam ser rompidos. Um deles, talvez o menos óbvio, é o que pretende definir o que e quem é indígena

Vanessa Martina Silva

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

Santarém (PA) (Brasil)

A Aldeia de Alter do Chão, distrito de Santarém, no interior do Pará, está queimando. As imagens que chegam para mim pelas redes sociais são acompanhadas pelos substantivos “tristeza” e “dor”. Estive na região de férias, em julho deste ano, e aproveitei para entrevistar (com os recursos disponíveis) as mulheres do único grupo de Carimbó indígena e feminino do mundo e o resultado você confere neste texto e no mini documentário que editamos com o conteúdo desta empreitada.

A região, considerada o Caribe brasileiro, por suas belíssimas praias de areia branca e a água doce, foi o cenário de encontro com as Suraras do Tapajós. Conversamos por pouco mais de meia hora, logo após o ensaio para a apresentação que fariam na quinta-feira, 18 de julho.

Reprodução / Facebook
Apresentação das Suraras do Tapajós

Carimbó

Carimbó é um ritmo indígena que incorpora a musicalidade negra e portuguesa. Em Alter do Chão, todas as quintas-feiras ele é celebrado no evento Quinta do Mestre. A celebração começa com um cortejo na praça — com os seres mitológicos do folclore local — e caminha pela avenida da cidade até chegar a um recuo, onde é montado o palco. Cada grupo leva uma prenda — comidas, quitutes em geral — para ser vendida e assim arrecadar recursos para o evento. E todos dançam.

Surara, em nheengatu, a língua-geral indígena na região amazônica, quer dizer “guerreiro” ou “guerreira”. O coletivo existe desde 2016 e carrega, em seu nome, a palavra de ordem, que também é a saudação comum aos indígenas da região, além do nome do Rio que as une. Daí Suraras do Tapajós.

Ao explicar o nome do grupo e o sentido das músicas que cantam, a turismóloga Leila Borari explica que a música que abre nosso documentário, “Cer Paranã”, não é um carimbó, mas é emblemática, porque fala do rio Tapajós e dos Encantados que o habitam.

Evento Quinta do Mestre em Alter do Chão, Santarém (PA) | Foto: Vanessa Martina Silva

O rio, para os povos da região do Baixo Tapajós, é mais do que nós seres da cidade — categoria em que eu me enquadro — entendemos. “A gente procura falar que o nosso rio tem um significado muito maior do que a gente consegue enxergar com os nosso olhos. Ele traz na história dos nossos ancestrais, nele moram os nossos Encantados, aqueles que nos protegem, protegem as florestas, nossas águas”.

Os Encantados habitam os rios e a floresta. A degradação ambiental expulsa esses seres e rompe o equilíbrio entre o homem e a natureza.  “Hoje nossos peixes estão contaminados com mercúrio. Automaticamente, nós que nos alimentamos do peixe, toda a população ribeirinha e das cidades e até os turistas comem peixe contaminado com mercúrio”, destaca Leila.

Confira o mini documentário “Suraras do Tapajós — Música Indígena e Resistência Feminina”:

(Texto continua após o vídeo)


Empoderamento

Além do engajamento em torno do tema ambiental, as Suraras trabalham para romper o machismo que ainda afeta muitas mulheres indígenas, como comenta Leila: 

“A gente entende que hoje as mulheres indígenas precisam estar na luta porque culturalmente são sempre os guerreiros, sempre os caciques que estão à frente. A mulher indígena precisa segurar na mão do guerreiro, estar junto e ir para a luta.”

Ellen Sateré-Mawé observa que o grupo tem como objetivo formar defensoras para que elas formem outros grupos de mulheres em seus próprios territórios, como já está sendo feito na região por integrantes das Suraras, que estão formando outros coletivos.

O grupo musical é parte desta estratégia, como ela observa: “a gente pode lutar de uma forma que a gente transmita cantando”. “O musical serve pra gente trabalhar também a nossa auto-estima, pra ter momento de alegria e de lazer, porque o tempo todo estávamos só militando. Então começamos a nos divertir”. 

O grupo Suraras do Tapajós é composto por mais de 30 mulheres, mas nem todas as integrantes do coletivo são parte do musical.

São muitos os preconceitos que precisam ser rompidos. Um deles, talvez o menos óbvio, é o que pretende definir o que e quem é indígena. Leila resume o descontentamento ao explicar o óbvio: “o fato de eu frequentar uma universidade e ter acesso a outros conhecimentos, outras línguas, não significa que eu sou menos indígena do que outra pessoa”. 

Afinal, “nós guardamos o nosso sangue, que é o sangue indígena, é a nossa herança ancestral. O conhecimento que a gente tiver fora, o que a gente precisa aprender para se fortalecer, para defender o nosso território, não nos faz menos indígena. Estando aqui ou fora do Brasil, a gente sempre vai ser indígena”, complementa.

*Com a colaboração de Mariane Barbosa 

Comentários