Carta aberta ao The New York Times sobre Crudo Ecuador

Revista Diálogos do Sul

Amaury Chamorro*

Cara Silvia Viñas,

Há algumas horas li seu relato “What hapenned when i joked about the president of Ecuador” (O que aconteceu quando eu brinquei com o presidente do Ecuador. Em espanhol: Memes y amenazas en Ecuador) em sua seção As told to Silvia Viñas (Contado a Silvia), publicado ontem, 1º de maio, sobre o que disse Gabriel González sobre a perseguição que ele alega sofrer aqui no Equador. Como equatoriano e comunicador me senti obrigado a enviar-lhe esta carta aberta, a você e ao jornal New York Times.

Não me surpreende que o NYT publique, entre outras coisas, meias verdades, ou mentiras inteiras. É hábito da imprensa norte americana enganar os cidadãos. Recordemos que a invasão do Iraque ocorreu, entre outros elementos, com o apoio da imprensa estadunidense, a partir de falsas informações sobre armas químicas que estariam em mãos do Iraque. Como era previsto, tais armas nunca foram encontradas. Os Estados Unidos destruíram o Iraque e assassinaram milhares de inocentes com o único objetivo de roubar o petróleo.

Provavelmente alguém no NYT pensa que sempre foram imparciais e comentam alguns casos mundiais em que seu papel jornalístico foi definitivo para mostrar ao público a verdade sobre os fatos. Só um inocente estudante de jornalismo no primeiro mês do curso acredita na imparcialidade jornalística. Pior ainda, na de um meio de comunicação privado que além do mais opera em um país como os Estados Unidos. Os diferentes governos nesse país têm usado as corporações midiáticas aproveitando-se do altíssimo número de analfabetos funcionais que existe no país. Os poucos que realmente sabem ler nas entrelinhas e com um olhar crítico são os tomadores de decisão das grandes corporações a quem não importa em absoluto o que ocorre a sua volta, sempre que seu “profit” seja positivo.

O Ecuador é um exemplo. A Chevron é responsável por um desastre ambiental em plena selva amazônica, muito maior do que o da Exxon Valdez no Alasca, e vocês, a imprensa norte americana, não se atrevem a questionar a Chevron sobre isso. E, evidentemente, tão pouco o farão futuramente; a Chevron é um dos melhores e mais rentáveis clientes do mercado da comunicação nos EUA. Por favor, NYT, não venham falar de imparcialidade na notícia nem dizer que seu objetivo é defender a verdade. Vocês são apenas uma peça na engrenagem do sistema que mantem as elites no poder.

Baseado nestas premissas, desenvolvi o seguinte texto:

É importante declarar que votei no Presidente Rafael Correa; sou relativamente ativo em redes sociais, filiado à Aliança PAIS (Partido do Presidente), tenho uma empresa de comunicação, e o Estado equatoriano é um de meus clientes. Digo isso antes de mais nada para que todos tenham claro de que lado estou. Não me escondo atrás do anonimato nem finjo ser imparcial. Assim como qualquer outra pessoa ou meio de comunicação, sou parcial. Apoio os movimentos progressistas da América Latina que conseguiram praticamente erradicar a miséria, alcançando Índices de Desenvolvimento Humano que em algumas regiões dos EUA jamais se atreveriam sequer a sonhar. Trabalhei para diversos destes movimentos e lhe garanto que são feitos com o povo, de gente de verdade, não de contas falsas em redes sociais financiadas por grandes empresas. Por isso sempre ganhamos as eleições. É uma questão matemática.

Conheço muito bem o caso de Gabriel González e vejo claramente as más intenções do NYT. Interessante como vocês se defendem atrás do “Contado a Silvia Viñas”, como se a responsabilidade fosse terceirizada. Mas, vamos ao que importa; na sequência vou retomar e comentar alguns dos itens da publicação que justificam minha indignação.

E aqui, ponho a sua disposição o link com o vídeo do Presidente Correa falando, para que o leitor possa realmente comprovar os argumentos que utilizo.

“O Presidente Rafael Corrêa dá sua sabatina, um informe, todos os sábados. Mas neste sábado deve ter tido algum compromisso. Quando cheguei em casa, ao meio dia, havia um recado no Twitter dizendo que ia ser preso.

Quem informou Gabriel que iria preso? É indispensável que ele esclareça esta informação. Como está, o desavisado leitor, desconhecedor do contexto, poderia inferir erroneamente que o próprio Presidente Corrêa lhe teria escrito informando que seria preso. É importante saber quem fez esta afirmação ou se foi proveniente de uma conta anônima.

“O presidente disse que sou pago em tempo integral por um partido político.”

Interessante que depois das afirmações do Presidente Corrêa, ficou comprovado o vínculo de Gabriel González com um partido político. O advogado que Gabriel utilizou para registrar a marca “Crudo Ecuador” é Juan Carlos Solines, irmão do candidato a vice-presidente pelo partido de oposição CREO nas últimas eleições. Bem, se pensamos com a “imparcialidade” do NYT, provavelmente tratar-se-á de uma “coincidência”.

No mesmo vídeo pode-se ver o Presidente falando sobre a forma como a direita equatoriana organizou-se para sistematizar os ataques a ele e a seu Governo, citando “Crudo Ecuador” como exemplo, o que pode ser facilmente comprovado. Basta ver o timeline de suas contas no Facebook e no Twitter. O Presidente Corrêa e todos os que votamos nele, temos o direito de denunciar o sistemático ataque ao Governo que elegemos.

 “Disse que tenho um software de inteligência similar ao que usaram para procurar Osama Bin Laden.”

Realmente ri bastante quando ouvi o que disse o Presidente Corrêa. A verdade é que o Presidente afirma que essa oposição organizada, que sistematiza os ataques para causar instabilidade política no país, utiliza software de monitoramento de redes sociais. Nesse momento o Presidente Corrêa cita um exemplo: se se escreve a palavra Bin Laden nestes sistemas de monitoramento, aparece absolutamente tudo o que está relacionado. Há centenas de sistemas para monitoramento das redes sociais que são utilizados por empresas privadas, partidos políticos, governos, ONGs. Mas em nenhum momento o Presidente Corrêa afirmou que Crudo Ecuador utiliza o mesmo software que usaram para encontrar Osama Bin Laden. E com este exemplo, com argumentos suficientemente sólidos, poderia finalizar minha carta. Mas há mais.

 “Disse que sou parte da restauração conservadora, e que sou um odiento.

Realmente o Presidente afirma isso. Mas me pergunto, o que há de mau nessa afirmação? Estou de acordo com o Presidente. González está vinculado a um partido de oposição que gastou muito tempo e recursos produzindo conteúdos falsos para atacar o Presidente.

“Muita gente pensa que eu odiava o presidente; não era assim, de jeito nenhum. Sempre gostei de comentar as notícias, mas o presidente dizia que havia muitos insultos nos comentários, e em vez de pôr algum moderador, os meios de comunicação equatorianos excluíram a seção.”

Se além de você, Silvia, outras pessoas lerem esta carta, compartilho com elas um novo link que demonstrará a má fé do NYT e cuja ética vai na mesma lógica que a de vocês. Em 29 de julho de 2012, um jornal equatoriano pediu desculpas públicas ao Presidente Corrêa, dado que diante da falta de moderação em seu sítio na web, algum leitor referiu-se ao primeiro mandatário como “maricas degenerado”. Depois disso, o mesmo jornal decidiu retirar a possibilidade de que os leitores pudessem comentar as informações em seu sítio na internet oficial. Não houve nenhuma sanção por parte do governo equatoriano, como deixa entrever González; as desculpas do jornal foram voluntárias, assim como sua decisão de eliminar a opção de comentários dos leitores. Existem outros meios de comunicação que mantêm essa função atualmente.

E nem quero referir-me ao detalhe da gravíssima violação dos direitos das comunidades LGBTI por parte do jornal.

“Então disse, bem, vou criar minha própria página, onde eu possa dar minha opinião; e vou fazer isso de um jeito diferente, com imagens, com memes. Decidi fazê-la anônima.”

“Possa dar minha opinião”, “Anônima”. Está bem. Gabriel está no seu direito de atacar o Presidente Corrêa, usando uma linguagem que ele chama de humorística, de forma anônima. Não existe norma legal que o impeça. Mas é bem suspeito que alguém tenha uma conta anônima para atacar com mentiras uma pessoa.

“O meme que me trouxe problemas (El meme que me metió en problemas) mostrava dois migrantes equatorianos que tinham pedido ao presidente para tirar uma foto com eles em um centro comercial de Amsterdam. Na imagem vê-se o presidente com uma fronha, com o logo da loja onde está comprando, e os dois migrantes equatorianos estão sorrindo. Atrás dá para ver o nome da loja Channel. O que eu queria mostrar era o duplo discurso utilizado. Uns meses atrás ele falava dos pelucones – como ele trata as pessoas que têm um pouco de dinheiro – que compram coisas pela Internet, sendo que isso afeta a produção nacional. Então, o que fazia o presidente comprando no exterior?”

Silvia, como jornalista me questiono se seu jornal averiguou o que fazia o Presidente Correa em Amsterdam, dentro de um centro comercial, com uma fronha nas mãos? Porque caso o tenham feito, deveriam publicar. Mas aposto que isso não importa para a redação do New York Times. Afinal, a verdade não é o objetivo de sua publicação. O Presidente Correa não sai do Equador para fazer compras. Suas viagens são públicas, informadas nos Enlaces Ciudadanos (que convido você a ver) e acompanhadas de muitos jornalistas que poderiam provar o contrário. O “meme” produzido por González dá a entender que o Presidente da República mente. É natural que qualquer Presidente que esteja há oito anos entre os mais populares do mundo reaja a ataques a seu valioso capital político. Mas qual foi a reação do Presidente? Denunciar publicamente o que González fazia.

“Depois da sabatina tive milhares de seguidores mais na página do Facebook de Crudo Ecuador. Pensei que isso ia ficar assim, mas depois, em uma segunda sabatina, o presidente mostrou outra vez a foto da minha página. Aí já era um pouco mais preocupante.”

Tão preocupante que González nunca deixou de produzir conteúdos igualmente ofensivos e mentirosos. Gonzales só parou quando se descobriu que seu advogado era de um partido de oposição. Assim a opinião pública tomou conhecimento de seus interesses.

“Uns meses antes disso, eu estava registrando minha marca Crudo Ecuador no IEPI, que é o Instituto de Propriedade Intelectual. O IEPI publicou a Gazeta, um folheto onde se tornam públicas as marcas que estão sendo registradas, e aparece a minha.

Aí as coisas começaram a ficar feias. Uns usuários começaram a publicar no Twitter os documentos com que ingressei no IEPI e que são confidenciais.”

O processo de registro de uma marca e/ou patente no Equador é informação pública a que qualquer cidadão pode ter acesso. Mais uma vez a afirmação publicada pelo NYT é falsa.

“Ali há telefones meus, endereço, número da carteira de identidade, etc. Depois começaram a publicar informações do registro civil. E depois, minha foto em um centro comercial. Quando mostrei a minha esposa, ela me disse, “Olha, isso é onde fomos há três dias.” Vê-se que tinham estado me seguindo.

Decidi, com minha família, sair da cidade. Fomos para a casa de um parente, e lá estando, o guarda do conjunto tocou a campainha e disse que havia um ramo de flores. A dona da casa perguntou, “é para quem?”, e o guarda deu meu nome. Como chegaram aonde eu estava? Apareceu este ramo de flores com uma carta em que me davam a entender que onde eu estivesse eles estariam atrás de mim – e nomeavam meus filhos e minha esposa, com nome e sobrenome.”

Apesar de meu total desacordo com González, considero inaceitável o que relata. Acontece comigo algo parecido. A oposição publicou meu endereço nas redes sociais e convocou uma marcha até meu escritório, que até esta data, nunca ocorreu. Ameaçaram meus colaboradores, nos insultaram, e disseram que um dia minha família receberia flores. Todo isso devido a minha militância política, essa sim, sempre pública, evidentemente de esquerda. Mas as palavras do proprietário da conta de Crudo Ecuador não podem criar manto de dúvida sobre uma responsabilidade do governo nacional, e muito menos serem usadas como argumento por seu diário. Mas se González tem provas de suas insinuações, que as revele.

*Colaborador de Diálogos do Sul - Como comunicador, jornalista e cidadão gostaria de saber o verdadeiro motivo das tendenciosas afirmações do NYT - Tradução de Ana Corbisier

 

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