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Javier Milei e sua irmã Karina Milei (Foto: Governo da Argentina)

Escândalo com irmã de Milei derruba farsa do combate à corrupção na Argentina

Mídia internacional destaca escândalo como mais um elemento da crise do governo Milei, que já enfrenta instabilidade econômica, derrotas no Congresso e denúncias de uso político do Estado

Claudio della Croce
Estratégia.la
Buenos Aires

Tradução:

Guilherme Ribeiro

O escândalo de corrupção envolvendo supostos pedidos de propina na Agência Nacional de Deficiência (Andis) estourou com os áudios do ex-diretor Diego Spagnuolo, que revelaram o esquema de arrecadação de propinas e retornos entre a Drogaria Suizo Argentina — propriedade da família Kovalivker, ligada aos Menem — e a “presidência” do governo, liderada por Karina Milei e Lule Menem, que receberiam 3% do total de 8% das propinas.

A dinâmica da corrupção voltou com força à pauta do poder. As redes sociais, criativas, começaram a falar da nova “corrupção K”, mas desta vez não em razão do sobrenome de Cristina Kirchner, e sim por Karina, a irmã de Milei. O próprio chefe de gabinete, Guillermo Francos, disse que não colocava a mão no fogo por nenhum de seus colegas, e surpreendeu a rapidez com que alguns comunicadores oficialistas abandonaram quem por meses os beneficiou.

O atual “audiogate”, a criptofraude $Libra, a venda de candidaturas, o uso das estruturas do Programa de Atenção Médica Integral (PAMI) e da Administração Nacional de Previdência Social (Anses) para estruturar o partido ultradireitista La Libertad Avanza, a distribuição de bilhões em publicidade oficial para mídias e jornalistas amigos e aliados, e até a comercialização de encontros com o presidente Milei são partes de um mesmo enredo.

Diante da suspeita de Karina e “Lule” Menem de que o vazamento dos áudios de Spagnuolo foi obra de seu inimigo interno Santiago Caputo, este teria tentado convencê-los do contrário, pressionando veículos da mídia e jornalistas que recebem publicidade oficial a minimizar o escândalo. Alguns canais e portais só noticiaram o caso quando o governo demitiu Spagnuolo, com medo de perder verbas publicitárias federais.

Spagnuolo considerava um “desrespeito” com Karina receber tão pouco — o que equivaleria entre 500 mil e 800 mil dólares mensais, apenas por esse “acordo”. A operação envolve inúmeros particulares e funcionários, que dividem o dinheiro acordado há mais de um ano e meio, desde que o mileísmo chegou ao poder.

Segundo o próprio Spagnuolo, a tabela ilegal de porcentagens começou em 5%, mas há um ano subiu para 8%. Na conversa, ele diz que cada intermediário envolvido na propina — a “segunda e terceira linha” — se comporta como “rato” e embolsa “20 ou 30 mil dólares por mês”. Já uma outra camada de envolvidos, superior aos que classifica como “ratos”, “levaria meio pedaço (meio milhão de dólares) por mês”.

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Questionado sobre quem integra essa cúpula, ele responde sem hesitar: “Lule Menem e Karina Milei”. E ainda ressalta que isso é apenas “um pedacinho da confusão que fazem”. Afirma que alguns funcionários têm “voracidade genética”. Segundo ele, seria o pessoal da Drogaria Suizo Argentina quem entregaria o dinheiro ilegal diretamente à “Presidência”. Como se já não estivesse claro o suficiente, em um áudio posterior ele detalha qual seria a porcentagem correspondente à Secretaria-Geral da Presidência.

A imprensa internacional acompanha de perto a crise que atinge o governo de Javier Milei, relacionando-a a um possível escândalo de corrupção que se soma às derrotas no Congresso e à fragilidade econômica. A Bloomberg destacou: “Milei soma um escândalo de corrupção à sua crescente lista de problemas”. Já a ABC News, um dos veículos mais importantes dos EUA, ampliou sua versão dos acontecimentos e incluiu o entorno do presidente na manchete: “Argentina investiga suposto esquema de propinas envolvendo o círculo íntimo do presidente Milei”.

Irmãos Milei em silêncio

Áudios. Spagnuolo. Propinas. Três palavras que mantêm em suspense não só o governo libertário de Javier Milei, mas todo o universo político, já que a oposição tenta transformar o escândalo em tema de campanha. Enquanto isso, já se passaram dias sem que o presidente ou sua irmã Karina tenham falado publicamente sobre o caso de corrupção revelado nos áudios do ex-funcionário. 

E não se trata de qualquer funcionário: Spagnuolo é amigo pessoal e até advogado de Milei, assíduo frequentador da residência de Olivos. É o chamado “fogo amigo” — impossível de atribuir aos “malditos kukas” (como a direita se refere aos kirchneristas).

Por isso, cresce a expectativa para que Milei ou sua irmã digam algo simples como “é mentira” ou mesmo “está sendo investigado”. Por enquanto, silêncio total, com exceção dos tradicionais esforços de Guillermo Francos ou Lilia Lemoine para “apagar incêndios”. Enquanto os irmãos permanecem calados, o porta-voz presidencial Manuel Adorni recorreu a uma frase filosófica: “O tempo é o único juiz que sempre revela a verdade” — que poderia se referir ao caso Spagnuolo, embora o caráter vago da declaração sirva para qualquer situação.

A “batalha cultural” que Milei deflagrou nas redes sociais como um dos pilares de seu governo enfrenta reações severas e irônicas aos áudios do ex-diretor da Andis. O nome de Karina Milei, irmã do presidente e Secretária-Geral da Presidência, segue como o assunto argentino mais comentado na rede X (antigo Twitter), no meio de uma acirrada disputa de narrativas entre apoiadores tentando defender a ela e a Milei, e opositores atacando-os com rótulos curtos e devastadores como “corruptos” e “propineiros”.

Áudios apontam conivência de Milei

Tudo começou com uma gravação em que Spagnuolo denuncia: “De certa forma, o que Lule (Menem) está fazendo é roubar… Ele (Milei) não está envolvido, mas é tudo gente dele. Eu falei com o presidente. Disse: ‘Javi, está acontecendo isso, isso e isso. Você sabe que sua irmã está roubando. Não pode se fazer de bobo comigo’”.

Depois, ele explica como funcionaria a fraude: “Tem medicamentos com desconto, então a drogaria consegue mais barato e tem mais lucro. E tem remédios sem desconto, com menos rentabilidade”.

Como Governo Milei quer intimidar denúncias de violência de gênero e abuso sexual na Argentina

“E o que faz ‘a Suizo’? Ficam com todos os que têm desconto. A Karina deve receber 3%. Se é 5% [de propina], 1% vai para a operação, 1% é meu e você, Karina, fica com 3%. Devem fazer assim. Se der algum problema e não me protegerem, eu já avisei o presidente… A primeira a ser presa vai ser a Karina”, dizia Spagnuolo.

Diante disso, ganha novo sentido a resposta da ex-chanceler Diana Mondino, há duas semanas, ao ser perguntada sobre a ligação de Milei com a criptofraude $Libra: “Existem duas possibilidades. Ou ele é estúpido, ou é corrupto.”

Gabriel Solano, deputado do Partido Operário e figura do Frente de Izquierda, apresentou denúncia criminal contra Javier Milei, Karina Milei, Eduardo “Lule” Menem, Diego Spagnuolo e Jonathan Kovalivker por suspeita de corrupção em um esquema de propinas em troca de contratos públicos. “São um governo de estelionatários e corruptos. Está claríssimo onde foi parar o dinheiro da deficiência”, denunciou Solano em sua conta no X.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Claudio della Croce

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