Cultura do feminicídio: A luta incompreendida pelo homem sentado ao lado

“Um feminicida em série foi um menino, como todos. O que aconteceu com esse menino para que termine fazendo isso?”, questiona escritora

Ilka Corado

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“Violaram uma mulher na parada do trem em tal estação”, disse o apresentador de notícias, sem se importar, com esse rosto que têm os que veem a violência de gênero como coisa natural. Quantas mulheres são violadas nas paradas de ônibus e de trem diariamente no mundo? Coisa natural para a sociedade que somos.

“A esportista tal de tal país foi encontrada morta às margens de um rio, tinham lhe cortado um seio e a cabeça”, disse a jornalista de esportes na televisão nacional, sem piscar, e em seguida a apresentadora perguntou como ia a sua gravidez e soltaram as gargalhadas celebrando o próximo nascimento. Sem um mínimo de respeito pela família da vítima e de indignação pelo feminicídio.

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Para esta sociedade patriarcal a mulher merece, pede e tem que ser violentada constantemente porque gosta disso

“Já sei que é patriarcado, mas eu gosto de dizê-lo, o que é que tem isso? Me têm respondido homens e mulheres por igual quando trato de explicar-lhes que dizer filho da puta a um imbecil, a um ladrão, a um abusador ou a um político corrupto não é violentá-lo, é violentar a todas as mulheres por igual. Porque para a sociedade patriarcal todas as mulheres somos putas.

É puta a menina que apareceu morta no lixão: puta por viver na rua, puta por viver com sua família, puta por sair de noite, por sair de dia, por não sair; puta por usar saia, por usar calça. É puta a adolescente violada e desmembrada; puta por ter namorado, por não ter, por sorrir para um estranho, por não sorrir. É puta por dizer sim ou por dizer não. É puta por ter relações sexuais, por não as ter.

É puta a mulher que desapareceu e encontraram seu corpo em outro bairro, golpeado e violado. É puta porque não se deixou mais tocar por seu esposo, seu namorado, seu amante. Puta porque denunciou, puta por não denunciar por medo ou por vergonha em uma sociedade que sempre julga e assinala a vítima e nunca o vitimador. Puta porque não tinha namorado, nem esposo, nem amante. Puta porque era homossexual, puta por ser transexual. Puta, simplesmente por ser mulher.

Para esta sociedade patriarcal a mulher merece, pede e tem que ser violentada constantemente porque gosta disso, gosta que a insultem, que lhe batam, que a violem, que a desapareçam, que a matem. E não a violentam seres de outras galáxias, homens criados em outros mundos; nos violentam nossos irmãos, nossos filhos, nossos amigos, conhecidos, nossos companheiros de trabalho, nossos pais e avôs. Homens que cresceram conosco com os mesmos padrões de violência patriarcal.

Às mulheres violadas nas estações de trem as violaram homens que cresceram no mesmo sistema misógino que solapamos. Porque, que fique claro, solapar e guardar silêncio ou virar a cara e fazer-nos de desentendidos tem o mesmo peso moral do que fazer as coisas. É tão culpado o que faz como o que sabe e não denuncia. E isso é que somos, uma sociedade solapadora da violência de gênero criando homens violentos.

Um feminicida em série foi um menino, como todos. O que aconteceu com esse menino para que termine fazendo isso? O homem que vai a um bar para violar uma menina é um homem que tem família; que é filho, irmão, pai, amigo, é avô. Que têm mulheres em sua família, que nasceu de uma mulher. E não acreditemos que os abusadores são apenas pessoas de baixos recursos que não tiveram a oportunidade de estudar, porque vemos gente com doutorado e mestrados fazendo a mesma coisa. O patriarcado não distingue raça, cor, credo, classe social nem grau de escolaridade. Senão vejamos a negação de acadêmicos e intelectuais franceses para que fechem os bares e as casas de encontro na França.

É o mesmo homem que vai se manifestar contra a corrupção. Sim, muitos desses homens que enchem as ruas manifestando-se porque subiu a gasolina vão aos bares violar mulheres; agridem suas companheiras, suas filhas, suas irmãs, suas mães; são os que vão pela vida gritando de tudo às mulheres na rua ou em seus locais de trabalho. É o homem comum que todos temos em casa. É a razão pela qual nas marchas contra o feminicídio e a violência de gênero os homens não abarrotam as ruas junto às mulheres, porque o que menos pensamos, resulta também abusador.

Para o patriarcado é puta a mulher livre, a que pensa, a que se atreve a viver sua vida, a independente, a mulher decidida; o patriarcado nos quer submissas e caladas para que qualquer homem se sinta com direito sobre nós. Não pertencemos a ninguém, não somos objetos.

Seguiremos criando gerações de homens violentos? Até quando? Seguiremos acreditando que somos umas santas e chamando as outras de putas? Até quando? As redes sociais mostram o que somos como humanidade, aí tudo é aparência, mas no que não mentem é na opinião que têm sobre a violência de gênero. Basta ler os comentários dos leitores quando se publica uma notícia de um feminicídio; a maioria culpa a vítima e sua família: aos pais por “soltá-las demais” e a elas por “putas”.

Às vezes sinto que a luta contra a violência de gênero, contra o patriarcado, por mais que nos manifestemos, por mais dias comemorativos que existam, por mais denúncias que se façam, por mais mortes violentas e mais dor que nos enlute como sociedade não a poderemos erradicar. Quando vemos a metade de um país gritando a um presidente neoliberal “Macri a puta que te pariu”, em recitais de poesia, em concertos, em estádios, nas manifestações de massa e sabendo que há meninos que estão aprendendo com o exemplo.  Essa mesma gente que sai a manifestar pelos feminicídios, não entendem que tudo tem a ver com tudo?

E assim mesmo vemos intelectuais, defensores de direitos humanos, feministas, artistas, poetas, cineastas, acadêmicos, colocando a etiqueta “#MMLPTP” para qualquer publicação que façam nas redes sociais. Muitas vezes denunciando a violência governamental com violência machista. 

E o pior de tudo, tratar de explicar-lhes que isso é patriarcado e violência de gênero e que respondam: “isso eu já sabia, mas continuo dizendo – o que é que há demais nisso? Aí, a gente se dá conta de que está arando no mar, mas há que continuar fazendo-o porque é a única luta que podemos dar ante nosso pior inimigo a vencer, há que insistir até o cansaço e ainda mais. 


*Colaboradora de Diálogos do Sul

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