Sputnik / Aleksei Kudenko

Como os ataques a refinarias sauditas podem impactar o Brasil e o mundo?

Ataques de drones a duas plantas da empresa Saudi Aramco levaram a cortes na produção de petróleo de 5,7 milhões de barris por dia

A petrolífera da Arábia Saudita é considerada como o maior exportador de petróleo do mundo, e por isso o ataque foi considerado como o 11 de setembro do mercado.

A Sputnik explica os riscos, impactos e consequências que os ataques podem causar no mercado petrolífero não só do Brasil como do mundo.

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Posto de gasolina

Ataques a refinarias e seus possíveis motivos

O que teria causado esse grande problema para o mercado petrolífero global? A princípio, os ataques foram reivindicados pelos houthis, grupo rebelde xiita do Iêmen.

Uma revolta popular em 2011 resultou na saída do presidente iemenita, Ali Abdullah Saleh, que deu lugar ao vice-presidente, Abdrabbuh Mansour Hadi. Porém, a mudança não teve os efeitos esperados, como, por exemplo, a estabilidade da região, levando os rebeldes xiitas a tomarem a capital, Saná, em 2014.

Com isso, os sauditas ficaram alarmados, já que acreditavam que os rebeldes eram apoiados militarmente pelo Irã. Pouco depois, a Arábia Saudita liderou uma coalizão de oito nações árabes contra os houthis para restaurar o governo de Hadi.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o conflito já provocou a morte de mais de sete mil civis, causando miséria na região.

As investidas da coalizão contam com o apoio de EUA, Reino Unido e França, que lançam ataques aéreos quase diariamente no Iêmen.

Esse cenário provavelmente teria motivado os houthis a atacarem os sauditas, tanto que o porta-voz militar do grupo rebelde afirmou que as investidas contra alvos sauditas devem ser ainda mais agressivas enquanto houver agressões por parte da coalizão.

O ataque contou com aproximadamente dez drones de precisão, que supostamente teriam utilizado mísseis de cruzeiro no ataque, o que levantou uma nova discussão sobre a vulnerabilidade das refinarias e de seus sistemas de defesa.

A nova questão em pauta é sobre a ineficiência do sistema de defesa aérea saudita, já que não teria sido capaz de conter o ataque dos drones e possíveis mísseis de cruzeiro. As refinarias sauditas contam com sistemas de defesa antiaérea Patriot PAC-2 instalados em locais estratégicos, mas que não evitaram a destruição de duas de suas plantas.

Tensão entre EUA e Irã

Os EUA juntamente com a coalizão saudita deixam claro que não pretendem parar com os ataques aéreos na região.

Além disso, os norte-americanos afirmam apoiar firmemente a Arábia Saudita, além de enfatizarem a política de "pressão máxima" na região.

Com relação aos ataques às refinarias, pouco depois do ocorrido o presidente norte-americano, Donald Trump, ligou para o príncipe saudita para expor sua disposição de cooperar para a manutenção da segurança e estabilidade na região.

Já o Departamento de Energia dos EUA afirmou estar "pronto" para utilizar recursos "das Reservas Estratégicas de Petróleo" para compensar quaisquer interrupções nos mercados petrolíferos. Rick Perry, secretário de Energia dos EUA, também orientou um trabalho conjunto com a Agência Internacional de Energia em busca de ações globais, caso sejam necessárias.

O Irã, que tanto os sauditas quanto os norte-americanos acreditam que esteja apoiando os ataques dos houthis através de um suposto fornecimento de tecnologia e assistência, virou alvo de investigações, acusações e está na mira dos EUA.

Autoridades norte-americanas responsabilizam os iranianos pelos ataques e defendem a ideia de lançar ataques contra refinarias iranianas.

"O Irã não interromperá seu mau comportamento até que as consequências se tornem mais reais, como atacar suas refinarias, o que quebrará a base do regime", afirmou o senador republicano Lindsey Graham.

Seguindo a linha do governo dos EUA, o presidente Trump e o secretário de Estado, Mike Pompeo, afirmam estar "armados e preparados" para uma reposta imediata aos iranianos, assim que a ação for confirmada.

Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, afirmou que os norte-americanos não acabarão a guerra no Iêmen culpando o Irã por tudo, enfatizando que a "pressão máxima" dos EUA está se tornando em um "engano máximo", e que os norte-americanos e seus clientes estão sem saída no Iêmen devido à ilusão de que a superioridade das armas levará à vitória militar.

Riscos e consequências dos ataques

De acordo com a Agência de Imprensa Saudita (SPA), os ataques direcionados às refinarias sauditas, além de causarem um corte de praticamente 50% na produção de petróleo do país, também resultaram em uma redução de 5% no mercado global e desestabilizaram ainda mais a região do Golfo, elevando as tensões entre o Irã e os EUA e expondo a vulnerabilidade das instalações petrolíferas.

Os ataques também geraram incertezas geopolíticas e risco de queda na oferta, o que tende a manter os preços do barril de petróleo e dos combustíveis em alta nos próximos meses, além de impactar nas bolsas e no comércio global.

Vale destacar que após os ataques o preço do petróleo chegou a subir quase 20%, alcançando a maior alta em uma sessão desde a Guerra do Golfo, em 1991. Entretanto, depois de atingir seu maior pico, os preços do petróleo caíram nos últimos dias.

Possíveis impactos que podem afetar o Brasil

O primeiro possível impacto será o de esclarecer a política de preços de combustíveis no Brasil.

Anteriormente, a Petrobras estava repassando os custos para os preços do diesel de forma suave, isso devido ao fato de que as cotações internacionais estavam em queda, compensando a alta do dólar.

Outro impacto estará ligado à inflação, já que os ataques a refinarias sauditas elevaram consideravelmente a incerteza internacional, o que pode resultar em uma inflação maior, já que uma possível disparada do preço dos combustíveis pode provocar o encarecimento do frete das mercadorias, resultando na elevação dos preços de praticamente todos os produtos e serviços.

Entretanto, há um reflexo positivo para a Petrobras, já que a empresa pode ter uma valorização, elevando a arrecadação do governo federal e estados produtores com royalties e participações especiais, contribuindo para valorizar os próximos leilões do pré-sal.

Ou seja, para o Brasil, preços internacionais de petróleo mais altos tendem a favorecer não só a balança comercial, como também a arrecadação da União e governos estaduais e municipais com royalties e participações especiais pagas pelas petroleiras que atuam no país, enquanto a população, provavelmente, sentirá os reflexos negativos nas bombas de combustível.

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