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Foto: Greg Casar / Facebook

Greg Casar: deputado dos EUA quer proteção a indocumentados e fim do imperialismo

Campanha eleitoral de Greg Casar foi bem sucedida graças ao seu trabalho com sindicatos e organizações de direitos dos trabalhadores
Jim Cason, David Brooks
La Jornada
Washington, DC

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Quando Joe Biden anunciou novas medidas para selar a fronteira dos Estados Unidos com o México, alguns deputados democratas condenaram essa política, mas o deputado federal democrata texano Greg Casar foi além do protesto e anunciou que está preparando um projeto de lei para proteger os indocumentados, ampliar as vias legais de imigração e, além disso, abordar como as políticas estadunidenses durante décadas contribuíram para a pobreza e violência na América Latina que impulsionam a migração.

“O Partido Republicano está realmente construído para reduzir impostos para seus amigos bilionários, dar reduções de impostos a doadores empresariais e tentar ocultar seus fracassos neste país transformando os imigrantes em bodes expiatórios e apontando a fronteira e os migrantes como a fonte de todos os nossos problemas”, afirmou Casar em uma conferência de imprensa junto com alguns de seus colegas do Congresso em Washington. “Em vez de implementar a ordem executiva de curto prazo, o presidente Biden deveria pôr fim às sanções na América Latina e atualizar nossas políticas de comércio e econômicas. Isso reduziria a pressão sobre nossos recursos fronteiriços limitados sem reverter às medidas severas tipo Trump-lite”.

Seu projeto de lei não será aprovado em uma câmara baixa controlada, por enquanto, pelos republicanos, mas este filho de imigrantes com documentos mexicanos que chegaram a Houston entende que a forma como se formula o debate sobre migração é a chave para alcançar mudanças necessárias a longo prazo. Em entrevista ao La Jornada, Casar comentou que “o Partido Democrata se atemorizou (diante da ofensiva antimigrante dos republicanos) e recuou por aquilo que eu considero um argumento pouco complicado: a imigração é algo bom”.

Para Casar, que fez campanha para a deputação federal como socialista democrata e agora é líder do caucus Progressista que conta com 100 integrantes (do total de 435 cadeiras), o que os democratas precisam fazer é oferecer uma alternativa, mais do que copiar os republicanos sobre esses temas migratórios que agora são um eixo central do debate eleitoral estadunidense. Na entrevista em seu pequeno escritório legislativo, que é um dos concedidos aos novatos no Congresso, ele comenta ao La Jornada que “os democratas não ganharão posando como semiantimigrantes. Se as pessoas querem uma Coca, vão buscar a real. Esperamos que eventualmente o Partido Democrata possa reconhecer que um sistema quebrado sempre será um fardo político até que seja consertado”.

Social democrata num estado conservador

Casar é de um estado percebido como bastião conservador, liderado por políticos de direita como o governador Greg Abbott e o senador Ted Cruz, ambos antimigrantes e ferozes opositores de políticos progressistas dentro e fora deste país. Casar explica que “quando penso no Texas, não penso nos Abbott ou Cruz, penso nas pessoas que subiram nos postes de luz para consertá-los durante a gigantesca tempestade de inverno que deixou tantos sem eletricidade, penso nas pessoas que entregaram cobertores às famílias que estavam congelando naquela tempestade, penso nas pessoas de Houston que deram abrigo a quase metade de Nova Orleans quando o (furacão) Katrina devastou aquela cidade, e penso em Emma Tenayuca, em San Antonio, que ajudou a construir o movimento trabalhista como mexicana-estadunidense de vinte e poucos anos”, nos anos 1930.

Antes de ser eleito, Casar trabalhou no Projeto de Defesa Trabalhista, defendendo com sucesso pausas e acesso à água para trabalhadores da construção em dias de calor. Seu trabalho com sindicatos e organizações de direitos dos trabalhadores estabeleceu a base para sua campanha eleitoral bem-sucedida para o concelho da cidade de Austin. Nesse cargo, conseguiu promover legislação que ofereceu dias pagos por doença para todos os trabalhadores, entre outras proteções básicas.

Para Casar, a razão pela qual o estado do Texas continua sendo conservador é porque os políticos que governam trabalham conjuntamente com as grandes empresas para se manterem no poder. E, acrescenta, porque o Texas tem o nível de participação eleitoral mais baixo de todos os 50 estados deste país. Ao ser questionado sobre como isso pode mudar, Casar destaca suas experiências de organização social, e em particular o ressurgimento do movimento trabalhista impulsionado por jovens mexicano-estadunidenses.

Durante um esforço recente de voluntários para entregar alimentos a pessoas idosas, Casar conta uma anedota de bater na porta de uma mulher no nordeste de San Antonio. “Um neto abre a porta, um mexicano-estadunidense de 20 anos que está cuidando de sua avó e diz: ‘na verdade, tinha pensado em te mandar uma mensagem porque vi os trabalhadores da Starbucks se organizando e eu trabalho em um armazém da Amazon e quero saber como fazer o que eles estão fazendo’”. Casar acredita que o impacto dos recentes triunfos do sindicato automotivo UAW com as três maiores montadoras do país, e os esforços de organização sindical das lojas da Starbucks, estão inspirando muitos.

“Em momentos em que tantos jovens estão preocupados sobre se têm ou não um futuro, acredito que aqui estamos vendo o que é possível. Agora, não requer que o sindicato Teamsters vá a cada armazém da Amazon. Neste momento, você tem esses jovens fazendo isso e acho que é muito promissor”. Acrescentou que “a demografia do Texas não é tão diferente da Califórnia, mas uma das grandes diferenças é que a Califórnia tem um movimento trabalhista muito maior e mais organizado”. Nesse contexto, destaca que impulsionar a mudança no Texas é fundamental se alguém deseja mudar os Estados Unidos.

O deputado texano também acredita que as mudanças que se requerem em seu estado e país têm uma dimensão internacional. Casar fez parte de uma delegação de legisladores progressistas estadunidenses que realizaram uma turnê para visitar seus colegas e líderes do Chile, Brasil e Colômbia no ano passado, e agora faz parte de conversas sobre uma possível visita a homólogos progressistas mexicanos. “A pergunta é: se nos livrarmos da Doutrina Monroe, se superarmos a ideia de que o papel dos Estados Unidos é de dominação militar ou empresarial, com o que substituímos isso? Eu penso que substituímos com solidariedade entre trabalhadores em vez de solidariedade empresarial”.

Agregou: “temos visto tantos dos nossos acordos comerciais serem sobre o que convém às elites no México e às elites nos Estados Unidos; eles negociam o acordo”. Dados os recentes avanços no México com um governo progressista, Casar diz que existem oportunidades para pensar “e se os pactos comerciais realmente fossem entre o povo trabalhador do México e o povo trabalhador dos Estados Unidos? Isso ofereceria sobreviver na maneira conjunta”.

* * *

Trump no foco das eleições

Depois de meses em que as pesquisas registravam uma vantagem de Donald Trump nas eleições presidenciais, o presidente Joe Biden avançou o suficiente para conseguir estar empatado em estados-chave e a nível nacional. Mas estas eleições continuam girando em torno de um único homem: Trump. A maioria dos eleitores entrevistados pela CBS News opinou que “a principal razão” do seu apoio a Biden não são os atributos do presidente democrata, mas sim evitar o retorno de Trump à Casa Branca. Apenas 27% indicaram que apoiam o presidente porque gostam dele. Ou seja, grande parte do voto para Biden é mais um voto anti-Trump. E isso é reconhecido implicitamente pela campanha de Biden, com grande parte de sua propaganda alertando sobre os perigos de um retorno de Trump.

Em contraste, a maioria dos eleitores pró-Trump diz que sua principal motivação é porque “gostam dele”. Os eleitores percebem Trump como mais firme, com mais energia e mais eficaz que o atual presidente. 80% dos que apoiam Trump acreditam que a condenação criminal com a qual culminou seu julgamento no mês passado foi simplesmente uma perseguição política contra ele pelo governo de Biden, e metade desses simpatizantes opina que Trump deveria “obter vingança” contra seus opositores se chegar à presidência.

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Durante os últimos cinco meses, o domínio quase total do debate político por Trump alarmou democratas e até dentro da Casa Branca. “Uma sensação generalizada de temor se instalou nos níveis mais altos do Partido Democrata sobre as perspectivas de reeleição do presidente Joe Biden, mesmo entre políticos eleitos e estrategistas”, reportou o portal Politico há algumas semanas. “Durante todo o ano, os democratas estiveram em um esforço sem alegria e exaustivo no que vai da eleição de 2024. Mas agora, a quase cinco meses da eleição, a ansiedade se transformou em uma inquietude palpável”.

A campanha de Biden insiste que apenas está começando essa contenda e que os cinco meses entre agora e a eleição em novembro são uma eternidade nas eleições presidenciais. Funcionários da campanha compartilharam como boas notícias as recentes pesquisas da CBS News e a análise do influente site “538” que mostram Trump e Biden em um empate virtual nas pesquisas nacionais.

Preservar a democracia

Mas o argumento principal de Biden e dos democratas nesta eleição é que, embora não goste do atual presidente ou ache que é muito velho ou que não está fazendo o suficiente, esta eleição é uma decisão entre preservar a democracia ou o fim do experimento estadunidense. “Como será o fascismo estadunidense“, foi a manchete da capa da revista nacional centrista New Republic ao convidar para uma análise sobre o que implicaria uma presidência de Trump.

Os eleitores invariavelmente contam aos pesquisadores que a economia e a fronteira com o México são suas maiores preocupações nesta eleição, e a ameaça à ordem democrática do país ocupa um terceiro ou quarto lugar. “Eu realmente acredito que se Donald Trump ganhar esta eleição, a democracia tal como a conhecemos morrerá”, comentou um eleitor em Michigan que se descreveu como inclinado a Biden aos pesquisadores de “538“. Ele destacou em particular o apoio de Trump aos fanáticos que invadiram o Capitólio em 6 de janeiro de 2021 para tentar interromper a certificação do triunfo de Biden pelo Congresso na eleição anterior.

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Trump tem redobrado seu apoio a esses fanáticos, afirmando em um discurso de campanha em Las Vegas no último fim de semana, que aqueles que foram julgados por delitos que incluem a morte de pelo menos cinco pessoas e outros atos violentos nesse ataque ao Congresso são “prisioneiros políticos” a quem ele concederá indulto se ganhar a eleição. Eleitores republicanos, por sua vez, também expressam preocupação pela democracia estadunidense, apontando em particular as versões falsas de que imigrantes indocumentados estão votando, entre outras formas de fraude eleitoral cometidas por democratas. Mais ainda, acreditam nas acusações de Trump de que Biden lidera um movimento de “esquerda radical” que está pondo em xeque o futuro dos Estados Unidos.

Estados pêndulos

O problema para Biden é que em pelo menos seis dos estados considerados chave – porque poderiam determinar o resultado nacional, como Pensilvânia, Michigan, Wisconsin, Geórgia, Arizona e Nevada – a democracia não é a principal preocupação. Nesses estados, a inflação e outros temas da economia, a imigração e a suposta “fronteira aberta” com o México são as prioridades entre o eleitorado, segundo o Cook Report. Para os democratas, é positivo que a repulsa às proibições de acesso ao aborto esteja entre os temas prioritários, mas mesmo entre as mulheres, segundo Cook, está abaixo das preocupações sobre a economia e a migração.

Nenhum desses analistas disse que Trump ganhará em cinco meses e, além disso, a nova ordem executiva de Biden para negar efetivamente o direito ao asilo à maioria dos migrantes indocumentados que chegam à fronteira estadunidense a menos que tenham uma entrevista agendada, goza de amplo apoio entre ambos os partidos. 0% dos eleitores dizem apoiar essa medida de Biden, segundo a pesquisa da CBS News.

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Mas, mesmo assim, quase 80% – tanto democratas, quanto republicanos – acreditam que se Biden ganhar, o alto nível de migrantes indocumentados cruzando a fronteira continuará e que de fato poderá aumentar. Em contraste, acredita-se que se Trump ganhar, esse problema será solucionado fechando a fronteira com o México.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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