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Romper com rivalidade entre mulheres imposta pelo patriarcado é nossa missão de gênero

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação

Ilka Corado

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

Território dos EUA (Território dos EUA)

O domínio patriarcal pensa que nós mulheres devemos sentir inveja entre nós, agradece quando nos odiamos, nos culpamos, quando nos dispersamos em lugar de unir-nos. Quando estamos distribuindo rasteiras para ver cair aquela que acreditamos ser nossa rival. A rivalidade entre mulheres é produto dos padrões patriarcais com os quais crescemos e que estão em todos os âmbitos da sociedade. Romper com isso é nossa missão de gênero.

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação; essas meninas merecem crescer em uma sociedade onde as mulheres se comuniquem entre elas, onde se aplaudam as conquistas em lugar de se apunhalarem pelas costas. Uma sociedade onde se deem as mãos para avançar em busca de direitos, onde possam caminhar juntas e saber que qualquer mulher em qualquer lugar do mundo será uma aliada e não uma inimiga.

Sim, eu sei, são sonhos muito grandes, mas os cumes mais altos são conquistados passo a passo; já fizeram tanto as nossas ancestrais e ainda não é suficiente. O que estamos fazendo nós para continuar na construção desse legado? O que é que vamos dar em troca desses direitos que nos deixaram nossas antecessoras?  Porque a muitas delas lhes custou a vida; foram humilhadas, ultrajadas, desaparecidas para que nós hoje tenhamos o direito de levantar a voz, o direito ao voto. As meninas não merecem que lutemos pelo direito ao aborto?

Uma boa forma de começar a romper esse esquema patriarcal que nos divide seria começar a dizer a outras mulheres que estão bem, que lindos são seus sapatos de tal cor, que sua blusa lhe cai bem, que se expressou bem em tal palestra, que seu trabalho é excelente. Que tal saia a deixa linda, que seu sorriso irradia. Que sua maneira de ser é contagiosa. Que seu humanismo é admirável, que suas ações convidam a imitá-la.

E não há nada de mal em dizê-lo, não há nada de mal que uma mulher diga a outra que está bonita, que lhe cai bem a cor do seu batom, que é linda até sem maquiagem. Isso não quer dizer absolutamente nada mais que isso, que é linda e há que dizê-lo. Há que dizer às pessoas que fazem bem as coisas, quando as estão fazendo bem. Há que dizer que as admiramos por seu empenho, por seu esforço, por seu profissionalismo. Não há nada de mal que outra mulher seja quem o diga. Romper com o padrão da inveja entre mulheres é vital para derrubar o patriarcado. E não, isso não significa que a outra mulher seja homossexual e que se está dizendo isso com outra intenção. Esse é o primeiro modo com que o patriarcado nos desafia; duas mulheres podem admirar-se mutuamente e isso não significa absolutamente nada mais que isso.

Que tal se nos desafiamos e começamos hoje mesmo, olhando ao nosso redor e dizendo às mulheres que nos rodeiam que estão lindas, que fazem bem seu trabalho, que são admiráveis? Talvez custe um pouco no primeiro dia, mas no terceiro eu lhes prometo que será como andar de bicicleta.

E pouco a pouco iremos entrando na luta dos direitos de gênero, e assim oxalá um dia saibamos todas as mulheres que não é necessário colocar o sobrenome do esposo para ser alguém, para mudar de status ante outras mulheres ou ante a sociedade, que isso não nos faz mais importantes, pelo contrário, nos coloca na situação de objetos propriedade de uma pessoa. Porque, onde existe uma lei comum, em que o esposo possa colocar o sobrenome da esposa e diga publicamente sou fulano de tal, da mesma forma que sucede com as mulheres? Sim, isso também é opressão do patriarcado contra as mulheres.


*Colaboradora de Diálogos do Sul desde os Estados Unidos.

**Tradução: Beatriz Cannabrava

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