Escuta sobre igualdade de gênero passa por entender a Xaria e por reflexão antropológica

Revista Diálogos do Sul

O mundo tem desigualdade de gênero e isto nada tem a ver com o Islã, nem com a Xaria. Se internacionalistas e outros desconhecem pressupostos básicos da religião, imaginem o senso comum, principalmente quando se trata da Xaria e sua devida aplicação.
Francirosy Campos Barbosa*

Nós pesquisadores de Islã nos deparamos cotidianamente com textos mal escritos e mal fundamentados utilizando conceitos islâmicos e contextuais de universos diferentes. Talvez, fruto de leituras enviesadas, de incapacidade reflexiva que quer a todo custo colocar pautas ocidentais sobrepostas às pautas desses países e para isso fazem uso de entrevistas semi-estruturadas, destacando falas soltas, mas sem consultar fontes ou outros interlocutores.

Sei bem o quanto o tema — Islã — tem uma complexidade imensa que se agiganta a cada conceito, passagem alcorânica ou hadice do Profeta (ditos e falas do Profeta Mohamed), pois, mesmo depois de mais de 20 anos pesquisando em comunidades muçulmanas não me atrevo a discutir determinados temas pela complexidade que se apresentam, por isso, continuo estudando e pesquisando e, como antropóloga, posso aferir que a regra nem sempre é a prática e o que se falam de países islâmicos muitas vezes pela imprensa passa longe da realidade dos mesmos. Sempre vou considerar que para se falar de um povo, de uma cultura, de uma religião, é preciso minimamente vivenciar esta realidade com eles, e mesmo assim, como nos alertava o antropólogo Clifford Geertz, nossa interpretação será sempre de segunda ou terceira mão.

Busco agora fazer uma (re)leitura do artigo “Atos políticos e manifestações por igualdade de gênero ganham força no Oriente Médio” a fim de apresentar outros pontos que não apresentados pelas autoras, o que, ao meu ver, sugere desconhecimento do campo de dentro. Para começar, minha primeira parada foi no título, pois este me acionou o sinal de alerta. A ideia que o debate de igualdade de gênero ganha força no Oriente Médio me faz perguntar quando nasceram as autoras do artigo. Oras, isso não é novo, pode-se, forçosamente, dizer que a mídia está dando mais espaço ao tema, entretanto, em 2014 escrevi um artigo para o ICArabe sobre a Primavera Árabe e o movimento das mulheres argumentando que o movimento das mulheres não advém da Primavera Árabe em si, é muito anterior a existência de organizações de mulheres feministas ou não apresentadas naquele período no país. As mulheres nunca estiveram em silêncio. Isso é uma grande falácia ocidental, achar que mulheres muçulmanas, sejam elas do Oriente Médio, do Irã ou da África estejam em silêncio e emergem apenas em momentos de conflitos.

O artigo reforça ainda estereótipos. Tomemos um dos destaques dado:

“Enquanto na Arábia Saudita as mulheres só recentemente foram autorizadas a dirigir automóveis, e, no Irã, uma revolução tolheu boa parte dos direitos femininos, no Líbano, elas podem, inclusive, usar biquíni na praia. O que essas realidades têm em comum? O contraste entre a luta pelos direitos das mulheres no mundo islâmico e o papel delas dentro da religião em países em que os muçulmanos representam mais de 50% da população”.

Chamar atenção para o direito de dirigir de forma descontextualizada, assim como, expor de forma inadequada a Revolução Iraniana, sem dizer como o país vivia antes, e achar que o uso do biquíni significa liberdade demonstra que as autoras ainda não fizeram a lição de casa: estudar os contextos, a história desses países e os movimentos de mulheres. Cabe dizer que as agendas das mulheres diferem de um país a outro e não se pode dizer que desejam ou almejam a mesma coisa.

No Irã, por exemplo, o número de mulheres com curso superior é muito maior que no Brasil

No Irã, por exemplo, o número de mulheres com curso superior é muito maior que no Brasil, assim como o número de mulheres no Parlamento e isso também é fruto da Revolução Iraniana. Educação não seria pauta de mulheres iranianas, entretanto, nós brasileiras ainda lutamos por qualidade de ensino da escola primária à universidade.

Quando se fala da “obrigação” do uso do véu, logo se vê que não se conhece cidades iranianas que têm vestimentas diferentes de uma cidade para outra. Isto já dá um caráter de diálogo entre as autoridades religiosas e o universo feminino. Por quê? Quando? Porque mulheres passaram a compreender a Xaria: o véu é sim uma obrigação religiosa, mas não deve ser imposta, deve ser recomendada. Não vejo problemas nas diversas reivindicações e não há mal nenhum em citá-las, o que vejo é um mau uso da história do país, como se antes da Revolução as iranianas vivessem um paraíso da liberdade o que não é verdade.

Enquanto o senso comum ataca a Xaria, como faz esta matéria, eu vou na contramão e penso que se ela fosse entendida de fato as mulheres teriam menos problemas, pois a Lei Islâmica estabelece às mulheres direitos há 14 séculos como:

1) escolher seu marido;

2) direito ao divórcio; 3) direito ao conhecimento - isso é regra no Islã, não é favor; 4) direito ao prazer sexual, sendo que é obrigação do marido dar prazer sexual a sua esposa, ser delicado nas preliminares, etc; 5) cobrar que os homens sigam a sunnah, por exemplo, o Profeta Muhammad cuidava das suas próprias roupas, dos seus objetos, era atencioso com sua esposa; 6) direito à herança; 7) direito a usar o seu dinheiro como quiser; 8) mulheres muçulmanas não adotam o nome do marido. Vale dizer aos desentendidos de Xaria, isto é, a maioria dos leitores, que a Xaria é praticada em 80% mais ou menos em todos os países que há muçulmanos, inclusive no Brasil, porque faz parte da Xaria: rezar, fazer jejum, pagar o zakat, fazer o Hajj, adorar a Deus, enfim muitas práticas são advindas das Xaria (Alcorão e Sunnah). Outra informação equivocada no respectivo artigo é a idade do uso do véu sugerido pelo Sheik, citado como sendo aos 15 anos. A recomendação dos sábios tem o entendimento que é a partir da primeira menstruação, mas isso foi sendo mudado, dialogado e hoje, bem sabemos, que a menina/mulher é quem deve expressar esta vontade de usar o lenço. É direito dela esta decisão, e não de homens. Não pode haver imposição no seu uso, como já vimos acontecer, isso é repudiado por muitos líderes religiosos. A idade vai variar de país para país islâmico que seguem a Xaria. Vi meninas no Irã com oito anos usando lenço, em outros países não há uma idade fixa, tem relação com a puberdade, mas não só, há fatores contextuais que podem ser usados, uma comunidade que é composta por uma maioria de homens, acaba fazendo com mulheres sintam-se mais protegidas estando cobertas. A roupa islâmica deve seguir a modéstia, o cobrir-se faz parte de uma conduta religiosa e o modo como se cobrem as mulheres diferem muito de um país a outro.

Outro equívoco é resumir o papel das mulheres em cuidar da casa e dos filhos (extraindo esta informação da fala de uma única pessoa), sem dizer que as mulheres têm direito à educação como os homens. É esperado no Islã que homens e mulheres busquem o conhecimento.

Também não é atributo apenas da mulher a educação dos filhos. Hoje, principalmente, se espera que pais participem ativamente da vida das crianças, assim como o Profeta fazia. Quem faz pesquisa em comunidades turcas, bem sabe que os pais têm participação no cuidado dos filhos. É divertido ver pais correndo atrás das crianças, enquanto as mães conversam com suas amigas tomando chá. Regra? Não, necessariamente, mas o trabalho de campo nos dá outros olhares que não são aqueles que leram matérias no Google ou matérias replicadas pelas agências de notícias para construir seu pensamento sobre esses comportamentos islâmicos e não-islâmicos.

Prosseguindo a leitura do artigo temos o tal #mosquemetoo criação de uma feminista egípcia, para “dar voz” às mulheres muçulmanas, e as autoras continuam querendo “dar voz”. Não há coisa mais prepotente que pesquisadores acharem que estão dando voz a alguém, quanto mais quando este alguém é uma mulher, que fala por si, e fala há muito tempo, apenas não tinha (tem) sido ouvida por determinados pesquisadores/jornalistas, etc.

A peregrinação à Meca, quinto pilar do Islã, uma obrigação religiosa para quem tem saúde e dinheiro é um dos rituais mais difíceis a ser realizado pela aglomeração de mais 3 milhões de pessoas. No Hajj o peregrino pode encontrar o sagrado e o profano, assim como em outros rituais com aglomerações deste porte ou menores. Mas falar sobre isso não é algo novo, apenas foi sinalizado para a imprensa, o que não significa que não exista acompanhamento desses casos. Meca como qualquer outra cidade sagrada vai apresentar problemas de todas as ordens, por conta das aglomerações e da intenção das pessoas que se encontram em circulação. As mudanças virão dos próprios peregrinos que se ajudam quando se encontram nesses locais de adoração.

Sobre cabelos ao vento, biquíni, xador, hijab, podemos dizer que nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Há vários discursos sobre os usos das vestimentas, se há aquelas que querem não usar o xador, há aquelas que usam por vontade e não se sentem na obrigação, na verdade a única obrigação é servir a Deus nesta prática. Quando falamos em biquíni também chegamos à nossa hipocrisia ocidental.

Vamos usar biquíni, mas não é qualquer corpo de biquíni que queremos ver na praia. Quantas mulheres são desestimuladas do seu uso porque estão acima do peso? Simplesmente porque a nossa sociedade define um “corpo perfeito”. Ah sim! Precisamos nos desconstruir sobre que mulher somos e aquela mulher que queremos ser, nada mais antropológico do que observar o nosso fazer e como engendramos nossas pautas e indiretamente queremos impor as mesmas a outras culturas, outras mulheres. Nossa sociedade é a sociedade do feminicídio, da violência doméstica, mas temos receitas para “salvar” outras mulheres. Nos consideramos à frente, civilizadas.

Fico pensando em que estação de trem estamos parados e em que movimento está o trem à nossa frente, fazendo uma analogia ao texto Raça e História de Lévi-Strauss (recomendo a leitura), para entendermos nosso falso evolucionismo e as categorias que criamos para nos tornamos superiores aos demais. É preciso compreender que as sociedades islâmicas têm historicidades diferentes de outras sociedades (basta ver o calendário lunar), e isso, é algo a ser considerados nas análises, para não corrermos os riscos de dizer que “eles” precisam percorrer muito para chegar à nossa “civilidade”.

Por fim, dizer que o Líbano tem traços de desigualdade de gênero é pouco. O mundo tem desigualdade de gênero e isto nada tem a ver com o Islã, nem com a Xaria. Importante salientar que muitos professores de Relações Internacionais desconhecem o que se passa em comunidades islâmicas e os conceitos da própria religião, muitos apenas sobrevoam as realidades vividas, mas poucos de fato conhecem essas realidades, ou buscam informações corretas sobre esses contextos estudados.

Se internacionalistas e outros desconhecem pressupostos básicos da religião, imaginem o senso comum, principalmente quando se trata da Xaria e sua devida aplicação. Quando se pensa Xaria, eles se remetem às penalizações e/ou violações dos direitos humanos, dois grandes equívocos. Primeiro, que as penalizações (código Penal) se referem a 4% da lei islâmica e isso só é decidido por conselhos de juristas e sábios, hoje muito do que se aplicava antigamente é revisto pela Ijtihad (Interpretação) ferramenta jurídica que contribui para avaliação de vários casos. Os objetivos da Xaria (Maqasid Shari´a) são: o direito à vida, à religião, à propriedade, ao conhecimento, à descendência (linhagem). Sem falar que uma pequena busca na internet o leitor pode encontrar a carta de direitos humanos no Islã. Sinal que essas questões fazem parte do cotidiano de qualquer comunidade islâmica.

Dito tudo isso, concordo apenas que temos muito que avançar quando se trata de direitos das mulheres, mas isso não é a particularidade de uma cultura ou religião, isto tem que ser uma mudança mundial, mas que deve partir, sobretudo, das mulheres, e não das mulheres que queremos que tais mulheres sejam. Nossa luta enquanto mulher que somos é para que cada uma encontre a sua maneira de ser respeitada dentro do seu universo, dentro da sua religião, respeitando a sua identidade, a sua noção de pessoa e não necessariamente tem que ser moldada pelas/os ocidentais.

* É antropóloga, docente do departamento de Psicologia da FFCLRP/USP. Coordenadora do Grupo e antropologia em contextos islâmicos e árabes (Gracias). Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras (São Paulo: Editora Terceira Via, 2017). Email: franci@ffclrp.usp.br

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