Pesquisar
Pesquisar

"Debate mostrou que qualidade dos candidatos é péssima", diz cientista político

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Apesar de ressalvar que ainda estamos em um cenário em que “tudo pode acontecer”, o professor acredita, neste momento, que a campanha presidencial deve se encaminhar para uma repetição da polarização tradicional entre os candidatos do PT e PSDB, em paralelo a uma disputa para ver quem irá se consolidar como terceira força para romper com esse embate que se repete desde 1994.

Luís Eduardo Gomes, do Sul21

Após meses de especulação sobre quem seriam os candidatos de fato à presidência da República, a semana que passou marcou a largada da campanha presidencial. Na última quinta-feira (9), ocorreu o primeiro debate entre os principais candidatos ao Palácio da Alvorada, ainda sem a representação da candidatura do Partido dos Trabalhadores, visto que o ex-presidente Lula, que lidera as pesquisas de intenção de voto, não obteve a liberação da Justiça para participar do evento e seu indicado de momento a vice, Fernando Haddad, não foi convidado para substituí-lo. Para entender como está a situação e como se projeta o cenário da largada da campanha, o Sul21 conversou com Paulo Sérgio Peres, doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especializado em instituições políticas brasileiras, partidos e sistemas partidários.

Apesar de ressalvar que ainda estamos em um cenário em que “tudo pode acontecer”, o professor acredita, neste momento, que a campanha presidencial deve se encaminhar para uma repetição da polarização tradicional entre PT e PSDB, em paralelo a uma disputa para ver quem irá se consolidar como terceira força para romper com esse embate que se repete desde 1994.

“Normalmente, os marqueteiros dão uma força muito grande à comunicação da campanha, enquanto nós, da Ciência Política, olhamos as coordenações de bastidores e a estrutura partidária. O que a gente pode prestar atenção, nesse momento, é o seguinte: em que medida o Alckmin, com a sua estrutura, realmente vai decolar ou não? A candidatura do Alckmin (PSDB) decolar ou não é um ponto central ao lado da estratégia do PT. Para fechar a polarização entre PT e PSDB, está faltando o Alckmin decolar. Se não ocorrer, o Bolsonaro (PSL) tem grandes chances de ir para o segundo turno”, avalia Peres.

Na entrevista a seguir, o professor diz o que achou do primeiro debate presidencial, avalia a estratégia que o PT está adotando para a candidatura de Lula e como o desejo de renovação de grande parte da população brasileira pode se manifestar ou não no pleito de outubro.

Sul21 – Quais são os fatos mais relevantes que o senhor destaca após o primeiro debate presidencial?

Paulo Peres: Primeiro, foi um debate muito ruim. O que nós podemos tirar desse debate ruim? O formato de debate, clássico já, está bem ultrapassado. É um formato que faz com que, de fato, não ocorra um debate. É muito engessado. Ali deu para perceber inclusive que, por causa do formato, candidatos mais à esquerda, Ciro Gomes (PDT) e [Guilherme] Boulos (PSOL), tiveram um tempo bem menor para debater as questões. Se a gente fosse cronometrar o tempo de fala de cada um deles, veríamos que o Ciro e o Boulos ficaram de escanteio naquele debate. Segundo, a qualidade dos candidatos é péssima, para dizer o mínimo. Nós podemos dizer que ali, na prática, quem tinha alguma estrutura para ser candidato basicamente foram o Ciro Gomes, o Geraldo Alckmin, a Marina Silva (Rede), um pouco, e o próprio Boulos, de certo modo. O resto foi basicamente folclórico. Então, acho que foi um debate muito ruim, apesar de ter sido o primeiro e a campanha só estar começando agora, com desempenhos sofríveis do Álvaro Dias (Pode), por exemplo. O Meirelles (MDB) foi uma decepção completa. Alguém que teve tanto poder como ministro e no setor privado, em empresas multinacionais, não conseguia formular uma frase. Em terceiro lugar, um debate que, no fundo, acabou privilegiando a classe média e alta porque o horário também é muito ruim para o povo, em geral, acompanhar.

Confirma uma expectativa que eu já tinha há algum tempo. Ao contrário das previsões que vinham sendo feitas há um ano, de que seria uma campanha muito dividida em vários candidatos, assim como foi a de 1989, eu dizia acreditar que não, que, com o passar do tempo, as candidaturas iam se afunilando. E é o que aconteceu. Tudo indica que nós vamos ter a repetição do padrão que têm sido as campanhas presidenciais brasileiras desde a primeira eleição do Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que é uma polarização entre duas principais forças que se articulam, de um lado, em torno do PSDB e, de outro, em torno do PT. Isso sempre acompanhado pela disputa de uma terceira força. O próprio Ciro Gomes já foi essa terceira força (1998). A Marina já foi essa terceira força (2010 e 2014). O Garotinho já foi a terceira força (2002). E, dessa vez, talvez a novidade seja que hoje está mais fragmentada a disputa em torno dessa posição. Nós temos o próprio Alckmin e o Bolsonaro numa disputa para saber quem vai ser a terceira ou a segunda força. E aí nós temos o Ciro Gomes e a Marina também disputando essa terceira força. Mas, de um modo geral, acho que essa eleição caminha para o que tem sido agora. Acho que o debate de ontem mostrou isso. De fato, os melhores desempenhos talvez tenham sido do Ciro Gomes, que é uma força que está próxima do PT, e, por outro lado, do Alckmin. Quando começar a campanha para valer, o tempo de TV que o Alckmin tem e o de inserções de 30 segundos durante a programação, que é o mais importante hoje, provavelmente isso vai se acentuar.

 

Professor é mais um a prever mais uma disputa polarizada entre PT e PSDB | Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Como o senhor avalia a ausência do Partido dos Trabalhadores no debate? 

A participação do PT ou não no debate, neste ou nos próximos, tem que ser vista dentro de uma estratégia mais ampla do partido. Qual a estratégia que o PT adotou? Vem sendo criticada, mas eu acho também que, primeiro, o PT não tinha outra estratégia muito eficiente para seguir. Em segundo lugar, dentro das limitações do quadro político, é a melhor opção. Qual seja? Desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o PT assumiu uma posição de denúncia do que o partido interpreta como um golpe, que grande parte da sociedade também considera que foi um golpe político, e que a segunda etapa dele foi evitar que o PT voltasse ao poder nas eleições de 2018 com a candidatura do Luiz Inácio Lula da Silva. Não vou aqui dizer se é verdadeiro ou não, mas de fato é o discurso estratégico do PT, de que Lula preso era uma estratégia das oposições, da direita brasileira, de grandes forças empresariais, para evitar que o Partido dos Trabalhadores voltasse ao poder pelas eleições. Dentro dessa concepção, a própria defesa do Lula na Lava Jato, a reivindicação para que ele não cumpra a pena antes do prazo, inclusive de que o julgamento não foi justo, parte da estratégia de tudo isso é manter a candidatura do Lula, porque a estratégia de defesa é dizer que ele sofre uma injustiça jurídica porque é um perseguido político, porque se quer tirar o Lula da competição eleitoral. Então, não tem como o PT abrir mão da candidatura do Lula porque faz parte de um discurso.

Em segundo lugar, como o partido abriria mão da candidatura quando o Lula aparece entre 31% e 41% de intenção de voto, conforme o instituto de pesquisa. Que partido hoje pode se dar ao luxo hoje de ter um candidato com essa proporção de intenção de voto? Dado que o Lula tem essa quantidade enorme de votos, é óbvio que ele seria o candidato natural do PT, como sempre aconteceu. Então, não tem como escapar dessa estratégia. Dentro dela, acho que o PT tem conseguido ser bastante eficiente. Na verdade, a não participação do Lula no debate, fisicamente, significou que houve uma repercussão nas redes sociais e até fora delas, na imprensa internacional, muito grande. Quer dizer, enquanto alguns analistas interpretam que a não participação do Lula num debate pode sinalizar que, de fato, ele não vai ser candidato, a minha interpretação é outra. Para aqueles que já são antipetistas e não querem a volta do Lula, a sua não participação significa que, de fato, ele é carta fora do baralho. Mas para aqueles que querem a volta do Lula, que são simpatizantes do PT ou que pelo menos gostariam da volta de um governo com os mesmos indicadores do PT, a não participação do Lula foi a simbolização de que ele é um perseguido político, e isso tem se refletido nas redes sociais.

Agora, mesmo não participando fisicamente, também foi uma estratégia interessante porque o Lula esteve no debate. Se a gente prestar atenção, o candidato do MDB, Henrique Meirelles, ele se apresentou ali, de maneira muito verbalizada, como o candidato do Lula. Porque todas as justificativas para a sua candidatura, tentando capturar voto dos eleitores, foram enfatizando que durante a sua estadia como presidente do Banco Central no governo Lula o País crescia, tinha renda, tinha praticamente pleno emprego. Então, o Lula esteve presente. Acho que foi, dentro dos limites possíveis, a única estratégia viável. Na verdade, o Lula continua presente na campanha e continuará nos debates mesmo não participando.

A pergunta que todo mundo se faz é a respeito da capacidade de transferência de votos do Lula para o Haddad. Como o senhor avalia essa capacidade? 

A dificuldade do PT é o tempo, o timing, porque o Haddad é colocado agora, mais ou menos oficialmente, como plano B. Está garantido que a Manuela é candidata a vice e o que não está garantido é quem é o candidato a presidente, se é o Lula ou o Haddad. Sem o Lula, seria o Fernando Haddad. O problema do tempo é que, se o PT vai insistir na estratégia, de maneira coerente, de que o Lula é o candidato, só não vai ser se for barrado, e para isso o PT vai até as últimas consequências, toda a tramitação do processo de ratificação da candidatura ou não, se chegar ao Supremo Tribunal Federal, e é possível que isso aconteça, isso vai levar a um tempo muito próximo do primeiro turno. Pode ser que a gente esteja às vésperas do primeiro turno e o PT ainda esteja brigando para o Lula ser o candidato oficial do partido. Quanto menor esse tempo de o Lula de fato ungir o seu candidato, declarar ‘É o Haddad’, ‘O Haddad é quem fala por mim’, ‘Caminha por mim pelo Brasil’, menor o tempo disso se espalhar pelo eleitorado. Então, acho que essa é uma dificuldade da transferência de votos dele nesse momento.

Se a gente retornar para a primeira eleição da Dilma, a capacidade de transferência de votos do Lula foi total. Naquela época, as pesquisas mostravam que, de fato, o Lula podia até eleger um poste. Tem colegas que estudam neurociência e eles testavam a associação do Lula. Se ele dissesse, naquela época, que era para votar no Alckmin, o candidato da oposição, votavam no Alckmin. Hoje, isso já é mais difícil. O Lula tem um capital eleitoral muito importante, que gira em torno de 30%. Fora disso, precisa convencer os eleitores que podem voltar a ser simpatizantes ou não. Trinta por cento é suficiente para levar um candidato para o segundo turno, mas não para vencer o segundo turno. A capacidade de transferência, é difícil de medir isso, mas tenho a impressão de que hoje ela é menor do que foi no primeiro mandato da Dilma e, de certo modo, no segundo mandato da Dilma. Por quê? De fato pode ocorrer essa transferência até para uma questão de evitar o candidato contrário, Alckmin e Bolsonaro. Vamos pensar o seguinte: o Lula consegue transferir tudo dos que até agora dizem que vão votar no Lula. Ainda assim, são só 30%. Vamos imaginar que ele não consiga transferir tudo, que ele consiga 20%. Dá para pensar que esse candidato conseguiria ir para o segundo turno, mas aí entra esse problema do timing. Quanto mais tempo demorar para fazer isso, menor a possibilidade de essa informação se espalhar por um eleitorado que não se informa tanto assim em relação à política, e que é grande parte do eleitorado do Lula.

 

Avaliação de Peres é que PT não pode abrir mão de candidatura de Lula, mas não pode perder o timing de anunciar alteração na chapa | Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Também não faz parte da estratégia o fato de que o PT vai ter muita mídia gratuita, digamos assim, por causa do debate se o Lula vai ser candidato ou não?

É possível. O problema é o seguinte: como é que vai se desenvolver essa campanha? O que não está muito claro. Por exemplo, uma vez começando para valer no rádio e na televisão, se o Lula ainda estiver brigando na Justiça com a possibilidade de ser candidato, essa campanha vai ser centrada no Haddad ou vai ser centrada no Lula, já vai tentar fazer essa transferência ou não? Os debates daqui para frente podem seguir o mesmo padrão. Quer dizer, se o Lula é o candidato do PT e ele não pode participar do debate, as emissoras não vão chamar o Haddad porque ele é candidato a vice, e aí ele continua ausente. Acho que essa ausência tem um simbolismo importante, mas naquele conjunto de eleitores que já estão mais ou menos se encaminhando porque acreditaram na estratégia e no discurso do PT de que há um golpe, de que há uma injustiça com o Lula. A dificuldade é convencer para além de 30%. Como é que o PT vai conseguir fazer isso vai ser só a partir do segundo turno, não dá ainda para saber como vai ser exatamente isso. Os dois cenários podem acontecer. A única dúvida que eu tenho é que, se o partido demora em deixar claro que o candidato é o Haddad e adota uma estratégia clara de campanha em torno do Lula, tentando associá-lo de maneira já explícita ao Haddad, como irá conseguir atingir uma parte grande do eleitorado, mesmo nesses 30% que já se declaram favoráveis ao PT?

É um eleitorado que uma parte dele não tem muito acesso e não gosta muito de ter acesso à informação de campanha. As campanhas na TV têm uma audiência super baixa, então essa briga por tempo de TV, que o PSDB conseguiu ter muito porque fez uma aliança com o Centrão, é muito mais olhando para as inserções de 30 segundos do que para o horário eleitoral gratuito. O PT terá poucas inserções proporcionalmente. A dificuldade é essa, quanto menor o tempo, mais difícil essa comunicação da possibilidade de transferir. Agora, o que vai entrar em campo é muito mais uma posição do eleitorado favorável a políticas que o PT representou. Independente de ser o Haddad, acho que tem 30% que estão sendo vinculados ao PT, mas que, na verdade, é um grupo de eleitores que está insatisfeito com os rumos da política no Brasil depois que o Temer assumiu. E aí quem o PT indicar, ou até se for um segundo turno sem o PT, vamos imaginar uma disputa entre Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, acho que esses 30% tendem a ir para o Ciro. A dificuldade dele é chegar ao segundo turno.

O senhor acredita ser possível um segundo turno entre Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro?

Alguém já disse que, no Brasil, não dá para fazer previsão nem do passado. Então, do jeito que as coisas caminharam nos últimos três, quatro anos, não dá para descartar. Não dá para descartar que o Bolsonaro possa chegar ao segundo turno. Eu desconfio que, se ele chegar, terá enorme dificuldade de vencer as eleições. Não descarto, como falei, não dá para descartar nada, mas ele teria sérias dificuldades. Agora, mesmo chegar ao segundo turno vai ser um desafio para o Bolsonaro, porque, até aqui, ele consegue aglutinar eleitores de uma direita mais extrema que começaram a aparecer no Brasil, a se mostrar, e isso vem crescendo, até eleitores de centro-direita e de centro que estão muito descontentes com a política. Então, todos eles identificam no Bolsonaro um desaguadouro disso. Só que agora a campanha começa e a estrutura partidária ainda é muito importante. O Bolsonaro, mesmo com o vice que ele agora tem, só vai ter em torno de 12 segundos de tempo de horário eleitoral gratuito e muito poucas inserções. Segundo, ele é de um partido pequeno que não tem como negociar composições estaduais. Como ele vai negociar apoio num estado dizendo: se você me apoiar na Paraíba, eu apoio o seu candidato a senador e não lanço candidatos. Ele não tem isso. Tanto é verdade que os partidos do Centrão — e ali não tem nenhum bobo, é tudo profissional da política –, no frigir dos ovos, na hora H, foram para o Geraldo Alckmin, porque o PSDB tem uma capilaridade nacional, tem mais capacidade de negociar acordos regionais.

É importante lembrar que a eleição presidencial acontece simultaneamente às eleições regionais para governador, senador e deputado. Então, é um jogo de coordenação de estratégias muito complexo. É isso que entra agora em cena. O Bolsonaro não tem como negociar isso. Por outro lado, o PSDB tem isso, o PT tem isso. Olha a negociação do Lula, mesmo na prisão, conseguindo isolar o Ciro Gomes no Nordeste. Acho que, daqui para frente, o Geraldo Alckmin tem potencial, não sei se vai acontecer, de estrutura partidária, não de carisma pessoal, para decolar um pouco mais e acho que talvez assumir a dianteira em relação ao Bolsonaro, ou pelo menos para disputar em pé de igualdade. Então, tem uma grande chance do Bolsonaro nem ir para o segundo turno, mas não descarto, porque ele parte de um patamar de intenção de votos muito alto.

Muito se falou nos últimos anos sobre o quanto o povo gostaria de uma renovação e do cansaço com os velhos políticos. No debate, todo mundo quis se apresentar como novo, teve até o momento anedótico do Cabo Daciolo (Patriota) listando o tempo de vida pública dos outros candidatos. Mas isso tem um fundo de verdade, são pessoas que estão há muito tempo no cenário político se apresentando como novidade. Como o senhor vê esse desejo de renovação da população, que parece ser real, e o fato de serem caras velhas disputando o poder?

Frustração com a falta de renovação é da natureza do sistema político, avalia professor | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O desejo do novo é recorrente. Se a gente for voltar na eleição do Collor, queriam novidade e ele apareceu como tal, embora fosse de uma família de longa data na política e ele mesmo já tivesse participação. Então, de vez em quando tem isso, inovação e novidade. A demanda por novidade não é só no Brasil, é só olhar a eleição do Macron na França, por exemplo. De certo modo, representou uma novidade, porque não só elegeu alguém que tinha conexões com o mundo político, mas não era um político profissional, como por um partido novo, criado em torno dele, que conseguiu também bastante representação no parlamento. Há um desgaste mundial com a democracia, na verdade. Ela gerou muito expectativa, só que ela tem limites de fazer as coisas, porque pressupõe negociações, acordos com forças políticas e muitas delas são tradicionais. Isso gera frustração. No caso brasileiro, isso aconteceu com o chamado presidencialismo de coalizão. Ou seja, nenhum presidente consegue governar se não formar uma coalizão majoritária de partidos no Congresso. Como você vai fazer isso se todos os partidos são ocupados por velhas raposas na política? Você até pode ter um presidente defendendo novidade, querendo fazer algo diferente, mas ele vai ter que fazer composição com o Congresso, o que é articular com as forças políticas tradicionais. É isso que gera essa insatisfação.

Por outro lado, tem a dificuldade que o sistema político, não só no caso brasileiro, tem de renovação. As organizações têm o seguinte problema: são criadas por fundadores que, depois de muitos anos, já são velhas raposas do partido e têm poder lá dentro. Ao mesmo tempo que eles precisam renovar a organização, tem muito medo de abrir espaço para uma nova liderança. Se a gente olhar o cenário nacional, todos os partidos estão com dificuldade de renovar lideranças. Olhando a candidatura presidencial, por exemplo: Lula é uma figura ainda da transição democrática. Alckmin, também. Ciro Gomes, também. Bolsonaro, também. Marina, de certo modo, é uma figura de uma geração posterior, mas também. A dificuldade é essa, não tem como o sistema político gerar uma novidade tão nova assim porque a política tem um tempo de processamento diferente da expectativa da população em geral. Então, a frustração, de certo modo, é algo normal na política. Quando aparecem novidades muito inovadoras, outsiders, geralmente a gente tem péssimas experiências. O Collor, o Macri na Argentina, por exemplo, porque a política é uma atividade profissional.

Vamos imaginar o próprio Cabo Daciolo. Ele é de fato uma figura nova. Deputado há pouco tempo, uma liderança de movimento grevista, curiosamente com um discurso antissocialista, mas que veio do movimento sindical. Se ele fosse eleito, primeiro, que novidade que ele representa? Com discurso bíblico e tudo, na verdade é discurso conservador, não é novidade. Que condições teria de governar? Se o Bolsonaro fosse eleito, como ele iria governar? É possível ser de direita, é uma posição justificada, legítima, mas o Bolsonaro não tem condições de governar. Então, mesmo alguém com condições de governar, vamos imaginar que o Ciro tenha condições, tem um discurso que por um lado é inovador e por outro não é, terá que negociar com as forças políticas tradicionais. Uma péssima notícia para os leitores do Sul21 é que a política é um campo de muitas insatisfações, porque a gente demanda novidades, a gente demanda fazer diferente, mas as forças políticas têm um processo de renovação muito lento e nós sempre vamos estar um pouco frustrados.

Como reação a esse cansaço – não só no Brasil, mas também na Europa -, vemos, por um lado, o crescimento do extremismo. Você vê um perigo real nesse descolamento entre a política e os anseios da população?

Sim, geralmente isso caracteriza períodos de crise profunda, que podem levar ao apoio a soluções que podem ser autoritárias, totalitárias, à esquerda ou à direita. Ou seja, toda vez que o sistema político não consegue processar minimamente as demandas gera uma frustração tão grande que as pessoas se desencantam e, como não há solução fora da política, eles vão buscar a política fora do sistema, o que normalmente costuma ser pior. Quer dizer, o crescimento da ultra-direita na Europa, de certo modo, representa isso, a dificuldade do sistema político europeu processar os novos problemas do século 21. A Europa enfrenta problemas de mudança cultural muito grande, das famosas políticas identitárias, isso faz com que grupos conservadores se levantem em reação a essas demandas ou até a legislações favoráveis às políticas identitárias. E, por outro lado, a questão dos refugiados, o que também acaba sendo um problema cultural, porque eles acham que a cultura deles está se perdendo, o emprego está se perdendo. Quando o sistema político não consegue processar isso, quer dizer, se, ao defender os direitos humanos, receber esses refugiados, acolhe políticas identitárias, mas frustra grande parte da população e não sabe fazer essa mediação, para onde essa população vai? Vai defender partidos mais radicais. É o que tem acontecido na França, na Suíça, na Holanda, e agora na América Latina. O fato é esse: o sistema político tem que ser capaz de processar a diversidade de interesses e demandas sociais. Se ele não consegue fazer isso, nós temos o perigo de grupos radicais, seja à esquerda, seja à direita.

Um elemento muito importante da renovação é o Congresso Nacional. Mas, dadas as condições do jogo, as regras que aparentemente facilitam quem já tem mandato, é possível isso acontecer ou a previsão é de manutenção do cenário atual?

Há dois tipos de renovação que as populações mundial e brasileira demandam: uma renovação da prática política, de como fazer política, e outra dos políticos, já estão cansadas das mesmas figuras. No caso do Congresso brasileiro, um dado interessante é que a taxa de renovação tradicionalmente é alta. Em torno de 40% do Congresso, mais ou menos, é renovado a cada eleição. Mas que renovação é essa? Na verdade, é uma renovação de nomes. Às vezes chega no Congresso alguém que não é um iniciante na política, alguém que já foi vereador, já foi governador, já foi deputado, passou por outro cargo e está voltando. Então, essa taxa de renovação mostra o seguinte: daqueles nomes que estavam antes, 40% foram renovados. Mas isso não significa que foi uma renovação efetiva, de novas figuras, de novas políticas. Esse ano, uma hipótese possível é pensar que essa taxa de renovação vai ser ainda menor. Por quê? O período de campanha é pequeno, então candidatos já conhecidos, com capital eleitoral e uma rede de relações já estabelecida, tendem a se dar melhor. Além disso, os próprios partidos já mostraram que a distribuição do fundo eleitoral vai privilegiar quem já tem mandato. E, óbvio, quem tem mandato atualmente está desesperado para se reeleger porque muitos deles estão querendo escapar de algum modo da Lava Jato. É um momento dificílimo para eles. Querem garantir a continuidade de mandatos numa situação que empresas não podem doar mais. Então, daí vem a briga pela criação do fundo eleitoral e depois para a distribuição desse recurso. Esses indicadores mostram que, provavelmente, a taxa de renovação, mesmo de nomes, talvez seja menor esse ano. Acho que vamos ter uma taxa grande de reeleição. E aquela que não acontecer é porque esse deputado resolveu se candidatar a governador ou senador, e ele vai continuar no sistema político com mandato. De novo, a frustração. Na campanha presidencial não vamos ter grandes novidades e na campanha para o Congresso nacional, seja para deputado federal ou senador, também não devemos ter tantas renovações. O mesmo vale para os deputados estaduais.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

LEIA tAMBÉM

Presidente colombiano Gustavo Petro enfrenta escândalo de corrupção envolvendo altos funcionários
Presidente colombiano Gustavo Petro enfrenta escândalo de corrupção envolvendo altos funcionários
Milei
Javier Milei acusa FMI de sabotagem e enfrenta divisões internas no governo
FOTO ADRIAN PEREZ     evo morales
Evo Morales denuncia "autogolpe" de Arce e mantém ambições políticas na Bolívia
Disputa por Esequibo e interferência de Argentina, EUA e Grã-Bretanha ameaçam eleições na Venezuela
Disputa por Esequibo e interferência de Argentina, EUA e Grã-Bretanha ameaçam eleições na Venezuela