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Foto: Albert Gonzalez Farran / ONU

Fugir da guerra para passar fome nos países vizinhos: o martírio dos refugiados do Sudão

Mais de 1 milhão de pessoas fugiram do Sudão em abril, mais da metade em direção ao Chade e Sudão do Sul, onde não há comida nem instalações suficientes para os refugiados
Francesca Cicardi
El Diário.Es
Madri

Tradução:

Ana Corbesier

Depois de uma viagem longa e perigosa, em que sofrem roubos e violência, aqueles que fogem do conflito do Sudão chegam exaustos, traumatizados e famintos aos países limítrofes. Ali encontram falta de alimentos, de alojamentos dignos e de assistência básica. Mais de 60% deles chegaram ao paupérrimo Chade (a oeste do Sudão) e ao Sudão do Sul, estados que já sofriam suas próprias crises humanitárias e não podem fazer frente às necessidades do crescente número de refugiados, que já superam o milhão depois de quase cinco meses de guerra.

Segundo a Organização Internacional das Migrações (OIM), mais de 245 mil pessoas chegaram ao Sudão do Sul e 91% delas são originárias deste país, que abandonaram devido à guerra que começou em 2013. No entanto, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) não se sabe quantos puderam entrar sem se registrarem.

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“A maior parte são pessoas refugiadas, que estavam no Sudão devido à guerra de 2013 e agora estão de novo em uma situação de guerra e têm que voltar a seu país, um país que está em uma situação complicada”, onde faltam até mesmo alimentos, explica a elDiario.es Luz Linares, coordenadora do MSF no Sudão do Sul.

Fugir da guerra duas vezes

“As pessoas estão chegando desnutridas, cansadas, traumatizadas, pela situação que viveram em Cartum (a capital sudanesa) e pela que estão vivendo no trajeto”, que às vezes percorrem a pé, sem sequer água potável e comida, e durante o qual sofrem assaltos, roubos e as mulheres são violadas, informa Linares.

Por isso, quando cruzam a fronteira do Sudão com o Sudão do Sul e chegam ao estado de Alto Nilo, onde operam as equipes da ONG, estão “em condições lamentáveis – os adultos mas, sobretudo, as crianças”. “Não sabemos quantas crianças estão morrendo pelo caminho”, lamenta Linares.

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Durante a viagem, os pequenos estão mais expostos às enfermidades, como o sarampo, de que há uma epidemia neste momento – a que o MSF está respondendo com uma campanha de vacinação –, além da malária, da cólera e de outras enfermidades que podem proliferar na temporada de chuvas que já começou.

Uma criança e sua mãe na clínica móvel do MSF em Malakal, no Sudão do Sul. Foto cedida pelo MSF/Gale Julius Dada

“Estamos vendo muita desnutrição nas crianças”, que chegam depois de semanas de viagem em condições muito duras, segundo a coordenadora do MSF. Em menos de cinco meses, a ONG atendeu 475 crianças “em desnutrição severa com complicações” no hospital pediátrico de Malakal, onde antes do conflito costumavam receber no máximo 35 crianças por mês.

“A maior parte dos casos graves são crianças”, detalha da capital Yuba, em uma conversa. O MSF também apoia o hospital de adultos de Malakal e o pediátrico de Renk. Depois de cruzar a fronteira, os retornados chegam primeiro a esta localidade, onde há um centro de trânsito para refugiados, e alcançam Malakal só depois de navegar entre 48 e 72 horas em embarcações precárias: “Pegam os barcos desde Renk até Malakal adultos e crianças enfermos, que não deveriam viajar durante dois ou três dias”, diz Linares.

De Malakal, alguns seguem viagem até seus lugares de origem, apesar de não estarem em condições de fazê-lo. “As pessoas querem ir embora o mais depressa possível e muitos não querem nem mesmo vir ao hospital ou (…) alguns pais levaram crianças em estado crítico do hospital” para poder continuar a viagem sem demora.

Linares relata que as autoridades locais estabeleceram centros de trânsito porque desejam que regressem a seus lugares de origem, mas muitos nasceram ou estão há anos radicados no Sudão, ou ainda, não têm para onde voltar depois de um longo conflito étnico no Sudão do Sul, que arrasou povoados inteiros e provocou o deslocamento de milhões de pessoas.

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Além do desenraizamento, mudar de país supõe outros riscos: “No Sudão, sobretudo em Cartum, não há malária e as pessoas não têm anticorpos (frente a esta enfermidade transmitida por mosquitos); chegam ao Sudão do Sul, onde a malária é endêmica e há muitos casos da doença; a mortalidade é elevada, especialmente entre as crianças”, explica Linares.

Como voltar para casa?

Antes da explosão de violência em Cartum, cerca de 800 mil pessoas originárias do Sudão do Sul viviam no vizinho Sudão. Este é seu lar e muitos desejam regressar, quando as circunstâncias permitirem, e por este motivo permanecem no estado de Alto Nilo, que já antes da crise acolhia deslocados internos.

Segundo a Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), mais de dois milhões de pessoas permanecem deslocadas no Sudão do Sul depois da guerra que se encerrou falsamente, com um acordo de paz, assinado em 2018, mas não implementado em sua totalidade.

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A encarregada de relações exteriores da ACNUR no Sudão do Sul, Charlotte Hallqvist, explica ao elDiario.es que os sul-sudaneses refugiados pela guerra civil que regressam encontram “comunidades muito frágeis devido ao conflito, à mudança climática, à insegurança alimentar; comunidades que já estavam em apuros antes” da explosão de violência do outro lado da fronteira.

Destaca ainda que encontram uma situação muito difícil ao chegar e, se conseguem voltar a seus lugares de origem, uma vida muito diferente: “Estiveram no Sudão por dez anos, fizeram sua vida ali, construíram sua casa, começaram a estudar na universidade… Tinham muitas esperanças e agora voltam para um país que, ainda que seja seu país de origem, está em uma grave crise humanitária”.

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75% da população sul-sudanesa necessitava de ajuda humanitária antes da chegada dos refugiados e retornados, e faltavam recursos para dar resposta a estas necessidades, diz Hallqvist. “Não temos recursos para dar uma resposta adequada neste momento. Claro, fazemos o que podemos, mas é necessário muito mais”, lamenta, destacando que é “muito caro e complicado” oferecer assistência nas zonas fronteiriças remotas e pouco acessíveis já que “o transporte por estradas é muito difícil e o abastecimento tem que ser feito de avião”.

Esta semana, a agência da ONU, junto a outras 64 organizações humanitárias e locais, solicitou 1.000 milhões de dólares (mais de 930 milhões de euros) para poder oferecer assistência básica às pessoas que chegaram e está previsto que cheguem aos cinco países vizinhos do Sudão, que serão mais de 1,8 milhões no final do ano. Esta cifra duplica a calculada inicialmente em maio para responder à crise, já que os deslocamentos e as necessidades continuam aumentando, enquanto não se vislumbra o fim do conflito no Sudão.

Chade, à espera de mais refugiados

O vizinho Chade recebeu cerca de 465 mil refugiados, mais de 42% de todos os que fugiram do Sudão – segundo dados das agências da ONU –, mas, diferentemente do Sudão do Sul são em sua maioria sudaneses (cerca de 87%) que abandonaram a região de Darfur, um dos focos da violência, onde os civis estão sofrendo todo tipo de abusos, tal como denunciaram a ONU e organizações independentes.

Acampamento de refugiados de Ecole, na localidade chadiana de Adré. Foto cedida pelo MSF

Claire Nicolet, responsável pelos programas de emergência do MSF, conta a elDiario.es que os sudaneses que chegam ao Chade relatam a violência que experimentaram nas cidades em que viviam, em particular em Geneina, a principal de Darfur Ocidental, onde a ONU verificou em julho passado a descoberta de pelo menos uma fossa comum, assim como a violência no caminho para a fronteira.

“As histórias que ouvimos de nossos pacientes e dos refugiados são de muita violência, também violência sexual, roubos na estradal, etc.”. Por isso, muitos chegam com a roupa do corpo, depois de terem abandonado seus pertences no meio da fuga ou terem sido roubados no trajeto, ou ainda tiveram que deixá-los nos postos de controle como pagamento para seguir sua viagem, relata Nicolet.

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A responsável pelo MSF, que acaba de regressar do Chade, explica que agora mesmo não estão tratando muitos pacientes com ferimentos de bala ou outros, causados pelo conflito armado. Acredita que se deve a que não estão podendo escapar, concretamente da cidade de Nyala, onde se intensificaram os combates e ataques contra civis: “A violência continua em Darfur, mas não estamos recebendo feridos, o que significa que ninguém está tratando” estas pessoas no Sudão, onde o já frágil sistema sanitário colapsou durante a atual crise.

Nicolet prevê que “uma nova onda de refugiados chegará de Nyala, quando as condições permitirem às pessoas saírem” desta cidade e, em geral, os refugiados continuarão chegando ao Chade, onde não há acampamentos nem infraestrutura necessária para acolhê-los. “Há centenas de milhares de pessoas perto da fronteira que ainda não foram recolocadas em acampamentos de refugiados”, lamenta a representante do MSF.

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“Necessitam de um alojamento adequado (…), mas a maior necessidade é a comida: a distribuição de alimentos não é suficiente nem regular”, alerta e acrescenta: “Já estamos vendo níveis altos de desnutrição em adultos e crianças, sendo os mais afetados os que têm entre 6 meses e 2 anos; há muitos que sofrem de desnutrição aguda. Estamos tentando atender estas crianças, concretamente”.

Unidade de nutrição da clínica de campanha do MSF em um acampamento em Adré. Foto cedida pelo MSF

O MSF apoia o hospital público da localidade de Adré, onde chegou a maior parte dos refugiados. Segundo Nicolet, 85% são mulheres e menores, representando, portanto, a maioria dos pacientes: “Estamos recebendo muitos casos de pediatria e de maternidade: (casos de) desnutrição, sobretudo, também malária porque estamos na época (de chuvas); e cada vez mais mulheres grávidas”. 

Neste momento, mais de 130 crianças estão hospitalizadas em Adré por complicações médicas potencialmente mortais relacionadas à malária e à desnutrição, segundo o MSF, que também oferece assistência médica e psicológica nos acampamentos e distribui água potável.

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Nicolet mostra-se preocupada não só com a saúde dos pequenos como também com seu futuro a médio e longo prazo: “Estas crianças precisam ir à escola. Desafortunadamente não há educação nos acampamentos: em todos os que visitei não vi nenhuma escola nem nada similar, nem estão preparando” estes serviços para o começo do curso escolar.

Considera que será necessário enfrentar também esta necessidade, porque os refugiados permanecerão no Chade: “Alguns vão tentar regressar (ao Sudão) mas devido à insegurança ali não parece que vão poder voltar logo. Os homens, sim, tentaram voltar, para trazer algumas coisas (de suas casas), mas a maioria destes refugiados terão que ficar nos acampamentos”, que estão sendo montados à medida que chegam mais e mais pessoas.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Francesca Cicardi

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