Foto: Mídia NINJA

Eleições 2018: Os cristãos não podem defender o ódio e a violência pregada por Bolsonaro

A CNBB e outras entidades manifestaram seu repúdio a toda e qualquer manifestação de ódio, violência e desprezo aos direitos humanos

Vilma Amaro

O Brasil, e boa parte do mundo, assiste estupefato à candidatura do deputado federal  e capitão da reserva, Jair Bolsonaro, (pelo PSL-Partido Social Liberal) à presidência do país, nas eleições que serão disputadas no próximo dia 28 de outubro .

Diante de tudo isso e do grave perigo que correm a democracia, as instituições e a população brasileira -em especial os trabalhadores, professores, intelectuais e os setores mais desfavorecidos- a Igreja Católica, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras entidades manifestaram, no dia 18 de outubro, seu repúdio a toda e qualquer manifestação de ódio e desprezo aos direitos humanos de qualquer cidadão brasileiro, “assacadas sob qualquer pretexto que seja, contra indivíduos ou grupos sociais, bem como a toda e qualquer incitação política, proposta legislativa ou de governo que venha a tolerá-las ou incentivá-las”.

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“Não existem salvadores da pátria, mas uma democracia que precisa ser permanentemente construída"

O documento defende, ainda, a liberdade de imprensa e se manifesta contra a divulgação de falsas notícias como veículo de manipulação eleitoral, para que se garanta o livre debate de ideias e de concepções políticas divergentes. A nota é assinada, em nome da CNBB, por seu secretário geral, dom Leonardo Steiner, bispo auxiliar de Brasília.

No texto, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait), a Associação Brasileira dos Advogados Trabalhistas (Abrat) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) pediram “a pacificação e a concórdia durante o 2º turno das eleições 2018 e depois do pleito”.

“Não há desenvolvimento sem pacificação social, como não há boa governança sem coerência constitucional, e de que tampouco pode haver Estado Democrático de Direito sem Estado Social com liberdades públicas", afirmaram.

Com o mesmo objetivo, em entrevista para o site UOL, Dom Leonardo Steiner, afirmou que a Igreja Católica pede que seus fiéis se posicionem contra discursos de ódio e violência e apoiem aqueles que ajudem a preservar e não destruir sistemas democráticos. Esse é um tema -observou- que os padres podem abordar nas celebrações religiosas, com a ressalva de que, por lei, não podem se manifestar a respeito de candidatos. 

“Temos dois candidatos à presidência-lembrou –e o que pedimos é que o eleitor católico observe se os candidatos pregam mais a democracia e se buscam a convivência fraterna, com base na educação, no respeito, na justiça social, ou não”. E continua “não existem salvadores da pátria, mas uma democracia que precisa ser permanentemente construída". Dom Leonardo também criticou a avalanche de notícias falsas e disse esperar mais notícias verdadeiras por meio de um debate amadurecido das propostas dos candidatos.

Da mediocridade para a alavancagem da direita

O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, em seus 30 anos como deputado, teve desempenho medíocre, não apresentando nenhum projeto de relevância. Mas tentou aprovar e não conseguiu projeto que estabelecia a excludente de ilicitude nas ações de agentes públicos em operação sob intervenção federal destinada a pôr termo a grave comprometimento da ordem pública. Nesses casos –propõe- quando do emprego da força por agentes públicos em operação, em Estado sob intervenção federal de que trata o inciso II do artigo 34 da Constituição Federal, resultar ofensa à integridade física de terceiros, será prontamente aplicada a excludente de ilicitude legalmente prevista nos casos de legítima defesa e de estrito cumprimento do dever legal, projeto que não foi aprovado pela Câmara Federal. Ou seja, o agente poderia matar e não ser submetido à consequente responsabilização e punição.

Em vídeo citado pelo frei franciscano Sérgio Antonio Gorgen, o candidato da extrema direita, falando a um grupo de latifundiários contrários à demarcação das reservas indígenas, defendida pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Bolsonaro, com seu habitual destempero, afirmou que a CNBB é a parte podre da Igreja Católica.                     

A CNBB é presidida pelo cardeal de Brasília, Dom Sérgio Rocha. É uma das entidades religiosas mais respeitadas do país sempre em defesa da democracia, dos direitos humanos e das populações mais desfavorecidas. 

Apesar de suas posições beligerantes, Jair Bolsonaro encontrou apoio nas grandes denominações evangélicas, na Igreja Universal do Reino de Deus, do pastor Edir Macedo e na Assembleia de Deus. Edir, interpelado por um fiel, declarou apoio a Bolsonaro. Pouco depois, Bolsonaro concedeu entrevista à televisão Record, do pastor Edir, no mesmo horário em que seria realizado o debate com Fernando Haddad, na TV Globo. Debate, ao qual o candidato da extrema direita vem sistematicamente se recusando a participar, no seu dizer como parte da “estratégia de campanha”.

Bolsonaro tem amplo apoio no segmento evangélico, com suas posturas conservadoras, como oposição ao aborto, aos LGBTs , à liberação de drogas, ao casamento de pessoas do mesmo sexo, à educação sexual nas escolas e a chamada ideologia de gênero.

Sobre a pauta de armar os que denomina “pessoas do bem”, a Igreja Evangélica vem mantendo silêncio, bem como sobre as ações de agressões de seguidores do candidato da extrema direita contra oponentes. Bolsonaro também recebe apoio de outros partidos que concentram grande número de evangélicos como o Democratas (DEM) e o Partido Social Cristão (PSC). Entretanto, igrejas evangélicas tradicionais, como a Batista, a Luterana, a Metodista, a Anglicana e a Presbiteriana tem se manifestado contra suas colocações radicais. 

Uma das propostas que causa restrições nestas igrejas evangélicas é a de rever o Estatuto do Desarmamento que Bolsonaro quer modificar para entregar armas às pessoas que denomina “de bem”. Essas pessoas de bem são latifundiários e grileiros que querem ter milícias para defender suas terras. É um dos pontos que faz com que muitos evangélicos não consigam votar nele”, diz o pastor Luiz Roberto Silvado, presidente da Convenção Batista Brasileira. 

Entretanto, segundo pesquisas, Bolsonaro lidera entre os evangélicos que alguns analistas consideram não como um voto anti petista, mas, sobretudo conservador.

No lado oposto, outros grupos de denominações neo pentecostais  como Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito; O Amor Vence o Ódio e Evangélicos contra Bolsonaro´, em matéria no Brasil de Fato, consideram que Bolsonaro incita ao ódio e isto é o contrário do que é pregado pelo Evangelho. Afirmam que Cristo morreu na tortura e não aceitam a defesa dessa violência pregada sistematicamente por Bolsonaro.


*Colaboradora de Diálogos do Sul – vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais –SP; ex conselheira do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe-SP)


Links:

http://www.franciscanos-rs.org.br/cnbb-a-parte-podre-da-igreja-catolica/

http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/cnbb-e-mais-seis-entidades-pedem-equilibrio-vesperas-das-eleicoes

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/08/cnbb-pede-a-catolicos-que-elejam-candidatos-favoraveis-a-democracia.htm

https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/372822/Evang%C3%A9licos-de-todo-o-pa%C3%ADs-se-mobilizam-contra-Bolsonaro.htm

http://www.franciscanos-rs.org.br/cnbb-a-parte-podre-da-igreja-catolica/

http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/cnbb-e-mais-seis-entidades-pedem-equilibrio-vesperas-das-eleicoes

http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/bolsonaro-e-haddad-tem-propostas-antagonicas-para-direitos-humanos

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/08/cnbb-pede-a-catolicos-que-elejam-candidatos-favoraveis-a-democracia.htm

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