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Debate presidencial EUA 2024: se quiser salvar democracia, país terá que aprender com esquerda francesa

Como já advertia Noam Chomsky está em jogo não só a sobrevivência dos Estados Unidos e o que lhe resta de democracia, mas do planeta, já que o Partido Republicano sob Trump se tornou um “partido neofascista”
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Dez dias que sacudiram a cúpula política dos Estados Unidos a partir do agora famoso debate presidencial em que se exibiu, por um lado, um candidato que ocupa a Casa Branca tropeçando sobre si mesmo, revelando o que ele e seus aliados estavam tentando ocultar: que já não tem a capacidade de ser novamente presidente – tudo enquanto seu oponente, Donald Trump, oferece sua receita neofascista com essa mistura local de arrogância e ignorância.

Ante o crescente e incessante coro a favor de que abandone a contenda, Biden argumenta que o que se exibiu no debate foi só por cansaço e um resfriado, um mal episódio na campanha longa e, em uma entrevista, declarou que ele não necessitava um exame cognitivo “porque cada dia me submeto a um exame cognitivo… tudo o que faço… não só estou fazendo campanha, mas estou governando o mundo”. Ou foi uma das grandes confissões imperiais da história ou só outro sinal mais de que o senhor já não entende o que diz, ou não diz o que entende.

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Declarou que contemplará abandonar a contento “se Deus Todo Poderoso baixar e me disser, talvez o faria”. Mas supostamente é o povo e não Deus que decide quem os representa em uma democracia. E por ora, na opinião da maioria do povo, segundo a pesquisa do New York Times mais recente, depois do debate, três de cada quatro entrevistados opinam que Biden é demasiado velho para manejar a presidência. Ainda mais, não há precedentes na história recente onde um presidente que sofre de uma taxa de aprovação tão baixa como a de Biden (36%) ganhe sua reeleição.

Conjuntura mais do que especial

Em qualquer outra conjuntura, nada disto seria de grande interesse, seria só outra contenda mais no autoproclamado farol da democracia. Mas desta vez, como já advertia Noam Chomsky no ano passado, está em jogo não só a sobrevivência deste país e o que lhe resta de democracia, mas do planeta, já que o Partido Republicano sob Trump se tornou um “partido neofascista” e “talvez na organização mais perigosa do mundo”.

É incrível que o candidato que está por ora ganhando é um criminoso convicto, que enfrenta outros três julgamentos: foi declarado culpado pela violação de uma mulher e de fraudes empresariais, cujo manejo da pandemia custou centenas de milhares de vidas de maneira desnecessária, que impulsionou uma tentativa de golpe de Estado e foi o primeiro mandatário a interromper o translado do poder Executivo pacífico na história – isto só parte de um currículo que nem registra seus constantes enganos e mentiras nem seus constantes tropeços verbais e mostras de incompetência mental. Como dizem alguns: e as pessoas creem que o outro é que não deveria continuar na contenda?

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“Desperta América. Não ao socialismo, não ao comunismo. Ajude a salvar a América e o mundo. Vote pelo regresso de Trump” e “Trump tinha razão em tudo. Desperta América antes que seja demasiado tarde” são algumas das mensagens nas estradas em partes deste país.

Tormenta diabólica

A loucura maligna que invade, que toda pessoa consciente percebe, que se vê desde todas as torres de vigilância, requer um escape à esperança, e isso só é possível através da ação frente a esta tormenta diabólica.

Nas eleições na França, a ultradireita, cuja vitória foi prognosticada, foi derrotada pela Nova Frente Popular da esquerda. Os Estados Unidos terão que aprender da resistência francesa antifascista para salvar a Estátua da Liberdade – afinal de contas ela foi um presente da França.

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“Indubitavelmente cada geração crê que a sua está destinada a refazer o mundo. Minha geração sabe que não o fará. Mas talvez sua tarefa seja ainda maior. Prevenir a desintegração do mundo”, disse em francês, Albert Camus em seu discurso ao aceitar o prêmio Nobel.

Talvez essa seja a meta na grande disputa atual dentro do superpoder cuja decadência põe em risco o mundo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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