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Gaza sepulta seus filhos após mais de mil dias… enquanto o mundo sepulta sua consciência

Wisam Zoghbour
Diálogos do Sul Global
Gaza

Tradução:

A tragédia em Gaza já não se mede pelo número de mártires, mas pelo número de dias que passaram à espera de serem resgatados debaixo dos escombros. Mais de mil dias se passaram; nesse período, os corpos não foram meros restos perdidos na destruição, mas testemunhas da impotência da humanidade, do silêncio do mundo e do colapso da estrutura moral que a comunidade internacional há muito diz defender.

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Reprodução: pixabay hosnysalah

Em Gaza, a morte não foi o fim do sofrimento, mas o seu início. Houve famílias às quais foi negada a chance de chorar por seus filhos quando estes tombaram; famílias incapazes de abraçá-los uma última vez e deixadas sem túmulos para visitar ou lápides com seus nomes.

Elas esperaram três anos inteiros para que os escombros finalmente revelassem os restos mortais de seus entes queridos.

Hoje, Gaza sepulta 112 mártires das famílias Abu Sharia e Al-Hasayna, cujos corpos permaneceram presos sob os escombros por mais de mil dias. O tempo não cicatrizou essas feridas; pelo contrário, testemunhou a sua persistência. Cada dia que passava sobre aqueles escombros acrescentava um novo capítulo a uma tragédia sem paralelo na história moderna.

Em Gaza… A morte já não é apenas uma coisa só

Que tipo de civilização permite que corpos de crianças, mulheres e outras vítimas permaneçam enterrados sob concreto e pedra por anos? E que tipo de direito internacional falha até mesmo em proteger a dignidade dos mortos, enquanto continua a falar em direitos humanos e dignidade humana?

Gaza foi além da busca por justiça; agora, busca apenas o mínimo de dignidade: que um mártir seja resgatado dos escombros, que seu nome seja conhecido e que ele seja sepultado em uma cova identificada, em vez de permanecer como uma mera estatística em uma lista de desaparecidos.

O crime não reside apenas na morte de 308 palestinos de duas famílias — incluindo dezenas de crianças, mulheres e pessoas com deficiência —, mas também no fato de que os sobreviventes permanecem reféns de uma espera de três anos, vasculhando os escombros em busca de um osso, um pedaço de roupa ou qualquer vestígio de seus entes queridos. É um calvário que não termina quando os bombardeios cessam; pelo contrário, tudo começa no rescaldo e persiste enquanto os escombros ocultam aqueles que estão sob eles.

O mais amargo de tudo é a crescente insensibilidade do mundo diante dessas cenas. Funerais coletivos passam por nossas telas sem provocar choque, e imagens de mães enlutadas e crianças martirizadas perdem o poder de despertar a consciência global. Assim, as vítimas são mortas duas vezes: uma pelo bombardeio e outra pelo esquecimento.

E onde está o mundo árabe? Onde estão os milhões que um dia se comoveram com a dor da Palestina? Como pode uma nação inteira assistir a um povo resgatar os corpos de seus entes queridos após mais de mil dias apenas para continuar vivendo como se nada tivesse acontecido? Quando o silêncio chega a esse ponto, deixa de ser neutralidade; torna-se cumplicidade moral na perpetuação da tragédia.

Os escombros podem conseguir ocultar corpos por anos, mas não podem enterrar a verdade. A espera por justiça pode ser longa, mas não apagará a memória das vítimas. Cada corpo resgatado hoje ergue-se como uma acusação, e cada funeral serve como um novo testemunho de uma tragédia que o tempo não pode apagar e a política não pode justificar.

Gaza se despede não apenas dos restos mortais de seus mártires, mas também de suas últimas ilusões de que este mundo ainda é capaz de defender a humanidade. Quanto à história, ela registrará que um povo esperou mais de mil dias para garantir aos seus filhos um direito simples — um direito que não exige resoluções internacionais, conferências ou declarações de condenação: o direito de ser sepultado com dignidade.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Wisam Zoghbour Jornalista, membro da Secretaria-Geral do Sindicato dos Jornalistas Palestinos e diretor da Rádio Voz da Pátria.

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