Padre Amaro: "Não quero morrer, mas vou enfrentar o que for pela luta que acredito"

Considerado o sucessor da missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005, José Amaro Lopes da Silva, vive uma hoje uma vida de ameaça e resistência

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Anapu (PA) (Brasil)

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Considerado o sucessor da missionária Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos, José Amaro Lopes da Silva, mais conhecido como padre Amaro, vive hoje uma vida de ameaça e resistência.

Defensor da distribuição justa de terras e da preservação dos povos e da floresta, padre Amaro conheceu o trabalho da estadunidense Dorothy Stang ainda na década de 1990.

Desde então, atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT) em  Anapu, no Pará, no médio Xingu, uma das regiões de maior conflito agrário do país.

“A cabeça da irmã Dorothy valia R$ 50 mil na época; a minha, R$ 25 mil. […] O objetivo deles era matar nós dois, como não conseguiram, tombaram ela. A equipe se manteve e continuamos com o trabalho até que provas foram forjadas contra mim para que eu pudesse ser incriminado”, conta.

Em meados de 2018, Amaro foi acusado e ficou 92 dias preso. A denúncia foi feita por fazendeiros da região em um processo cheio de irregularidades. Durante esse período, dois habeas corpus foram negados pela Justiça do Estado e o religioso só foi solto, como medida provisória, quando o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Confira abaixo a entrevista concedida durante o lançamento do livro "Direitos Humanos no Brasil". Trata-se de uma publicação anual organizada pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, em parceria com dezenas de organizações sociais de vários setores e regiões do Brasil.

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Defensor da distribuição justa de terras e da preservação dos povos e da floresta, padre Amaro conheceu o trabalho da americana Dorothy Stan

Maura Silva: Qual a situação na luta pela terra no Pará?

Padre Amaro: Existe uma frase famosa no Pará que sempre carregamos nas faixas e mobilizações por sua simbologia: 'No Pará a impunidade mata e desmata'. Para muitos lá não é terra de gente, a minha companheira de 15 anos de trabalho foi assassinada. Quando eu fui preso, fiquei junto com um dos mandantes do assassinato dela, pouco tempo depois da minha entrada na cadeia, ele recebeu um habeas corpus e hoje, 13 anos depois, reponde pelo crime em liberdade. Lá, quem manda é quem tem dinheiro, o trabalhador e a trabalhadora rural são vistos como bandidos, que burlam a lei. Quando uma terra, que é pública, é ocupada, ele é ameaçado, agredido e assassinado.

Esse é o cenário no qual resistimos.

Como ficou a perseguição ao senhor depois da morte da irmã Dorothy?

Quando a Dorothy foi assassinada, em 2005, a cabeça dela estava valendo R$ 50 mil;  a minha, R$ 25 mil. O objetivo deles [para a polícia, depoimentos na época reforçam existência de 'consórcio do crime' na região] era matar os dois, como não conseguiram, tombaram ela. 

A equipe da CPT se manteve e continuamos seguindo com o trabalho, até que o mesmo consórcio que encomendou as mortes, forjou provas contra mim para que eu pudesse ser incriminado e, consequentemente, afastado do trabalho que desenvolvo na região. Eles querem a todo custo me tirar de Anapu, passei 92 dias preso no centro de recuperação de Altamira, me prenderam, mas o povo continuou lá, sobrevivendo e lutando.

A perspectiva com o novo governo é de recrudescimento. Qual seu maior receio diante disso?

Uma das preocupações é que no estado temos muitas áreas em disputa, com a eleição do novo governo ,que desde já profere ameaças, o medo é que isso se confirme. Nós sabemos que quando não dá para matar, eles criminalizam. E criminalizam com o objetivo de anular todo um processo histórico de resistência.

Como é seguir em luta diante da ameaça e da violência?

Em nome do trabalhador, em nome do Deus, que eu acredito que quer vida digna para todos e todas, é triste chegar em uma acampamento e sentir o cheiro da fumaça queimando o pouco daquelas famílias. Ver gente coberta de fuligem, suja de cinza, dormindo no meio do capim com medo de ser morta. Essa gente não é bandida, a terra ocupada é pública, direito do trabalhador e dever do Estado. O que queremos é um pedaço ínfimo de terra para trabalhar e viver. Como não se indignar? Como não lutar diante de tanta miséria e desigualdade? Eu não quero morrer, mas, depois de tudo o que passei, eu estou pronto para enfrentar o que for pela luta que eu acredito.

Na sua opinião, como devemos enfrentar o próximo período de criminalização?

Nós sempre tivemos uma boa relação com o MST, relação de respeito e de solidariedade. Assim como a CPT, o MST também sofre com a criminalização, com a falta de informação e com a intolerância. É tempo de recrudescimento, de ameaça e de incertezas, mas, se nós dermos a mãos, esse governo não se mantém. O poder é popular e deve vir do povo e para o povo. Quando isso acontecer, nenhuma força será capaz de destruir uma história inteira de luta pela terra e por dignidade.

Acompanhe abaixo entrevista em vídeo:

*Da página do MST - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra


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