Jorge Mario Bergoglio nasceu no bairro de Flores, em Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, e faleceu no Vaticano em 21 de abril de 2025, aos 88 anos de idade, após ter sido eleito papa em 13 de março de 2013 e adotado, como pontífice, o nome de Francisco. Há poucos dias completou-se, assim, um ano de sua ausência, e começa a tomar forma a avaliação de seu legado, no qual o teológico e o político se entrelaçam estreitamente, como expressa sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, de 2013, talvez o mais juvenil de seus textos de plena maturidade [1].

Sua obra maior inclui, entre outras publicações, as encíclicas Laudato Si’, Sobre o Cuidado da Casa Comum, de 2015, dedicada à crise socioambiental [2], e Fratelli Tutti, Sobre a Fraternidade e a Amizade Social, de 2020, dedicada à crise sociocultural e política de nosso tempo [3]. A primeira teve singular êxito editorial, pela novidade de a Igreja assumir um papel de liderança na formulação da crise socioambiental em um momento de especial intensidade, quando as negociações internacionais em torno da mudança climática pareciam oferecer a possibilidade de um acordo à altura da complexidade e das responsabilidades do problema — possibilidade que posteriormente se frustrou.
Aqui, o essencial ficou expresso no parágrafo 139 de Laudato Si’, que passou a sintetizar o fundamental do ambientalismo comprometido com a mudança social, particularmente em nossa América. Ali se afirma que:
A partir de raciocínios como esse, pode-se afirmar que, se desejamos um ambiente diferente, devemos contribuir para a criação de uma sociedade distinta: próspera, equitativa, sustentável e democrática. Nessa perspectiva, a dimensão social do que foi proposto em Laudato Si’ encontraria expressão cultural e política, cinco anos depois, em Fratelli Tutti, em uma circunstância histórica que já anunciava o drama humano de nosso tempo, visível nos conflitos em curso na Ucrânia, no Oriente Médio e na África Subsaariana, bem como no aumento das tensões sociais — em torno de questões como a imigração e a ascensão dos neofascismos do século 21 no mundo do Atlântico Norte e em seus correspondentes no Sul Global.
Em 2020, de fato, o processo de globalização iniciado no final do século 20 havia avançado na criação de novas estruturas de relacionamento no sistema mundial, nas quais tendiam a se combinar as demandas de extrema liberdade no plano econômico com crescentes tendências ao confronto no plano político. A esse respeito, Francisco detalhou em Fratelli Tutti advertências que já havia formulado sete anos antes em Evangelii Gaudium. “Abrir-se ao mundo”, disse,
Fratelli Tutti examina em detalhe os grandes males do momento histórico em que vivemos, desde a iniquidade no acesso aos bens criados pelo trabalho de todos em sociedade até a negação de direitos a minorias e migrantes, o esvaziamento de conteúdos na comunicação e na cultura e o crescente recurso à força nas relações internacionais. Ao mesmo tempo, faz isso sobretudo na perspectiva de uma nova construção das relações humanas, baseada na fraternidade e na amizade social. A primeira, distinta da irmandade fundada em vínculos de família ou de interesses comuns, refere-se à nossa capacidade de nos reconhecermos como próximos dos demais seres humanos, em particular daqueles sujeitos à necessidade, a partir de uma leitura original da parábola do bom samaritano. A amizade social, por sua vez, refere-se especialmente às nossas capacidades para a vida em comunidades de pequena e grande escala, que compartilham valores e relações solidárias. Ambas, caberia acrescentar, são vistas como capacidades para enfrentar e transcender os males da dimensão obscura de uma globalização hoje carente de um rumo comum, recorrendo às virtudes da solidariedade para pensar e gestar um mundo aberto.
De Buenos Aires ao Vaticano, Papa Francisco propôs uma nova relação entre a religião e a sociedade
Essa visão, por outro lado, é apresentada a partir de uma perspectiva ecumênica, em diálogo não apenas com a cristandade, mas com todas as grandes religiões do mundo. Assim, no que diz respeito ao islã, Francisco refere-se em detalhe ao seu diálogo com o Grande Imã Ahmed Al-Tayyeb, no qual, “ampliando o olhar, recordamos que ‘a relação entre o Ocidente e o Oriente’”
Nesse espírito, Fratelli Tutti chega ao seu capítulo oitavo e final, intitulado justamente “As religiões a serviço da fraternidade no mundo”. Ali disse Francisco, em nome da “fraternidade humana que abraça todos os homens, os une e os torna iguais”, dessa “fraternidade ferida pelas políticas de integrismo e divisão e pelos sistemas de lucro insaciável e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens”:
Ele está conosco, sem dúvida. Compartilha com outros, como José Martí e Fidel Castro, sua condição de visionário comprometido com o exercício da utilidade da virtude na luta pelo melhoramento humano e pelo equilíbrio do mundo. Foi, em vida, um dos nossos: nossa América está nele, assim como ele está conosco.
Alto Boquete, Panamá, 23 de abril de 2026
[1] https://www.vatican.va/content/francesco/es/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione- ap_20131124_evangelii-gaudium.html
[2] https://www.vatican.va/content/francesco/es/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
[3] https://www.vatican.va/content/francesco/es/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html
Visite meu blog martianodigital.com





