Barão do Itararé

Financiada pelos bancos, mídia chilena esconde fracasso da capitalização da Previdência

Os grandes banqueiros são os principais anunciantes da mídia chilena. Como vão criticar as AFP, que os financiam?

Linha de frente na luta pela democratização da comunicação no continente, Javiera Olivares, professora e coordenadora do Programa de Liberdade de Expressão da Universidade do Chile, e Rocío Alorda Secretária-Geral do Colégio de Jornalistas do Chile, são referências para todo aquele que queira compreender o papel jogado pelos meios de comunicação na disputa de ideias.

A partir do golpe de 1973 e da imposição da sangrenta ditadura de Augusto Pinochet, a mídia chilena, cuja tradição era de ter espaço para a diversidade de opiniões, passou a ser extremamente partidarizada, além de viver um cenário de monopolização sem precedentes.

“Os meios são concentrados economicamente e editorialmente e não só estão associados à direita, mas atuam como vanguarda desse setor político”, define Javiera, que também é ex-presidenta do Colégio de Periodistas.



No Chile, as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP) detêm uma expressiva parcela do Produto Interno (PIB), a partir do sistema de capitalização da Seguridade Social -implantado pelos economistas conhecidos como “Chicago Boys”, associados à ditadura de Pinochet- determinam o que deve ou não ser dito pelos jornais e emissoras de rádio e televisão.

“Os grandes banqueiros são os principais anunciantes da mídia chilena. Como vão criticar as AFP, que os financiam? É um beco sem saída”, sustenta Javiera.

Esta é a razão dos meios de comunicação – “que retratam a concentração do horror” - manipularem de forma tão grosseira, mentir sobre os impactos da privatização no dia a dia dos idosos ou simplesmente invisibilizar gigantescas manifestações populares que, desde 2016, têm as bandeiras do movimento NO+AFP (Basta de AFP) como um dos carros-chefe. Anteriormente, lembra Rocío, “mesmo quando a mídia falou das marchas contra as AFP, é claro que foram quase notas de rodapé”.

Para fazer soar o alarme sobre o real significado do sistema proposto por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes para o Brasil, o ComunicaSul se reuniu em Santiago, no dia 9 de abril, com as duas lideranças, que fizeram ecoar este importante alerta sobre os impactos do nefasto sistema de capitalização da Previdência

Barão do Itararé
Javiera Olivares, professora da Universidade do Chile, e Rocío Alorda Secretária-Geral do Colégio de Jornalistas do Chile

Confira a entrevista

No Brasil vivemos um momento de grave concentração dos meios de comunicação na mão de poucas famílias. Como é esse cenário no Chile?

Javiera – Para entender o panorama dos meios de comunicação no Chile, é preciso ter em conta que o país se encontra em um momento histórico atípico. O nível de concentração e a própria tendência à concentração dos meios é mais alta que nunca. A falta de diversidade na mídia está em uma dimensão sem precedentes. É uma concentração do horror. Apesar de histórica, piorou. E a tendência é seguir aumentando.

Diferente de alguns países do continente [que também padecem deste alto nível de concentração], não contamos com nenhum meio público. Apenas a Televisión Nacional, financiada por publicidade. Mas não temos nenhum meio universitário, somente via Internet, com baixíssimo alcance. E por fim, há capitais privados muito importantes e poderosos no Chile, mas “estrangeirizados”.

No caso dos meios privados, há um duopólio na imprensa escrita (La Tercera e El Mercurio). Na televisão, uma avalanche de canais privados com capital estrangeiro. 45% das rádios estão nas mãos de um grupo espanhol, o grupo Prisa, e o resto são todas privadas.

Nesse contexto, empresas tão poderosas, que lidam com o dinheiro da aposentadoria do povo chileno, na casa dos bilhões de dólares, obviamente são atores importantes para esses meios privados. As AFP são empresas valiosas, que anunciam e pagam muito dinheiro aos meios. Esta é uma análise básica do ponto de vista econômico.

Javiera Olivares, ex-presidenta do Colegio de Periodistas do Chile. Foto: Reprodução 

Há praticamente uma simbiose, uma promiscuidade...

Rocío – Exato. Essa relação de intimidade entre a imprensa e os grandes grupos econômicos é uma das marcas do Chile pós-ditadura. Até porque os grandes grupos econômicos são nada menos que donos de muitos desses veículos. Ou seja, não é apenas um monopólio econômico, mas também ideológico. É um cenário complexo, difícil de permear outros discursos e pontos de vista. Como problematizar a falta de Seguridade Social no Chile quando os próprios donos das AFP sustentam os grandes meios de comunicação?

Rocío Alorda, Secretária-Geral do Colegio de Periodistas do Chile 

Daí a ausência de debate e a abundância de tergiversação?

Javiera – Ewa Sapiezynska, uma pesquisadora europeia que fez seu doutorado no Chile, justamente sobre os meios de comunicação, analisa as coisas que não aparecem, que são invisíveis nos discursos hegemônicos da “grande mídia”, o que ela chama de “ausências estruturantes”. O conceito trata das coisas que acontecem e estão aí, que são importantes para a realidade chilena, mas que não aparecem nos meios de comunicação.

Um exemplo recente: duas semanas atrás, houve um show musical muito grande no Chile, com mais de 5 mil pessoas, em defesa da paz na Venezuela e contra a intervenção estadunidense. É claro que não apareceu em nenhum veículo. É o mesmo que acontece com os estudantes, com as mulheres, com os idosos que morrem de fome. Até aparecem, mas como uma experiência individual, uma aneta, com uma cota de morbidez, mas que não se contextualiza e não coloca os problemas em discussão. Por que uma pessoa que trabalhou a vida inteira está, depois de velha, morrendo de fome? A resposta é que não se contextualiza porque as ausências estruturantes têm a ver com uma das principais finalidades dos discursos hegemônicos: construir e reforçar a ideia, na cabeça dos chilenos, de que não temos direitos. Só consumimos. Não somos cidadãos, somos consumidores. Por isso, não devemos exigir nada, apenas pagar. Se pagamos, temos uma boa vida. Se não pagamos, azar.

É mais eficiente omitir do que mentir?

Rocío – Há um problema central, quando falamos em comunicação, em relação ao exercício dos direitos e da cidadania no Chile. Casos que têm a ver com direitos e cidadania, como o caso de Mario, o condutor de ônibus que precisou levar sua esposa, com Alzheimer, para o trabalho junto com ele, são tratados como exceção. A jovem que não pôde fazer faculdade, pois não tinha recursos, a mulher que não pode abortar porque não tem acesso às clínicas caras… são exceções? Não. São questões que são tratadas sem abordar a raiz dos problemas, sem abordar a situação estrutural que vive o país, sem abordar como as corporações cooptam um monte de direitos. Os meios de comunicação chilenos atuam sobre uma lógica bastante clássica, que é tratar de maneira espetacularizada e individualizada questões que são problemas de toda a sociedade.

Há mais de 30 anos, a mídia chilena trata como excepcionais casos que são violações sistemáticas de direitos, sejam trabalhistas, humanos ou educacionais. Esse é o mecanismo.

Javiera – Laboratório e experimento primogênito do neoliberalismo na América Latina, o mais terrível do sistema chileno é que, ainda que as pessoas sejam totalmente vulneráveis em seus direitos, elas não têm a mínima consciência desta condição. Está naturalizado, no Chile, que o que você tem é o que você pode ter. É dramático que as pessoas perderam a capacidade de assombro. Sempre pode piorar, mas não importa, é parte da vida, é a ordem natural das coisas. É essa a mentalidade predominante nas narrativas dos grandes meios de comunicação do país.

Quando falamos em mudar esse quadro de apatia, quando ocorreram rupturas, como o movimento NO+AFP, a luta dos estudantes pela reforma educacional em 2011, a explosão feminista nos últimos dois anos… Quando isso ocorre, os meios concentrados editorial e economicamente, ideologicamente associados à direita política, e inclusive fazendo papel de vanguarda da direita, não contam essas histórias. Essa é a ideia de ausências estruturantes. Algo está ocorrendo no Chile, mas disso não se fala. E aqui não temos ombudsman, não temos conselhos de comunicação, não temos nenhuma instância para questionar essa postura dos meios de comunicação e denunciar a falta de ética jornalística.

E a falta de regulação é vista como um cheque em branco pelos donos da mídia.

Rocío – Há uma completa falta de institucionalidade para a regulação, a observação e o estabelecimento de critérios para tratar dos temas relacionados à comunicação. É uma situação de violação constante de direitos, também, por parte dos meios de comunicação. Produzem realidades fictícias e situações falsas, destroem reputações. A grande luta das mulheres pelo direito ao aborto, que vem ocorrendo há anos no Chile, só rompeu o bloqueio informativo quando o tema foi levado ao Parlamento para votação. Foram dois ou três anos em que o debate foi confinado, foi colocado do lado de fora dos muros da mídia.

No caso das AFP, teve de ocorrer uma marcha com mais de um milhão de pessoas nas ruas, em 2016, para que o tema fosse ‘lembrado’ pelos meios. São décadas de domínio perverso das AFP e nunca foram pauta.

Javiera – Mesmo quando a mídia falou das marchas contra as AFP, é claro que foram quase notas de rodapé. E pior: ainda trataram o tema de forma a relacionar o movimento NO+AFP a determinado candidato à presidência. As pautas levadas às ruas pelo movimento, com mais de um milhão de pessoas,são interditadas

As promessas da ditadura ao instalar o sistema das AFP - pensado à época por José Piñera, irmão do atual presidente Sebastián Piñera - não foram cumpridas. Prometiam que entre os anos 1980 e 1990, os idosos chilenos estariam todos milionários, nadando em dinheiro. Uma falsa promessa que, claro, foi amplificada pelos meios de comunicação.

Jogar esse papel não era a tradição dos meios de comunicação do Chile antes do golpe. Até então, a histórica tradição da mídia chilena era a da diversidade de opiniões. Havia pontos de vista de direita, claro, o que não é nenhum problema. O problema é quando só existe este ponto de vista. Foi isso que ocorreu após a ditadura e persiste até hoje.

São ausências de questões estruturais, de debates importantes e profundos, mas também a total criminalização dos atores que propõem estes debates. Ou você é invisível, ou você é delinquente, marginal, ou como se diz aqui, “antissocial”. Alguém que não é capaz de se adaptar à sociedade.

E vale lembrar que o Chile é um país com um número expressivo de idosos.

Rocío – Quando falamos das AFP, o problema se agrava. O Chile é um país com uma alta parcela de idosos. Há uma crise anunciada prestes a explodir, pois os anos que vivemos são os anos em que muitos dos que contribuíram pelo modelo das AFP estão se aposentando. E estão recebendo, de aposentadoria, menos que um salário mínimo, que por si só já está abaixo da cesta básica chilena. O preço da qualidade de vida no Chile é muito alto. Há uma classe média que tem um estilo de vida pujante, mas que empobrece após a aposentadoria.

E não existe uma mídia contra-hegemônica.

Rocío – Carecemos de uma rede de meios alternativos. Claro que existem veículos vinculados com discursos que destoam dos meios hegemônicos, mas mal se sustentam.

Nos últimos 10 anos, tivemos um processo de bastante amadurecimento por parte dos movimentos sociais chilenos. Está em evidência a necessidade de os movimentos terem instrumentos de comunicação, de apostarem na batalha de ideias.

No Chile, não existem mecanismos de fomento de meios de comunicação alternativos. São muitas as barreiras para você colocar em marcha um novo meio de comunicação. São limitações estruturais. Mas, enfim, os setores progressistas vão tendo mais clareza de que a comunicação é um instrumento estratégico para qualquer luta, para qualquer disputa na sociedade.

É uma discussão nova no país e um desafio muito grande o de conformar uma rede de veículos alternativos. Todas as experiências têm sucumbido não só pela inanição financeira, mas também por questão de vontade política.

Há muitas semelhanças com a nossa realidade.

Javiera – Seguramente a realidade brasileira tem bastante similaridades com o que estamos descrevendo. No entanto, há uma diferença significativa: a sociedade brasileira me parece mais consciente de seus direitos do que a chilena. Inclusive o direito à comunicação, à informação e à liberdade de expressão. No Chile, infelizmente, não há articulação suficiente para a defesa de direitos,incluindo aí o direito à comunicação. Nosso problema é que falta organicidade para defender esta ideia, de uma rede de meios alternativos e contra-hegemônicos. Ainda não temos energia, força material para fomentar iniciativas desta natureza. Temos de nos articular para exigir a regulação dos meios de comunicação.

Há uma mudança na disputa das ideias. O que precisamos fazer, hoje, é contra-hegemonia. Não é impossível, mas claro que é algo difícil. Nossa Constituição ainda é a de Pinochet e não há nenhuma garantia de direito à comunicação.

No Chile, os grandes banqueiros são os principais anunciantes da mídia. Como vão criticar as AFP, que os financiam? É um beco sem saída.


*O Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul está no Chile com os seguintes apoios: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Diálogos do Sul, Federação Única dos Petroleiros (FUP), Jornal Hora do Povo, Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, CUT Chile e Sindicato Nacional dos Carteiros do Chile (Sinacar). A reprodução é livre, desde que citados os autores e apoios.



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