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ToggleO governo de Donald Trump nos EUA descartou a retórica de democracia, direitos humanos e corresponsabilidade com outros países do hemisfério estadunidense para proclamar talvez a versão mais honesta em décadas da política de Washington nas Américas em mais de meio século: “a dominação estadunidense do hemisfério ocidental nunca mais será questionada”, afirma o Departamento de Estado.

Em um vídeo oficial divulgado pelas redes sociais, o Departamento de Estado ofereceu uma lição de história da Doutrina Monroe durante os últimos 200 anos — ressuscitada pelo presidente Trump como sua política interamericana, dando-lhe o apelido de “Doutrina Donroe”.
Não há menção à política da Boa Vizinhança, ou à “Aliança para o Progresso” do presidente John Kennedy (que incluiu a Baía dos Porcos, esquadrões paramilitares da CIA e mais), seguida pela retórica de interesses compartilhados (incluindo o apoio a golpes de Estado, intervenções e mais), e depois pela retórica de direitos humanos de Jimmy Carter, pelas declarações de Ronald Reagan em apoio à “liberdade” na América Central e, mais tarde, pelo vínculo entre democracia e livre comércio com Bill Clinton e pela era de nova cooperação tanto com George W. Bush quanto com Barack Obama.
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A ausência de tanta retórica para os países parceiros é preenchida com a Doutrina Monroe do século XXI.
No vídeo oficial, Kevin Marion Cabrera, atual embaixador dos Estados Unidos no Panamá, narra a história do hemisfério tendo a Doutrina Monroe como eixo. Começa pelo México: “[A Doutrina Monroe] foi invocada quando os franceses instalaram um imperador no México, forçando sua retirada posterior”, explica Cabrera sem mencionar jamais Benito Juárez nem as ações do povo mexicano.
Com orgulho, o narrador assinala que o que começou como uma doutrina defensiva contra as potências europeias nas Américas transformou-se em uma declaração imperial quando, em 1895, o então secretário de Estado Richard Olney anunciou que “hoje os Estados Unidos são praticamente soberanos neste continente e seu mandato é lei sobre os súditos aos quais confina em sua interposição”. Essa declaração, afirma o embaixador Cabrera, “redefiniu a doutrina, que já não era apenas uma advertência, já era uma proclamação de primazia regional”.
Caso alguém questione o uso do termo “imperial”, o embaixador-narrador confirma justamente essa maneira de definir a doutrina quando sustenta que a guerra contra a Espanha, no final do século XIX, permitiu que os Estados Unidos surgissem como “uma potência imperial genuína com domínio sobre o Caribe”. O vídeo de cinco minutos avança rapidamente em sua narrativa histórica, relatando a declaração do presidente Theodore Roosevelt de que “se um país latino-americano cair no caos, então os Estados Unidos aparecerão e resolverão a situação”, e conta que os Estados Unidos apoiaram a independência do Panamá, mas com a condição de que Washington manteria sua soberania sobre o novo Canal do Panamá.
O roteiro continua e salta quase meio século para chegar novamente a Cuba. “Quando os mísseis soviéticos foram descobertos em Cuba em 1962, Kennedy não teve que inventar um novo esquema, simplesmente invocou a doutrina.

Essas armas tinham que sair”. Segundo esse mesmo roteiro, Ronald Reagan aplicou a mesma lógica em 1985 para “justificar a oposição estadunidense ao regime sandinista apoiado pelos soviéticos na Nicarágua”. O narrador cita a declaração de Reagan de que “as ameaças ideológicas exigem a mesma resposta que as militares”.
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Mas o objetivo do vídeo é chegar ao presente, “onde a doutrina encontrou seu campeão mais recente no presidente Donald Trump”. O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, nesta narrativa, “emitiu um sinal retumbante por todo o hemisfério”, e o vídeo passa a oferecer um trecho de Trump declarando horas depois da conclusão daquela operação: “sob nossa nova doutrina de segurança nacional, a dominação estadunidense do hemisfério ocidental jamais será questionada novamente”.
Certamente não é por acaso que o vídeo do Departamento de Estado foi divulgado um dia antes de o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ter programada uma viagem ao Panamá para presidir a próxima reunião da Coalizão Anticartel das Américas, também conhecida como a coalizão do Escudo das Américas.
“O fórum da Coalizão Anticartel das Américas, sediado por nossos bons amigos no Panamá, indica uma mudança decisiva em nossa luta regional contra os cartéis e os narcoterroristas”, declarou o comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis Donovan. “Não podemos apenas nos reunir e discutir. Temos que agir juntos, trabalhando ombro a ombro para aplicar uma fricção sistêmica total sobre essas redes terroristas e salvaguardar nosso hemisfério”.
O general Donovan, ao que parece, ainda não teve tempo de assistir ao novo vídeo do Departamento de Estado sobre o que o comandante em chefe Trump batizou, em sua própria homenagem, de “Doutrina Donroe”. Mas certamente o embaixador estadunidense no Panamá poderá compartilhar ali o esquema renovado da doutrina: “o que começou como uma advertência às potências europeias evoluiu para um esquema de dominação regional, que permanece como a pedra angular da estratégia estadunidense no hemisfério atualmente”.





