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Governo Trump transforma imigrantes e esquerda em “ameaças à sobrevivência” dos EUA

Stephen Miller e Marco Rubio apresentam imigrantes e movimentos de esquerda como inimigos internos para justificar uma agenda de perseguição, deportações e repressão política

David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Tradução: Isabelle Paiva

Nos Estados Unidos, país mais medroso do mundo, onde tudo representa um perigo, o governo Trump afirma que os imigrantes e a esquerda representam a ameaça mais grave à superpotência na atualidade.

Who Is Stephen Miller? The Trump Aide Driving Policy in the Second Term -  Bloomberg
Stephen Miller – wikimedia

Recentemente, o arquiteto das políticas anti-imigração da Casa Branca, Stephen Miller, declarou que seu país precisa expulsar todos os que chegaram “ilegalmente” desses países do Terceiro Mundo onde, segundo ele, jamais teriam inventado a roda, nem a tecnologia ou a medicina moderna, nem qualquer elemento da “grandeza” estadunidense.

Seguindo essa lógica, para começar, seria preciso ter deportado os primeiros ingleses que chegaram ao território que hoje corresponde aos Estados Unidos e, talvez, todos os seus descendentes, já que, tecnicamente, foram os primeiros “ilegais” — nunca solicitaram autorização às nações indígenas para entrar e permanecer em terras que não lhes pertenciam.

Mais ainda, se Miller revisasse um pouco a história, descobriria que entre os países que classifica como atrasados do “Terceiro Mundo” estão aqueles que forneceram os números e as letras que ele e todos utilizam: a matemática se desenvolveu em terras árabes; o alfabeto moderno surgiu entre o Egito, a Grécia e a Fenícia (parte do atual Líbano); e a roda para transporte foi inventada na Mesopotâmia, território que hoje corresponde ao Iraque.

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Entre os imigrantes que ele insulta diariamente e cuja perseguição procura justificar estão os trabalhadores essenciais que, de forma anônima, salvam seu país todos os dias com seu trabalho e suas contribuições, além de personalidades conhecidas, como os cerca de 35% dos vencedores do Prêmio Nobel nos Estados Unidos que são imigrantes.

Nesta Copa do Mundo, 25% dos 26 integrantes da seleção estadunidense nasceram em outros países — parte dos 286 jogadores do Mundial que não nasceram nos países que estavam representando, informou o La Jornada.

Que Miller, cujos antepassados foram refugiados, seja hoje o arquiteto de políticas anti-imigração que, segundo seu próprio tio, teriam impedido a entrada de seus ancestrais e levado à aniquilação de sua família, é algo sobre o qual ele nunca respondeu. Mas ele agora integra uma corrente de extrema direita no poder que possui uma longa história de perseguição e discriminação contra minorias e dissidentes.

As manifestações anti-imigração fazem parte de uma agenda de direita que também inclui políticas antiesquerdistas. Essa dupla tem uma longa história, em parte baseada na acusação de que as ideias de esquerda, consideradas “estrangeiras” e antiestadunidenses, são importadas para o país pelos imigrantes.

Na semana passada, durante a reunião ministerial internacional convocada pelo Departamento de Estado, Miller declarou aos representantes de 66 países que “tomamos a medida necessária e essencial de reconhecer formalmente a violência de esquerda como uma forma de terrorismo político que representa uma ameaça direta à nossa segurança nacional e à sobrevivência de nossa forma republicana de governo”.

O anfitrião da reunião, o secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, declarou na ocasião que “podem se chamar anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas, mas sua natureza fundamental é sempre a mesma”, resumindo-a como “um ressentimento venenoso disfarçado sob a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação” e “um ódio à própria civilização”.

Ou seja, segundo Miller, Rubio e outros integrantes deste governo, os imigrantes, juntamente com uma esquerda “violenta” transnacional, representam a ameaça mais grave ao país mais poderoso do mundo.

Com base nesse argumento, seria de se supor que, se Albert Einstein surgisse hoje, seria classificado como “inimigo” por ser não apenas um imigrante, mas também um socialista. De fato, alguns setores da direita atualmente exigem a deportação do atual prefeito de Nova York por ser imigrante e socialista democrático, e até mesmo de Bernie Sanders, filho de imigrantes — e essa lista é longa.

Talvez os que hoje estão no poder tenham razão em temer aqueles que, historicamente, transformaram e democratizaram os Estados Unidos desde seus primórdios.

Jefferson Airplane. Volunteers of America.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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