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Flaco Tournier, imagem por imagem

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

O “Flaco” Walter Tournier é uma lenda do cinema de animação da América Latina. Tanto, que o cineasta uruguaio parece um dos personagens que anima, com seu grande sorriso, seus olhos saltados e sua estatura que trata de dissimular como se estivesse a ponto de passar por um umbral mais baixo. Na realidade é porque o Flaco é grande, porém humilde, e não quer fazer sombra a ninguém, nem necessita fazê-lo porque sua obra se projeta por si mesma, como uma das mais surpreendentes no cinema de animação, e não apenas da nossa região.

Alfonso Gumúcio*

Basta ver seu longa metragem Selkirk (2012) para perceber a maestria de Walter Tournier na realização de um projeto tão ambicioso, com meios muito limitados.

Para o espectador comum, 30 segundos de projeção não significam mais do que isso, meio minuto de tempo que transcorre na tela, mas para quem faz animação como o Flaco Tournier, usando a técnica de stop-motion, imagem por imagem, esses 30 segundos significam dias ou semanas de trabalho.

 

O “Flaco” Walter Tournier é uma lenda do cinema de animação da América Latina

Eu sei. Tive a sorte de ver Walter Tournier trabalhando junto com sua equipe em uma extensa oficina na rua La Paz (casualmente, o nome de nossa cidade) em Montevidéu, durante o processo de produção de Selkirk, também conhecida como “a verdadeira história de Robinson Crusoé”, e o que  vi foi uma equipe de trinta pessoas completamente articulada em torno  de Tournier (valha a sonora redundância) e entusiasmada a ponto de esquecer do tempo que transcorre quando se faz um trabalho dessa natureza.

O único espaço de descanso era o almoço, que compartilhei com eles enquanto ficavam, por um momento, estáticas as figuras dos personagens distribuídas em várias mesas em quatro espaços divididos por cortinas negras para poder trabalhar simultaneamente e filmar com várias câmeras. Às vezes esses espaços se uniam em um enorme set, como para as cenas do barco.

Todo o processo de produção e pós-produção envolveu 120 pessoas, pois havia outras pessoas no Chile, Argentina e Uruguai realizando outras tarefas. Tardaram 2 anos e 4 meses para realizar Selkirk mas antes, oito anos para conseguir o financiamento.

O filme resgata um personagem histórico importante, um pirata escocês “rebelde e egoísta” que sulca os mares do Sul em um galeão inglês, em busca de um tesouro

O filme resgata um personagem histórico importante, um pirata escocês “rebelde e egoísta” que sulca os mares do Sul em um galeão inglês, em busca de um tesouro. Como em muitas aventuras, não interessa tanto a chegada ao destino como a própria viagem. Nessa viagem Selkirk se inimiza com a tripulação do galeão e acaba abandonado em uma ilha deserta.

O cinema de animação mudou muito nos últimos tempos devido ao aperfeiçoamento das normas digitais. Agora se pode fazer “o que se quiser” com os programas de digitalização, de modo que a técnica do stop-motion é como o símbolo da pureza original do cinema de animação em que tudo se faz à mão. 

Tournier começou seu incrível trabalho em 1974 com tesouras, papel e lápis de cor: “o primeiro filme que fiz foi com papel recortado, depois de vários anos fiz outro em massa de modelar, ambos em stop-motion. Nessa época não existia o digital nem o vídeo, tudo era em cinema, única opção de transmitir em animação, ideias e conceitos. A isso se somou as minhas habilidades e conhecimento do trabalho em metal, que me permitiu construir os esqueletos necessários para o stop motion.”

Em animação a técnica é a mais difícil, mas ao mesmo tempo a mais próxima da realidade. Dar vida a personagens com pele de silicone e esqueleto de metal (para não dizer personagens “de carne e osso”), que medem 20 ou 25 centímetros de altura é um desafio mais próximo da arte que do truque.

Em fotografia é a diferença entre uma foto natural, direta e testemunhal, e outra que tenha passado por vinte manipulações de Photoshop para embelezá-la ou dramatizá-la artificialmente.

A realidade é importante inclusive em uma história como a de Selkirk: “Me interessa e me motiva o real, a existência do produto ao vivo, o espaço e seu entorno. Quando animo um personagem em seu entorno, estou fotografando a realidade, algo que existe e ganha vida. Me cativa mais o real do que o virtual. Eu me sinto deste mundo, não do ciberespaço”.

Cada personagem de Selkirk (e de outros filmes que foram realizados por Tournier ao longo de cinco décadas) é feito à mão, mas sua técnica evoluiu com arte e ciência ao mesmo tempo. Já não utiliza as figuras de massa em que os movimentos pareciam algo torpes. Em Selkirk e em produções mais recentes constrói figuras com corpos articulados mediante complexos mecanismos interiores e recobertos de roupas e máscaras de silicone feitas em molde, dezenas delas para expressar diferentes emoções.

https://youtu.be/0ULToEVTC8g

Tudo isso se deve à visita nesta semana de Walter Tournier a Bolívia, e que as pessoas que não o conhecem saibam que teremos por uma semana entre nós um dos diretores de animação mais experientes e criativos do mundo.

O Flaco Tournier tem uma longa relação com os cineastas bolivianos. Me une a ele uma amizade de mais de quatro décadas, com encontros esporádicos em sua casa em Montevidéu ou em Havana e em outros eventos de cinema.

Há poucos dias me dizia em uma mensagem anunciando sua chegada: “Tenho um enorme carinho pela Bolívia e sua gente. Meu primeiro contato foi em 1967 no festival Latino-americano de Viña del Mar quando eu, estudante, escutei com uma modéstia enorme Oscar Soria apresentar, se mal não lembro, Ukamau. Uma ovação de pé seguiu o filme e a partir daí fui um admirador e defensor do cinema boliviano. A vida me levou a conhecer anos depois os integrantes do grupo Ukamau com os quais estabeleci uma enorme amizade. Minha estadia no Peru fez com que aumentasse a lista de entranháveis amigos bolivianos. Como posso me sentir ao poder reencontrar tantos amigos queridos depois de tantos anos? Feliz e agradecido à vida que me permite desfrutar estes momentos e poder abraçar pessoas tão entranháveis”.

Depois de Selkirk, Tournier dirigiu “Chatarra” um curta sobre o futuro apocalíptico da humanidade, “mas sem perder a esperança”. Também realizou “Alto el Juego” outro curta metragem de animação que a partir dos milhares de crianças que morreram na guerra da Síria, busca sensibilizar sobre o uso dos brinquedos bélicos e as absurdas guerras que existem. A sensibilidade social do cineasta é mais importante que outros projetos comerciais que poderiam dar-lhe mais satisfações comerciais, mas menos tranquilidade de consciência.

“Agora –me conta- estamos trabalhando em outro longa metragem cujo título provisório é “Pueblo chico”, (esclareço, título provisório para que não se sinta molesto o querido Antonio Eguino) e buscando os fundos necessários para a produção, a etapa mais complexa de conseguir”. 

 

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz, Bolívia


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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