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EUA intensificam ofensiva militar contra Venezuela e revelam fragilidade de sua diplomacia

De ataques navais à retórica xenófoba,, analistas veem na escalada contra Caracas um sintoma da crise de poder dos Estados Unidos no cenário multipolar

David Brooks, Jim Cason
La Jornada
Washington

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Angelo Rivero Santos, professor e diretor acadêmico do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade de Georgetown, considera que a ameaça militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, exemplificada no recente suposto ataque de uma lancha e na presença da frota naval no Caribe, não é novidade. Para ele, o episódio demonstra a debilidade de Washington diante das mudanças no cenário internacional, no qual já não exerce hegemonia plena.

Em entrevista ao jornal La Jornada, Rivero Santos analisa o momento atual e seus antecedentes, revelando aspectos centrais da política estadunidense em relação ao hemisfério.

La Jornada: O que significa a armação dos navios de guerra no Caribe, o ataque de uma lancha supostamente transportando drogas e a ofensiva contra o governo venezuelano?

Angelo Rivero Santos: É uma continuação de uma política que existe há pelo menos 23 anos. Mas os últimos eventos — o ataque contra o bote que supostamente levava 11 narcotraficantes e drogas — indicam que passaram da ameaça à ação, violando todo o conceito da Carta das Nações Unidas e inclusive a lei da guerra, que exige respeito à vida do inimigo e, no mínimo, advertência prévia. Nada disso foi cumprido.

Então, me parece que o que se observa aqui é uma continuação de uma política que sempre buscou deslegitimar a Venezuela e contrariar sua influência regional. Isso tem relação direta com o êxito alcançado em matéria de regionalismo até 2013. A Venezuela impulsionou o fortalecimento da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a solidariedade, a multipolaridade e a integração política latino-americana e caribenha, contrariando a lógica econômica que se vinha propondo em integração econômica desde o Consenso de Washington. Além disso, não se pode esquecer que o país detém as maiores reservas de petróleo do mundo.

Mas agora a justificativa já não é a mesma das últimas duas décadas.

Agora, dizem que se trata de narcoterrorismo. Sempre houve a construção de uma imagem negativa que se intensificou nos últimos meses, projetando a Venezuela como um país em caos, com governo ilegítimo.

Vejo isso como uma ofensiva muito perigosa, porque a retórica se transformou em ação. É parte de uma série de estratégias fracassadas para forçar uma mudança de comportamento no governo venezuelano e fomentar uma sublevação contra o governo na Venezuela.

Recordemos que Donald Trump, em sua primeira campanha, chamou os mexicanos de violadores e assassinos. Depois, em outro momento, afirmou que haitianos estavam comendo cães em Ohio. Hoje, dirige um discurso xenófobo contra os venezuelanos, apresentando os imigrantes como invasores dos Estados Unidos. Isso é perigoso porque há um aumento evidente no tom agressivo, que serve a interesses políticos internos, sobretudo de setores da Flórida, mas coloca a Venezuela em uma situação crítica, ao passar da retórica para a ação.

Qual seria o objetivo da atual política estadunidense com essa nova ameaça militar?

Vale destacar que em Washington, em 2013, John Kerry, então secretário de Estado, declarou que a Doutrina Monroe era coisa do passado. Mas em 2018, Rex Tillerson, primeiro secretário de Estado de Donald Trump, revitalizou essa doutrina e chegou a afirmar que os Estados Unidos se reservavam o direito de intervir e manter acesso exclusivo ao continente.

A estratégia atual não é confusa, mas sim “bipolar”. Desde a época de Theodore Roosevelt (1901 – 1909), quando enviaram barcos ao que hoje é o Panamá para apoiar movimentos separatistas da Colômbia, os Estados Unidos praticam a chamada diplomacia das canhoneiras. No século 21, parece que voltamos a esse tipo de postura.

São duas mensagens claras. A primeira é a ameaça real, com impacto psicológico e político sobre a Venezuela, pois embora os navios estadunidenses estejam em águas internacionais, se posicionam diante da costa venezuelana. A segunda é uma mensagem política, semelhante ao que se fez no século 19 e no início do 20: declarar que o Caribe pertence aos Estados Unidos.

Por um lado, há a extensão das licenças à Chevron e a realização de quase 70 voos de repatriação de venezuelanos. Por outro, a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono adotam um discurso que é a antítese da diplomacia: a ameaça de força militar bruta.

É a velha estratégia do “policial bom e policial mau”, a cenoura e o porrete, cujo objetivo é fragilizar a política interna venezuelana. Ao deslegitimar e desumanizar o inimigo, tentam vender à opinião pública a ideia de que se trata de um sistema colapsado que necessita intervenção. Já vimos essa narrativa no passado: primeiro era preciso conter o comunismo; depois, promover a democracia e os direitos humanos; agora, dizem que se trata de matar narcotraficantes, porque aparentemente, o narcotráfico, ademais de que seja um crime como o é aparentemente, também é um ato de guerra. E isso é contrário às próprias normas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Além do jogo bélico, o que está em jogo com esta confrontação?

O regionalismo pós-hegemônico. O que está evidente é que vivemos a continuidade da reestruturação da ordem mundial. Estão sendo buscadas novas estruturas e instituições capazes de lidar com um mundo multipolar, no qual já vivemos. Washington reage a esse processo, sobretudo na atual administração.

É o medo de um império hegemônico em decadência. Os Estados Unidos ainda possuem a economia mais poderosa do mundo e o maior poder militar, mas sabem que enfrentam competidores em diferentes polos de poder.

Parte da postura diante da América Latina e dos imigrantes é justamente uma tentativa de restabelecer sua hegemonia — sem se dar conta de que essa hegemonia já não regressa. A América do Sul de 2025 não é a mesma dos anos 1970 nem dos anos 1990.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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