Escrever não é mais um desafio intelectual. É um desafio moral que leva à exaustão

As inquietudes pessoais vão engrossando uma lista interminável de atos impunes contra os quais rompemos as débeis lanças de outro discurso

Carolina Vásquez Araya

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

Cidade da Guatemala (Guatemala)

A cada semana busco no esmagador cenário do caos mundial esse item crucial, essa parte da realidade sobre a qual deveria explorar conceitos, ideias, informação relevante com o propósito de chegar a formar um texto suficientemente lúcido e veraz para compartilhar. É um parto difícil porque são muitos os monstros que nos rodeiam diariamente e nos colocam ante a disjuntiva de fincar-lhes o dente ou deixá-los passar. Mas então surgem as dúvidas e as urgências: a invasão do império contra povos indefesos; o abuso do sistema econômico ou o crescente fenômeno da busca de justiça ou liberdade? Depois penso em quão relevante é o papel que nos toca neste concerto desafinado do midiático, onde se cruzam os interesses diversos de nossas sociedades ante uma cidadania carente dos recursos para separar o joio do trigo porque lhe ensinaram a crer no que leem; a duvidar do que veem e a aceitar o discurso dos poderosos porque daí, desses círculos de um bem azeitado poder, depende seu trabalho, e em consequência, sua sobrevivência. 

Portanto, esse prurido que às vezes nos faz acreditar na pertinência e importância de nosso pensamento se dilui qual nuvem de verão ao sacudir o ego e compreender, em toda a sua dimensão, o fato irrebatível de que somos um elemento descartável no jogo dos grandes times. Um jogo em que predomina o discurso predeterminado, elaborado com o propósito de controlar a informação, definir os temas prioritários e calar as vozes independentes: esse molesto rumor da consciência cidadã capaz de alterar a ordem de um mundo feito sob medida. Desse modo, as grandes batalhas como as empreendidas pela igualdade de gênero ou o direito ao aborto, o respeito pela diversidade sexual ou os direitos dos povos originários, o fim da escravidão e da destruição do habitat, podem converter-se em um molesto – mas mais ou menos tolerado – ruído ambiental. 

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Por que essa urgência de compartilhar nossas preocupações ante um universo de leitores totalmente desconhecido?

Escrever uma coluna de opinião é um exercício doloroso se a intenção por trás desse esforço cotidiano reside em abrir uma janela à reflexão. Ao abordar um tema de atualidade e esmiuçá-lo em um texto limitado por quantidade de caracteres é necessário ter muito claro o lugar que nos corresponde nesse concerto; não conhecemos mais detalhes que os permitidos; não sabemos tudo; nossas fontes têm a água turva e a única ferramenta confiável ao alcance é a nossa fortaleza moral para elaborar uma mensagem coerente, honesta e bem estruturada. Sua difusão –ampla ou limitada- é, finalmente, um assunto secundário. 

Por que essa urgência de compartilhar nossas preocupações ante um universo de leitores totalmente desconhecido?  O que nos impulsa a lançar nosso protesto pelas aberrações cometidas pelos mais poderosos contra grupos específicos e povos inteiros ao redor do mundo, mas também aqui, ao nosso lado, em nosso entorno imediato?  Será que existe a possibilidade de incidir no processo de uma mudança tão hipotética como remota? As inquietudes pessoais – porque afinal de contas uma pessoa escreve sobre suas próprias batalhas – vão engrossando uma lista interminável de atos impunes contra os quais rompemos as débeis lanças de outro discurso, outra reflexão e, consequentemente, outra frustração ao comprovar que o nosso entorno continua girando na direção equivocada. Esta digressão é só isso: uma pequena revolução dos neurônios que ainda conservo, uma olhada breve às dúvidas essenciais desta colunista fiel. 


*Colaboradora de Diálogos do Sul desde a Cidade da Guatemala

**Tradução: Beatriz Cannabrava


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