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ToggleCerca de 4 mil crianças já foram encarceradas nos EUA – 02/03
Quase 4 mil crianças já foram encarceradas em centros de detenção pelas autoridades migratórias dos Estados Unidos sob ordens do presidente Donald Trump. Várias delas foram retiradas de suas casas, escolas ou das ruas; algumas, inclusive, permaneceram desaparecidas por vários dias.
“‘Que delito eu cometi para ser prisioneira?’, perguntava minha filha, e eu não sabia o que responder”, contou a mãe equatoriana de uma menina de 7 anos encarcerada em um centro de detenção no Texas, segundo a agência Associated Press. “Não estou feliz, por favor me tirem daqui”, escreveu uma menina colombiana de 9 anos recluída nesse mesmo lugar. Já Mathias, de 7 anos, escreveu: “Quero sair daqui e voltar para a minha escola; aqui não nos tratam bem, há muitas crianças. Estamos sequestrados. Ajuda”, relatou a organização jornalística ProPublica.
Pelo menos 3.800 menores de 18 anos, incluindo 20 bebês, foram presos e encarcerados em centros de detenção desde que Trump assumiu a presidência, em janeiro de 2025, informou o The Marshall Project — centro independente de jornalismo investigativo focado no sistema de justiça criminal — no final de dezembro. Mais de 1.300 crianças passaram mais de 20 dias em detenção, em violação a um acordo judicial; há casos de algumas que permaneceram presas por mais de cinco meses.
Em qualquer dia, registra-se uma média de 170 crianças em centros de detenção — um aumento de seis vezes em relação ao período anterior ao governo Trump — segundo o Marshall Project, com base em dados oficiais. Há dias em que o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) mantém encarceradas mais de 400 crianças. Esse número não inclui a onda mais recente de prisões em Minnesota nem os menores desacompanhados sob custódia de outras agências.
A maioria dos menores foi presa junto com familiares e levada ao Centro de Processamento de Imigração de Dilley, perto de San Antonio, no Texas, o principal centro de detenção para famílias imigrantes, onde cerca de 1.100 pessoas são mantidas, incluindo crianças tão pequenas quanto um bebê de dois meses. “Literalmente são tratados como prisioneiros. Esta é uma máquina monstruosa”, afirmou o deputado Joaquin Castro, que visitou a instalação no final de janeiro.
As condições dentro desse centro de detenção — assim como em outros pelo país, como o chamado “Alcatraz dos Jacarés”, na Flórida — são espantosas, segundo relatos de pessoas libertadas e de legisladores que visitaram as instalações. Há comida insuficiente e insalubre, pouca água e nenhuma ou mínima atenção médica, às vezes com centenas de pessoas dormindo no chão. Mães relataram que não conseguem água potável engarrafada para preparar a fórmula de bebês e que recebem alimentos contaminados com vermes, entre outras irregularidades.
Também foi relatado que seus filhos sofrem de transtornos de ansiedade e tristeza, às vezes com tanto estresse que batem a cabeça contra as paredes; há inclusive casos de tentativa de suicídio.
Em uma série de investigações sobre os menores em Dilley, a ProPublica entrevistou dezenas de crianças — dos cerca de 300 que estavam ali em fevereiro — e seus pais por meio de videochamadas. A organização também recebeu cartas das crianças, nas quais descrevem suas vidas, a angústia da detenção e as condições que enfrentam dentro do centro. “Desde que cheguei a este centro, a única coisa que se sente é tristeza e, sobretudo, depressão”, escreveu Ariana, de 14 anos, de Honduras, que já estava ali havia 45 dias.
O governo não esconde sua intenção de convencer os detidos a solicitar a autodeportação, sobretudo pelo “bem” de seus filhos, além de criar um clima de medo para que famílias decidam abandonar o país.
Liam Ramos, um menino de 5 anos, de repente tornou-se o rosto da crueldade das medidas antimigratórias quando agentes do ICE o detiveram ao chegar à sua casa, em um subúrbio de Minneapolis, ao voltar da escola. Vestindo um boné decorado com orelhinhas de coelho e uma mochila do Homem-Aranha, ele foi cercado por agentes armados e mascarados, que também detiveram seu pai. Os agentes o obrigaram a bater à porta de casa e pedir para entrar, para que seus familiares saíssem — ou seja, usaram o menino como isca.
Liam e seu pai foram levados para o Centro de Detenção de Dilley, no Texas. Dias depois, o pai comentou ao deputado Joaquin Castro que, naquele centro, Liam dormia muito e não queria comer, sem vontade de fazer nada. Sob intensa pressão da comunidade e em escala nacional — já que as imagens do caso se tornaram virais nas redes sociais — um juiz ordenou a libertação de Liam e de seu pai. Eles retornaram para casa, em Minnesota, apenas para descobrir que o governo de Donald Trump estava dando continuidade ao processo para deportá-los.
“Todos somos Liam”, comentou Christian Hinojosa, imigrante mexicana detida em Dilley — um centro administrado por uma empresa privada — junto com seu filho de 13 anos durante quatro meses. A deputada Ayanna Pressley declarou recentemente perante a Câmara de Representantes que Juan Nicolás, de dois meses, Daphne, Susej, Ailany e Ashley são apenas alguns dos nomes de “crianças traumatizadas pela campanha de Trump e do ICE de abuso, negligência e terror contra menores”.
Mas, depois da repercussão provocada pelo caso de Liam, a organização jornalística ProPublica relatou que medidas ainda mais severas passaram a ser aplicadas, desde negar às crianças acesso à internet até guardas confiscarem desenhos, cartas e materiais de arte.
Há caso após caso de agentes armados e mascarados sequestrando menores e seus familiares, retirando-os de carros, entrando ilegalmente em suas casas ou abordando-os no caminho para a escola. Professoras relataram que tiveram de se preparar em suas escolas não apenas para saber como responder à presença de agentes federais, mas também para proteger seus alunos e suas famílias, além de lidar com os traumas e o medo provocados pelas operações contra imigrantes e até com a ausência repentina de amigos e colegas entre os estudantes. Os relatos foram feitos por professoras entrevistadas pelo jornal La Jornada em Nova York e confirmados por informes de outras regiões do país.
“Colocarei meu corpo entre qualquer membro do governo federal e meus estudantes. Talvez seja uma ira feminina, mas isso está profundamente dentro de mim”, afirmou Manduy Jung, professora do sétimo ano em Saint Paul, Minnesota, em entrevista ao The 19th. Os dois sindicatos nacionais de professores declararam-se contrários às medidas antimigratórias.
Há campanhas crescentes exigindo a libertação das crianças e de seus pais desses centros, impulsionadas por defensores de direitos humanos, professores, ativistas de liberdades civis e pediatras, entre outros. Até agora, porém, o governo Trump tem se recusado a responder além de assegurar — junto com os contratados privados da CivicCore — que tudo está em ordem.
“Todas as crianças em detenção devem ser libertadas imediatamente e essas instalações devem ser permanentemente fechadas. Crianças, independentemente de seu status migratório, pertencem às suas comunidades, às suas escolas e às suas famílias”, escreveu Andrew Racine, presidente da Academia Americana de Pediatria do país, junto com outros dois especialistas, em um artigo publicado no jornal USA Today.
A academia argumenta que pesquisas médicas concluem que qualquer período de detenção de crianças “representa uma ameaça à sua saúde”, tanto física quanto mental, “particularmente para aquelas que já sofreram traumas em seus países de origem ou durante suas viagens aos Estados Unidos”.
Trump tenta impor sua versão de uma realidade – 25/02
No espetáculo político nacional mais assistido do ano nos EUA, o presidente Donald Trump tentou impor sua versão de uma realidade que não existe para a maioria dos estadunidenses, afirmando que o país nunca esteve melhor do que agora sob sua direção, que alcançou quase o impossível tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos e que “esta é a idade de ouro” do país, no informe presidencial mais longo da história.
Proclamou que está impulsionando “uma transformação nunca vista anteriormente” e que, sob seu comando, em apenas um ano, “os Estados Unidos estão de volta… Esta é a idade dourada dos Estados Unidos”. Em seguida, enumerou vários de seus supostos êxitos: contra todas as evidências, declarou que a economia está em expansão, que o país possui: “a fronteira mais forte e segura de nossa história”, onde nenhum imigrante indocumentado conseguiu cruzar nos últimos nove meses e onde o fluxo de fentanil pela fronteira foi reduzido em 56%.
Mas sua “idade dourada” não é percebida dessa forma pela maioria dos estadunidenses: 69% consideram que o país segue na direção errada (apenas 29% pensam o contrário, segundo pesquisa da AP), e a maioria desaprova sua gestão — sua taxa de aprovação está próxima de um dos níveis mais baixos de sua presidência, oscilando em torno de 40%.
O principal objetivo deste informe presidencial anual perante o Congresso — o evento político mais assistido do ano, transmitido ao vivo (36,6 milhões acompanharam seu primeiro informe no ano passado) — é a eleição legislativa de meio de mandato em novembro, diante da tarefa urgente de manter o controle do Congresso.
Embora grande parte do discurso tenha se concentrado em assuntos domésticos, Trump exaltou sua atuação nas Américas. “Estamos restaurando a segurança e o domínio dos Estados Unidos no hemisfério ocidental ao agir para defender nossos interesses. Por anos, grandes áreas de território em nossa região, incluindo grandes partes do México — realmente grandes partes do México — estiveram sob controle dos cartéis. Por isso, designei os cartéis como armas de destruição em massa.”
Nesse contexto, Trump reivindicou o mérito “por derrubar um dos chefes de cartel mais sinistros — vocês viram isso ontem”, disse, quase certamente em referência a El Mencho, sem mencioná-lo nominalmente.
Também celebrou a ação militar que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e concedeu uma medalha ao piloto do helicóptero militar que liderou a missão. Como parte dessa encenação política, Trump deu as boas-vindas a um recém-libertado “prisioneiro político” da Venezuela, que foi ovacionado. Comemorou ainda: “Acabamos de receber de nosso novo amigo e parceiro, a Venezuela, mais de 80 milhões de barris de petróleo”, sem explicar como isso ocorreu.
Declarou ter resolvido oito guerras, incluindo a de Israel e Gaza, “que já está prestes a ser concluída”. Elogiou a si próprio por recuperar todos os reféns israelenses, vivos e mortos, sem mencionar um único palestino, e afirmou que está tentando pôr fim à guerra entre Rússia e Ucrânia.
“Como presidente, farei a paz sempre que possível”, afirmou, advertindo, porém, que nunca hesitará em utilizar a força letal mais poderosa do mundo, se necessário. Elogiou o ataque contra o Irã realizado no ano passado e informou que atualmente há negociações com Teerã, embora ainda aguarde o compromisso de que o país não construirá uma arma nuclear, ressaltando que “o principal patrocinador do terrorismo não pode possuir uma arma nuclear”.
No entanto, o foco da maior parte do discurso, de quase duas horas, foi sua agenda política doméstica e um ataque cada vez mais agressivo contra os democratas no Capitólio. Apresentou uma longa lista de iniciativas econômicas, todas classificadas como “as mais bem-sucedidas”, “as maiores” e “as mais corretas”. Quase todas as suas afirmações foram exageradas, distorcidas e, em muitos casos, falsas. Também culpou os democratas por tentarem arruinar o país.
Nessa grande encenação política, Trump utilizou histórias de pessoas que convidou a ocupar o camarote ao lado de sua esposa, Melania, para destacar seus supostos êxitos econômicos e sociais e, como se fosse apresentador de um programa de variedades, promoveu aparições surpresa de “heróis”, desde veteranos de guerra até a equipe de hóquei que conquistou a medalha de ouro nas Olimpíadas.
Depois de elogiar o grande sucesso de suas tarifas, sua ferramenta econômica preferida, lamentou a “infeliz” decisão da Suprema Corte que as anulou, com vários dos juízes — incluindo o presidente do tribunal — sentados na primeira fila.
Mais uma vez, atacou os imigrantes provenientes de países do Sul Global e suas supostas “culturas de corrupção e suborno”, a quem responsabilizou por matar, ferir e representar perigo para os cidadãos do país, destacando diversos exemplos de vítimas — algumas das quais foram convidadas a assistir ao discurso. “Estamos expulsando-os o mais rapidamente possível” do país, declarou. Acusou os democratas de minarem seus esforços antimigração, afirmando que “o primeiro dever do governo dos Estados Unidos é proteger e defender os cidadãos estadunidenses, não estrangeiros ilegais”. E lhes disse que “deveriam ter vergonha de si mesmos”, enquanto republicanos entoavam “USA, USA”.
Repetidas vezes buscou provocar os democratas presentes no plenário, chegando a chamá-los de “loucos”, afirmando que os “democratas estão destruindo nosso país, mas nós os detivemos a tempo”.
Concluiu lembrando que o país celebrará, neste 4 de julho, o 250º aniversário de sua independência, e indicou que “a revolução iniciada em 1776 não terminou, ainda continua”. Acrescentou que “quando Deus precisa de uma nação para realizar seus milagres, sabe a quem pode recorrer”.
No entanto, há elementos pouco divinos nesta conjuntura política. Ele e vários de seus aliados não conseguem superar o escândalo — e, de certa forma, a crise — provocada pelas revelações ainda incompletas dos arquivos relacionados ao pedófilo Jeffrey Epstein. De fato, no dia 24 de fevereiro foi noticiado que o Departamento de Justiça estaria ocultando documentos, incluindo entrevistas do FBI, sobre uma acusação de que Trump teria abusado sexualmente de uma menor apresentada a ele por Epstein, segundo a National Public Radio. Outros escândalos incluem acusações de que esta presidência é considerada uma das mais corruptas da história.
Amplos setores da população não percebem o mundo dourado retratado pelo mandatário na noite de 24 de fevereiro. Essa discrepância entre a versão apresentada por Trump e a realidade deverá persistir pelos próximos nove meses, até as eleições legislativas de novembro.
Por sua vez, democratas e outros opositores expressaram seu repúdio a Trump de diversas maneiras durante a sessão. Alguns convidaram vítimas de abusos cometidos por agentes de imigração em Minneapolis; outros levaram vítimas relacionadas ao caso Epstein para assistir ao discurso; e várias deputadas vestiram-se de branco em protesto contra os ataques aos direitos das mulheres. Outros legisladores boicotaram o informe, participando de eventos paralelos de protesto: um nas proximidades do Capitólio e outro que contou com a presença de políticos e artistas como Robert De Niro e Mark Ruffalo.
O senador federal democrata Alex Padilla, responsável por apresentar a resposta democrata ao informe em espanhol, declarou: “apesar das mentiras de Trump, sabemos o que vemos com nossos próprios olhos”. Concluiu afirmando: “como o povo pode salvar o próprio povo? Erguendo a voz, marchando, organizando nossas comunidades e votando.”
Os Negócios da Casa Branca – 11/02
O presidente Donald Trump usou seu primeiro ano de volta à Casa Branca para enriquecer a si mesmo, sua família e seus aliados políticos em um nível sem precedentes na história dos Estados Unidos, lucrando com fundos doados em troca de medidas e contratos governamentais, indultos para criminosos e negócios com governos e empresas estrangeiras.
A família Trump aumentou sua fortuna em mais de 1,4 bilhão de dólares durante o primeiro ano do retorno de seu patriarca à Casa Branca, estima o New York Times. Outros relatam que o valor pode ser muito maior. A The New Yorker estima que já ultrapassou 4 bilhões de dólares como resultado do uso do cargo como alavanca para seus negócios.
“Há um ano, Donald Trump jurou servir ao povo americano. Em vez disso, tem se concentrado em usar a presidência para se enriquecer”, escreveu o New York Times em um editorial neste ano. Ainda mais surpreendente é que a National Review, antiga revista conservadora fundada pelo intelectual de direita William F. Buckley, está publicando uma série em cinco partes sobre como Trump está monetizando a presidência.
A revista conservadora relata, entre outros exemplos, que Changpeng Zhao, fundador da Binance, a maior empresa de criptomoedas do mundo, ajudou a lançar a empresa de criptomoedas da família Trump, World Financial Liberty, pouco antes de Trump assumir a presidência.
De criminoso a sócio
Em 2023, Zhao havia se declarado culpado de acusações de lavagem de dinheiro, mas nove meses após o retorno à Casa Branca, Trump concedeu indulto a seu sócio:
“Como classificou o Departamento de Justiça, Zhao transformou a Binance em um canal clandestino de financiamento para ‘terroristas, cibercriminosos e abusadores de menores’”, informou a National Review. “E ainda assim, o presidente Trump o indultou.”
Grande parte da arrecadação de fundos da família Trump ocorre no Oriente Médio. “‘Xeique espião’ comprou participação secreta em empresas Trump”, destacou reportagem do Wall Street Journal, documentando como um membro proeminente da família real dos Emirados Árabes Unidos assinou secretamente um acordo com Eric Trump, segundo filho do presidente, para investir 500 milhões de dólares na World Financial Liberty — a empresa de criptomoedas da família — apenas quatro dias antes do início da presidência Trump. Em março do ano passado, o governo Trump suspendeu a proibição da venda de chips de computador sofisticados à monarquia daquele país do Golfo.
Em todas essas e em múltiplas outras transações, a Casa Branca descarta qualquer conflito de interesses, insistindo que todos os negócios da família Trump são controlados por seus filhos, sem a participação do presidente.
“Não há conflitos de interesse. O presidente Trump atua apenas no melhor interesse do público americano”, afirmou Anna Kelly, uma das porta-vozes da Casa Branca, ao Journal.
No entanto, diversos meios de comunicação nacionais apontaram que o indulto concedido a Zhao e um investimento secreto de um país estrangeiro em uma empresa do presidente — entre outros exemplos — oferecem mais do que apenas a aparência de conflito de interesses.
“É impossível saber com que frequência Trump toma decisões oficiais, parcial ou totalmente, porque deseja se tornar mais rico. E esse é precisamente o problema”, opinou o Times.
Legisladores documentam esquemas de pagamento
No Congresso, a minoria democrata criou um site para documentar os “esquemas pay-to-play” — ou seja, pagamentos para participar de negócios — do presidente. “Os esquemas pay-to-play de Trump contribuíram para ganhos estimados em 2,25 bilhões de dólares provenientes de pagamentos estrangeiros, oligarcas corruptos e outros.
Esse total sobe para 9,7 bilhões de dólares quando o valor dos ativos digitais é incorporado, com pelo menos 436 milhões provenientes de interesses estrangeiros”, informa o deputado federal Robert Garcia, que lidera esse projeto de monitoramento.
Não há dúvida de que empresas e indivíduos ricos gastaram dinheiro para obter acesso ao presidente — prática que tem sido tradicional no país. Existem escritórios de advocacia dedicados a clientes que buscam favores da Casa Branca, inclusive indultos. Em pelo menos um caso, Trump concedeu indulto à mesma pessoa pela segunda vez, após ela ter sido novamente presa e condenada por atividade criminosa depois do primeiro perdão. Tudo em troca de “contribuições” ou investimentos que beneficiam o presidente e sua família.
Por exemplo, durante o planejamento das celebrações do 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos, o Times informou que “aliados do presidente Trump estão oferecendo acesso a ele e outros benefícios a doadores que contribuam com pelo menos 1 milhão de dólares para um novo grupo que apoia iniciativas ostensivas” planejadas pelo presidente para a ocasião.
Entre as iniciativas estão a construção de um “arco do triunfo”, uma corrida de Fórmula 1 pelas ruas da capital e eventos de luta livre, entre outras propostas que parecem ter pouca relação com o aniversário. Por uma contribuição de 2,5 milhões de dólares, o doador terá a oportunidade de discursar em um desses eventos.
Investimentos em troca de favores
O presidente também tem solicitado financiamento de empresas privadas para construir seu grandioso salão de baile na ala leste da Casa Branca. A organização de defesa dos direitos civis e do consumidor Public Citizen documentou que 15 dos 24 doadores corporativos que participam desse projeto possuem, juntos, 279 bilhões de dólares em contratos com o governo federal nos últimos cinco anos.
“Essas empresas gigantescas não estão financiando o salão de baile por orgulho cívico. Têm interesses massivos diante do governo federal e, sem dúvida, esperam obter favores e tratamento preferencial do governo Trump”, afirmou Robert Weissman, diretor da Public Citizen.
Grande parte disso dá continuidade ao que já vinha sendo revelado há meses. O que chama atenção é que, até agora, nada do que teria sido um grave escândalo em outros tempos e em outros países parece ter se tornado algo normal.
Após o primeiro ano de Trump, a Transparência Internacional registrou que os Estados Unidos caíram do 28º para o 29º lugar, alcançando sua pior classificação já registrada no índice anual de corrupção que avalia 182 países.
Condenam autor intelectual do assassinato de Valdez – 05/02
Dámaso López Serrano, o “Mini Lic”, um dos líderes do cartel de Sinaloa acusado no México de ser o autor intelectual do assassinato do jornalista Javier Valdez, correspondente do La Jornada e fundador do semanário Ríodoce, e que atua como testemunha cooperante do governo dos Estados Unidos, foi condenado a cinco anos de prisão por um tribunal federal na Virgínia por acusações de tráfico de fentanil.
López Serrano, filho de Dámaso López Núñez, foi acusado de distribuir fentanil enquanto estava sob supervisão das autoridades federais estadunidenses, em decorrência de uma condenação anterior por narcotráfico. Após declarar-se culpado em maio, foi sentenciado por um juiz do Tribunal Federal Distrital em Alexandria, Virgínia, nos arredores de Washington, DC, informou o Washington Post.
O governo do México solicita desde 2020 a extradição de López Serrano, a quem acusa de ser o autor intelectual do assassinato de Javier Valdez em Culiacán, em 15 de maio de 2017. Segundo recorda o Post, as autoridades estadunidenses recusaram repetidamente extraditar o Mini Lic, afirmando que ele era uma testemunha protegida que estava fornecendo informações à Justiça dos Estados Unidos.
O filho de Dámaso López Núñez, considerado braço direito de Joaquín “El Chapo” Guzmán Loera no cartel de Sinaloa, caiu em uma armadilha do Escritório Federal de Investigações (FBI) quando foi detectado que tentava coordenar a entrega de cerca de três quilos de fentanil a um associado em Los Angeles para distribuição.
Antes de ser sentenciado pela primeira vez, em 2022, em um tribunal federal de San Diego, pediu clemência ao juiz, declarando que desejava ser “uma pessoa diferente do que era e começar uma nova vida”. Aparentemente funcionou, já que o juiz o condenou a “tempo já cumprido” e cinco anos de liberdade condicional supervisionada, após ter cumprido cinco anos de prisão. Dois anos depois, em 2024, foi novamente preso por tentar traficar drogas outra vez.
Com a nova condenação, agora poderia ser possível, indicou o Post, que as autoridades estadunidenses considerem entregá-lo ao México. López Serrano e seu pai sustentam que os responsáveis por ordenar o assassinato foram os filhos de Guzmán Loera, conhecidos como “Los Chapitos”.
Washington Post demite 300 jornalistas – 05/02
O jornal fundado há 150 anos nos Estados Unidos, que contribuiu para a renúncia do presidente Richard Nixon, revelou os Papéis do Pentágono — que expuseram o engano sobre a guerra do Vietnã — e desvendou mentiras sem precedentes durante a primeira presidência de Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira a demissão de 300 jornalistas, o fechamento de seções e de correspondências no exterior, com o objetivo de concentrar-se em sua estratégia digital para sustentar sua viabilidade empresarial.
O editor executivo do Washington Post, Matt Murray, informou aos trabalhadores por telefone, na manhã do dia 4 de fevereiro, que o jornal vinha perdendo dinheiro e leitores há tempo demais e que não poderia continuar na direção atual.
“Concluímos que a estrutura da empresa está demasiado enraizada em uma era diferente, quando éramos um produto impresso local dominante”, explicou Murray em um memorando ao pessoal. “Se vamos prosperar, e não apenas sobreviver, precisamos reinventar nosso jornalismo e nosso modelo de negócios com uma ambição renovada”.
Destruição auto infligida
O jornal, cujo proprietário é o bilionário Jeff Bezos — a terceira pessoa mais rica do mundo — não revelou a dimensão dos cortes de pessoal, mas o New York Times e o Axios, entre outros veículos, informaram que o Post eliminará um terço de sua força de trabalho, incluindo a seção de esportes e de resenhas de livros; além disso, fechará várias de suas redações no exterior, como as correspondências no Oriente Médio e na Ucrânia, e reduzirá sua cobertura de notícias locais.
O rotativo já havia reduzido em centenas o quadro de sua redação e outros postos nos últimos três anos. No mesmo dia 04, eliminou 300 dos 800 empregos restantes na área de notícias. O Post não respondeu a um pedido de informação sobre se manterá sua sucursal na Cidade do México. Também cancelará seu podcast diário, que registrava centenas de milhares de ouvintes por mês.
“Isso se qualifica como um dos dias mais sombrios na história de uma das melhores organizações jornalísticas do mundo”, lamentou Marty Baron, ex-editor-chefe do Post, em mensagem divulgada no Instagram. Ele afirmou que, durante sua gestão, trabalhou com Bezos e que o jornal se beneficiou da disposição do bilionário em investir no jornalismo, mas criticou as decisões recentes do proprietário: “Os esforços repugnantes de Bezos para se aproximar do presidente Donald Trump deixaram, por si só, uma mancha especialmente feia. Este é um caso exemplar de destruição de marca autoinfligida e quase instantânea.”
Ashley Parker, ex-repórter do Post, intitulou assim sua reportagem na The Atlantic: “O assassinato do Washington Post”.
O jornal sofreu a perda de cerca de 500 mil leitores depois que Bezos cancelou o apoio editorial à candidata presidencial democrata Kamala Harris na última eleição presidencial, e outros assinantes abandonaram o periódico quando foi anunciado que apenas seriam publicados artigos de opinião que apoiassem “liberdades pessoais e o livre mercado”.
Segundo algumas reportagens, o jornal está perdendo aproximadamente 100 milhões de dólares por ano, valor que o repórter Peter Baker, do New York Times, calculou ser equivalente ao que Bezos ganha semanalmente com seus investimentos.
Mas o Post não está sozinho na dificuldade de encontrar a fórmula para se sustentar na era digital. O Atlanta Journal-Constitution abandonou sua versão impressa em dezembro e anunciou, neste 03 de fevereiro, que reduzirá mais 15% de sua força de trabalho enquanto busca tornar rentável seu produto digital.
A debacle editorial
A tiragem de todos os principais jornais dos Estados Unidos vem despencando há anos, e todas as empresas de mídia noticiosa têm enfrentado dificuldades na transição para uma plataforma combinada entre digital e impresso ou para publicações exclusivamente online. Nos Estados Unidos, cerca de 2.254 empregos em meios digitais, impressos e de radiodifusão foram eliminados em 2025, segundo um relatório da Challenger sobre o mercado de trabalho.
“Os Estados Unidos perderam quase 3.500 jornais e mais de 270 mil empregos na área da comunicação desde 2005”, segundo um relatório da Escola de Jornalismo Medill, da Universidade Northwestern; cerca de 136 desses jornais fecharam apenas em 2025.
Em seu anúncio de ontem, o Post informou que o tráfego para seu site proveniente de mecanismos de busca caiu 50% nos últimos três anos, como resultado do surgimento da inteligência artificial. Enquanto jornais nacionais como o Wall Street Journal e o New York Times continuam gerando lucros, a Comscore informa que o tráfego digital desses dois veículos também diminuiu no ano passado.
Diretores dos principais meios de comunicação preveem que o tráfego para seus sites cairá outros 43% nos próximos três anos, segundo uma pesquisa anual com executivos de mídia realizada pelo Reuters Journalism Institute, da Universidade de Oxford.
O desafio da transição
Quase todos os veículos buscam atualmente outras fórmulas para ampliar seus públicos e gerar maiores receitas. Um exemplo de meio “tradicional” é o New York Times, cuja tiragem da versão impressa foi reduzida a menos de 300 mil exemplares — uma queda dramática em comparação com o milhão de exemplares diários que circulavam nos anos 1980. Ao longo dos últimos anos, porém, o jornal adotou uma estratégia chamada “digital primeiro”, na qual todo o periódico se concentra e prioriza diariamente sua plataforma digital, deixando a versão impressa em segundo plano.
Com isso, conseguiu alcançar 12,7 milhões de assinantes pagantes, com a meta de chegar a 15 milhões até 2027. As receitas provenientes de assinaturas passaram a representar a principal fonte de sustentação do veículo, superando a publicidade. O Times reportou receitas de aproximadamente 200 milhões de dólares em 2025.
Um dos desafios para os jornais é estabelecer uma relação direta com seus leitores na era digital. O Times tem se concentrado em obter e-mails e outras formas de interação com seu público por meio de materiais audiovisuais e gráficos distribuídos diretamente por newsletters, fóruns digitais e redes sociais. Ainda assim, os jornais reconhecem que não é fácil monetizar esses esforços.
Outro modelo relativamente bem-sucedido de meio jornalístico “tradicional” é o The Guardian — com sede no Reino Unido, mas com ampla presença e uma redação satélite nos Estados Unidos —, que reportou 1,3 milhão de assinantes em 2025, com receitas crescendo 22% em relação ao ano anterior. No entanto, diferentemente de outros veículos, mantém acesso gratuito a todas as suas notícias, sem necessidade de assinatura, convidando os leitores a contribuir e tornar-se parte de uma “comunidade” de apoio ao projeto de jornalismo independente.
Protestos seguem em todo o país – 30/01
“Não queremos o futuro que nos dizem que devemos aceitar. Temos colegas ausentes, tentam nos provocar medo todos os dias, e não vamos aceitar isso”, declararam Ria e sua colega Josie, duas estudantes do ensino médio em Minneapolis e organizadoras do movimento de oposição nessa cidade de Minnesota, que tem atraído atenção nacional e internacional.
Centenas de ações — protestos, marchas, paralisações escolares e vigílias, entre outras — foram convocadas em todo o país para os dias 30 e 31 de janeiro, formando uma onda imparável que foi fortalecida pela ampla expressão de resistência não violenta em Minneapolis durante quase todo um mês, em repúdio à “invasão” federal por agentes armados e mascarados.
O sequestro e a detenção de uma criança de cinco anos, Liam Ramos, e de seu pai por agentes do Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE) e da Patrulha Fronteiriça, assim como o assassinato de dois estadunidenses brancos — uma poeta e mãe de três filhos e um enfermeiro — opositores às táticas anti-imigrantes nas últimas três semanas, estão entre as imagens de inocência violada e da violência exercida pelo governo federal.
Impacto político
Tudo isso tem impacto político em Washington, onde o presidente foi obrigado a modificar sua retórica e suas táticas pela primeira vez desde que chegou à Casa Branca.
Na quinta-feira, senadores conservadores foram forçados a negociar a imposição de novas restrições às operações anti-imigrantes do Departamento de Segurança Interna, depois que a bancada democrata e vários republicanos se recusaram a aprovar o orçamento federal sem essas concessões.
Diversas coalizões, organizações, grupos estudantis, sindicais e religiosos estão convocando — alguns de forma coordenada, outros de maneira independente — dois dias de ações em solidariedade a Minneapolis, em repúdio aos atropelos de direitos básicos e para denunciar, de forma geral, a agenda direitista do governo de Donald Trump.
Estudantes lideram a resistência
No dia 30 de janeiro, estudantes do ensino médio em Minneapolis e na cidade gêmea de Saint Paul realizarão outra paralisação escolar e sairão às ruas, onde distribuirão cartas de “estudantes ausentes” — colegas que deixaram de frequentar as escolas por medo ou que já foram detidos pelo ICE.
Ao mesmo tempo, lançarão um chamado para uma paralisação escolar nacional em 6 de fevereiro, relataram Ria e Josie a mais de dois mil participantes em uma reunião virtual do Sunrise Movement, organização juvenil nacional, em apenas um dos múltiplos fóruns digitais realizados semanalmente com a participação de diversas organizações.
Becky Pringle, dirigente de um dos dois sindicatos nacionais de professores, a National Education Association (NEA), com cerca de 3 milhões de filiados, afirmou que governos autoritários como o de Trump “perseguem primeiro os professores, porque sabem que o que ensinamos aos jovens é a questionar”. Também deplorou que esta administração “tenha levado medo e trauma às nossas escolas” com a detenção, por agentes do ICE, de estudantes e suas famílias, mas também de docentes.
Sublinhou que seu sindicato tem estado nas ruas em defesa de estudantes e escolas e em solidariedade com pais e famílias por todo o país. Denunciou ainda que: “nosso governo está incentivando uma guerra contra seu próprio povo” e que a resistência se expressa diariamente em “ações coletivas” contra o governo e os multimilionários. “Solidariedade é um verbo.”
Sua contraparte, Randy Weingarten, dirigente da Federação Americana de Professores (AFT), o outro sindicato nacional do magistério, concordou na denúncia dos ataques contra educadores e afirmou que, por isso, os professores estão nas primeiras filas da luta contra o fascismo.
“Sem trabalho, sem escola, sem compras”, afirmam alguns organizadores das ações, em uma série de ensaios para o que alguns chamam de uma futura “greve geral”, que por enquanto permanece como objetivo da resistência contra o governo Trump.
Por ora, convocam sob o lema: “quem puder, deixe sua rotina” para somar-se aos atos de protesto.
Diversas redes — entre elas Hands Off, ICE Out e 50501 — algumas em aliança com organizações nacionais como o Sunrise, sindicatos de professores, enfermeiras, trabalhadores de serviços e outros — oferecem um número crescente e diversificado de formas de protesto, aparentemente com ações nos 50 estados, para além de comícios e marchas.
Por exemplo, alguns convocam concentrações diante de hotéis onde se hospedam agentes federais, organizam ocupações das áreas de recepção desses estabelecimentos e realizam protestos sonoros do lado de fora para “não deixar os uniformizados dormir”, além de promover pressões contra empresas como Home Depot, Target e Amazon, com o objetivo de impedir o acesso e a atuação de agentes federais em suas lojas e propriedades.
As iniciativas incluem ainda a organização de brigadas de proteção a imigrantes e seus filhos, redes de assistência mútua e oficinas de capacitação sobre direitos civis diante das ações federais. Também continuarão protestos e vigílias em frente a centros de detenção, como o realizado semanalmente na entrada do chamado “Alcatraz dos Jacarés”, na Flórida.
O movimento descentralizado, afirmam os organizadores, surge em diversos âmbitos do país, das escolas e ruas aos corredores do poder político formal e até Hollywood.
Essa oposição conta com apoio cada vez mais amplo de estrelas da música, do cinema e da televisão, entre elas Bruce Springsteen (com sua nova canção dedicada à oposição), Lady Gaga, Billie Eilish, Olivia Rodrigo, Jane Fonda, Natalie Portman, Eva Longoria, Pedro Pascal, Matt Damon e Olivia Wilde.
Enquanto isso, galerias de arte em todo o país fecharão no dia 30 como parte da paralisação, informou a revista Artforum.
ICE: símbolo da impunidade – 14/01
O Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE) tornou-se a maior força federal de segurança dos Estados Unidos e uma das mais numerosas do mundo. Está encarregado de executar a brutal campanha anti-imigrante do governo de Donald Trump, com uso frequente de violência e abusos não apenas contra indocumentados, mas também contra cidadãos estadunidenses que se opõem a seus operativos, até agora com absoluta impunidade.
Grande parte da atenção midiática nos primeiros dias deste ano concentrou-se no assassinato, gravado em vídeo, de uma cidadã estadunidense desarmada que se opunha às táticas do ICE em Minneapolis. Contudo, nesses primeiros dez dias de 2026, outros quatro imigrantes morreram sob custódia da corporação. No ano passado, 31 pessoas faleceram durante detenções realizadas pelo órgão de segurança, um recorde.
A agência federal, incorporada ao Departamento de Segurança Interna, foi criada em 2003 e recentemente cresceu até alcançar 22 mil agentes no início de 2026. Esses números não incluem os 20 mil efetivos da Patrulha Fronteiriça nem os milhares adicionais designados para operações anti-imigrantes de outras agências federais.
O ICE também ampliou a população detida sob sua custódia, passando de uma média diária de 40 mil para mais de 70 mil pessoas, além de expandir sua rede de centros de detenção para quase 200 unidades, muitas delas administradas por contratistas privados como negócio.
O Congresso aprovou, no ano passado, uma legislação destinada a triplicar o orçamento das operações de controle migratório, alcançando o recorde de 170 bilhões.
Além do recrutamento de agentes em níveis sem precedentes, o governo federal destinou um fundo de 280 milhões para contratar caçadores de recompensas privados com o objetivo de localizar indocumentados. Também ampliou o uso de bancos de dados privados para identificar pessoas que poderiam estar em situação migratória irregular.
As medidas anti-imigrantes executadas por agentes mascarados, armados com armas de fogo e gás de pimenta, são oficialmente justificadas como parte de uma ofensiva contra imigrantes criminosos violentos. No entanto, na prática, a maioria dos detidos não possui antecedentes criminais, e não se oculta que a esmagadora maioria é composta por pessoas racializadas.
A justificativa oficial para que os agentes atuem mascarados e sem identificação pessoal seria protegê-los contra supostas ameaças de criminosos e da “esquerda radical” contra suas famílias em represália, embora até agora não existam provas disso.
Meta ambiciosa
A meta anunciada por Trump durante sua candidatura era deportar um milhão de imigrantes no primeiro ano de sua presidência. Entretanto, segundo dados oficiais analisados pelo Migration Policy Institute (MPI) em investigação divulgada recentemente, o número de expulsões em 2025 foi de 622 mil — cifra inferior ao total registrado no último ano do governo de Joe Biden.
Esses dados, porém, não incluem os chamados “auto-deportados”, resultado da tática de provocar a saída de imigrantes por meio de ameaças, intimidação e até separação de famílias, incluindo crianças.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, justificou imediatamente o assassinato da cidadã estadunidense branca e mãe de três filhos, Renee Good, em Minneapolis, no dia 07 de janeiro, afirmando que o agente que disparou três tiros em sua cabeça agiu em legítima defesa e classificou o incidente como “um ato de terrorismo doméstico”. Ela e outros funcionários e políticos alinhados a Trump insistem que tudo é culpa da “esquerda radical” e daqueles que se opõem à deportação de “criminosos”.
Ofensiva presidencial
No dia 13 de janeiro, Trump atacou aqueles que se atrevem a criticar as operações do ICE, incluindo o ataque ocorrido em Minneapolis, insistindo que os “patriotas do ICE” apenas deportam criminosos, assassinos, narcotraficantes, estupradores e fugitivos de manicômios de outros países. Acusou ainda que aos democratas “encantam os distúrbios que os anarquistas e agitadores profissionais” estariam provocando e concluiu: “não temam, grande povo de Minnesota, está por chegar o dia de ajustar contas e de retribuição”.
Críticos — desde prefeitos, chefes de polícia e governadores dos estados onde foram realizados operativos massivos do ICE até organizações de direitos civis, escolas e comerciantes — afirmam que essa “invasão” do governo federal produz o oposto de seu objetivo oficial de reduzir o crime e acaba gerando caos.
Apontam, por exemplo, que escolas públicas em Minneapolis e arredores, onde ocorreram operações do ICE, foram fechadas para proteger estudantes não de criminosos, mas da insegurança provocada pelos próprios agentes federais.
Como ocorre quase diariamente, agentes do ICE continuaram suas ações em Minneapolis com o uso de gás lacrimogêneo e gás de pimenta contra manifestantes e “observadores cidadãos” exatamente na mesma zona onde Good foi assassinada na semana passada.
Agentes migratórios também continuaram realizando detenções de pessoas que exigiam a retirada das forças federais de Minneapolis.
Ainda assim, milhares de cidadãos, provenientes de uma ampla gama de organizações ou atuando individualmente, seguem manifestando-se nas ruas para exigir a expulsão do ICE de seus povoados e cidades, além de organizar brigadas para proteger comunidades imigrantes.
O caucus progressista do Congresso federal demandou a redução do orçamento do ICE e do Departamento de Segurança Interna e exigiu maior prestação de contas sobre as ações de seus agentes. Até mesmo a liderança democrata, conhecida por sua cautela, viu-se obrigada a se pronunciar.
“Estão fora de controle, com máscaras, sem câmeras de monitoramento, sem prestar contas nem ordens judiciais, prendendo e, em alguns casos, deportando cidadãos estadunidenses”, declarou Hakeem Jeffries, líder da bancada democrata da Câmara dos Representantes.
“Esta é uma nova era na política migratória deste país”, afirmou a ex-comissária de imigração Doris Meissner, atualmente vinculada ao MPI, em um fórum, acrescentando que isso fica “completamente ilustrado pelo que ocorre em Minneapolis”.
“A magnitude da propaganda que vemos deste governo está além da imaginação” em torno do tema migratório, explicou o jornalista Nick Miroff, da The Atlantic, no mesmo evento, destacando que ela inclui, além de gravações e redes sociais, até um vídeo de rap do diretor da Patrulha Fronteiriça. O objetivo declarado vai além do ambicioso: o Departamento de Segurança Interna fixou como meta a deportação de 100 milhões de pessoas — quase um terço da população total do país — acompanhada de uma representação do suposto paraíso que seria alcançado.
Embora esteja muito distante de atingir tal meta, suas táticas já tiveram impacto dramático. Pela primeira vez em pelo menos meio século, mais imigrantes deixaram os Estados Unidos do que os que ingressaram no país em 2025, segundo cálculo da Brookings Institution.
Para outros, o próprio ICE representa a ameaça. O senador Bernie Sanders declarou: “estou muito preocupado porque a agência está se tornando um exército doméstico para Trump, e isso vai muito além da questão migratória. Trata-se de como este país avança rumo ao autoritarismo e ao medo”.
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