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Crise no Deutsche Bank deixa mundo à beira de colapso com proporção similar a 2008

No último ano, o banco alemão teve uma queda de 35,37% das suas ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque e corre o riso de "quebrar"

O Deutsche Bank, maior banco alemão, passa por sua maior crise em 149 anos. Desde 1989 o banco vinha promovendo uma expansão a nível global. Contudo, isso nunca se efetivou a contento e, principalmente, desde 2008, o DB vendo sofrendo com dificuldade de manter as taxas de lucro. E isto pode significar uma desestabilização de proporções ainda incalculáveis na economia de todo o mundo.

O banco pertence ao alto escalão G-SIBs (global systemically important banks – bancos globais sistemicamente importantes) segundo o Financial Stability Board (FSB).

Este índice mede aqueles bancos que são “too big to fail” (muito grande para falir), ou seja, se quebram, todo o capitalismo mundial corre risco – exemplo o que aconteceu na crise de 2008.

Em 2018, DB encontrava-se no segundo grupo, atrás apenas do JP Morgan Chase, e ao lado do Citigroup e HSBC. Assim percebemos a importância do DB para o imperialismo.

A ruína deste banco pode significar um verdadeiro “efeito dominó”: primeiro o Deutsche Bank, depois a Alemanha, e consecutivamente a zona do Euro – com a bancarrota da Itália, França e Espanha (por ter seus principais bancos ligados ao DB).

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Fachada do Deutsche Bank

É possível destacarmos quatro momentos exemplares da crise vivida pelo Deutsche Bank na última década:

1) Em abril de 2007, a ação do DB era vendida em Nova York a 133 dólares – máximo histórico. Como resultado da crise mundial do ano seguinte, em 2009 o DB anunciou um prejuízo de 3,9 bilhões de euros – o primeiro em cinco décadas. E suas ações atingiram o menor valor – até então – 22 dólares entre março e abril de 2009. Uma desvalorização de 83,35% das ações em dois anos .

2) O banco se envolveu no escândalo Libor – investigações descobriram que bancos manipulavam a taxa de juros média para interesse próprio – resultando em uma multa de 2,5 bilhões de dólares; além de multa de US$ 14 bilhões impostas pelo Departamento de Justiça americano por negociar com o Irã.

3) Com esperanças de formar um gigante financeiro global capaz de resistir a crise econômica que se avizinha o governo alemão incentivou a fusão de dois dos principais banco do país, assim, no início de 2019, o DB iniciou processo de fusão com o Commerzbank – segundo maior banco alemão que sofreu com desvalorização acionária muito parecida com o DB – mas dois meses depois em comum acordo, os bancos desistiram da fusão.

4) Este parece ter sido um passo muito grande para o DB que anunciou no início de julho uma reestruturação global do banco, cortando mais de 18 mil postos de trabalho até 2022, com um custo estimado 7,4 bilhões de euros. Contudo, só para o segundo trimestre de 2019 o prejuízo estimado será de 2,8 bilhões de euros.

No último ano, Deutsche Bank teve uma queda de 35,37% das suas ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Sendo que entre 17/4/19 (após a anúncio do fim da fusão) e 3/6/19 houve uma queda 25,39% no valor das ações. Para não se falar na queda estratosféricas em relação aos últimos 11 anos – hoje a ação do DB é negociada a pouco menos de U$ 7, incomparável com os distantes 133 dólares e muito abaixo do recorde negativo até 2009. A grande dúvida dos analistas e acionistas é se esse programa de salvação não tenha vindo tarde demais.

A lista dos G-SIBs (too big to fall) é um alerta para os governos imperialistas não deixarem esses bancos quebrarem de forma nenhuma. Ou seja, se necessário devem injetar dinheiro público para garantir a solvência das instituições financeiras e assim preservar os grandes correntistas. Acontece que Angela Markel (primeira-ministra alemã), em outros casos como Grécia e Itália, foi frontalmente contra ao socorro estatal, defendendo que os bancos devem recorrer ao conhecido com bail-in, isto é: quando o dinheiro guardado de grandes correntistas (acima de 100 mil euros) é confiscado pelo banco e utilizado para garantir a sua solvência.

Com a menor sinalização do Estado alemão de que não salvará do Deutsche Bank poderá significar a fuga de capitais deste e outros bancos, acelerando o esfacelamento do sistema financeiro alemão, europeu e, por consequência, mundial. Contudo, se Merkel muda de posição com o banco alemão e garante sua salvação isso gerara uma crise política na UE, principalmente, na Itália e Grécia que amarguraram a linha dura de Markel anos atrás; colocando em risco o Euro e a União Europeia como um todo. Não menos perigoso que a primeira opção.

Há agravantes nessa situação que podem potencializar a crise do DB: a) as consequências econômicas do #BREXIT ainda são imensuráveis, ainda que a Reino Unido nunca tenha aderido ao Euro, a sua saída do acordo de livre comércio pode diminuir as exportações alemãs e promover a fuga de capital; b) o capitalismo mundial não conseguiu se recuperar ainda da crise de 2008 e muitas grandes empresas perderam valor acionário nos últimos 12 meses; c) Angela Merkel apresenta sinais de adoecimento ou stress e deve abreviar seu último mandato, sem um(a) sucessor(a) claro(a) em vista, isto pode desestabilizar a Alemanha em 2020, afinal não se sabe se o próximo mandatário será mais linha dura (contra a salvação estatal) ou mais (supostamente) liberal e aderir a solvência dos bancos alemães. Seja qual for o resultado, a única certeza são os terremotos do caminho.

Em um país cada vez mais dependente como o Brasil – inclusive como quer Bolsonaro, uma crise na Alemanha pode significar um aprofundamento da crise brasileira. Vale lembrar que o país germânico é o quinto maior parceiro econômico do Brasil e, por isso, podemos ter uma mudança significativa na luta de classes brasileira para os próximos anos.

É preciso ficar atento aos desdobramentos da crise no Deutsche Bank, a desestabilização da Alemanha significa balançar com todo o planeta. Podemos estar à beira de uma nova crise econômica com proporções similares as de 2008 ou com uma nova fase desta.

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