Do ponto de vista geopolítico, a situação atual no Oriente Médio encontra-se em uma dinâmica de guerra e de acordos entre os atores regionais.
Em declarações exclusivas à Prensa Latina, a professora María Elena Álvarez explicou que a guerra iniciada em 28 de fevereiro contra a República Islâmica do Irã vem se desenvolvendo em um contexto no qual a aliança entre Estados Unidos e Israel não mediu as consequências.
“Essa situação, em nível regional, criou uma diversidade de posições entre os países do Golfo Pérsico em relação aos Estados Unidos. A situação dos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, não é a mesma, tanto que o país chegou a deixar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo”, afirmou.
Segundo explicou, nesse cenário, a liderança do país persa aumentou tanto em nível regional quanto internacional, enquanto a tensão regional se tornou um catalisador que está afetando a economia mundial.
“Fala-se muito que a China ajudou o Irã em determinados aspectos, sobretudo nas comunicações. O país vinha se preparando para essa guerra havia muitos anos. A aliança com a China e a Rússia foi essencial”, disse.
A estratégia que fez o Irã atravessar guerras, sanções e isolamento sem se render aos EUA
Nessa conjuntura, em que o Irã representa a porta de entrada para a Ásia Central, os acontecimentos impactaram as nações do Golfo, abrindo caminho para a influência da economia chinesa.
Álvarez assinalou que esses acontecimentos demonstraram a decadência da administração de Donald Trump, que perdeu credibilidade, provocando reconfigurações entre os países da região e um aumento da influência na América Latina.
“Acredito que esse seja o maior impacto do ponto de vista geopolítico. Os Estados Unidos tentaram assegurar a América Latina, e já sabemos o que está acontecendo, porque ela sempre foi considerada seu quintal”, afirmou.
“Essa guerra demonstrou que talvez as forças não tenham sido corretamente avaliadas, mas confirmou a fraqueza dos Estados Unidos”, acrescentou.
Também enfatizou que o impacto sobre o petróleo chinês foi pequeno e que a aliança entre Rússia e China se fortaleceu.
“O Irã é importante porque integra a Organização para Cooperação de Xangai e os Brics (inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e ampliado com a entrada de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã em 2024, além da Indonésia em janeiro de 2025)”, ressaltou.
Álvarez assinalou que o foco da atenção deve ser o Irã, mas que existem outros cenários interessantes do ponto de vista geopolítico, nos quais predominam tanto a guerra quanto momentos de negociação.
“Existem acordos e propostas de países com peso regional, como Turquia e Arábia Saudita, que, na prática, servem para fortalecer suas posições; além disso, outros países ampliaram suas relações para além dos Estados Unidos”, destacou.
Quanto aos possíveis cenários, declarou que pode ocorrer de o país persa encerrar a guerra como vencedor, e que vários países da região poderiam enxergar isso como uma ameaça ao equilíbrio de forças diferente daquele que existia até então.
“Na prática, quem foi beneficiado por essa guerra? Para o Irã, o custo foi muito elevado, mas o país reafirmou seu papel para além de uma potência regional, enquanto Washington demonstrou suas fraquezas”, concluiu.
As hostilidades iniciadas pelos Estados Unidos e promovidas por Israel, sob o pretexto de neutralizar o programa nuclear do Irã, resultaram em reiterados descumprimentos dos acordos previstos nos memorandos de entendimento por parte de Washington e Tel Aviv.
O governo iraniano reiterou em diversas ocasiões sua disposição de participar de esquemas de negociação baseados no respeito mútuo, na igualdade soberana e na não ingerência nos assuntos internos.
As comunidades da região reafirmaram seu apoio às iniciativas pacíficas que promovam o fim da presença militar estrangeira e garantam a segurança compartilhada nos territórios do Sul Global.





