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Cannabrava | A guerra de Trump avança para a diplomacia

Da pressão econômica à intimidação diplomática, a disputa com o Brasil revela uma tentativa de impor interesses políticos e desafia a soberania nacional

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A guerra desencadeada por Donald Trump contra o Brasil deixou de ser apenas econômica. Os tarifaços, utilizados como instrumento de pressão política e comercial, agora são acompanhados por uma ofensiva diplomática que eleva a tensão entre Brasília e Washington a um patamar inédito nas últimas décadas.

O centro do novo conflito é a troca de embaixadores. O governo brasileiro ainda não concedeu o agrément ao diplomata Daniel Perez, indicado por Washington, procedimento indispensável para que um embaixador possa assumir oficialmente suas funções.

250px Maria Luiza Ribeiro Viotti durante sabatina na CRE
Maria Luiza Ribeiro Viotti – wikipedia

Em resposta, a Casa Branca decidiu retaliar atingindo diretamente a representação diplomática brasileira, transformando uma questão de protocolo em instrumento de pressão política.

A medida mais contundente foi a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão não a obriga a deixar imediatamente os Estados Unidos, mas a impede de retornar ao país caso saia do território estadunidense.

Trata-se de uma forma de pressão diplomática incomum entre dois países que mantêm relações há mais de um século. Segundo o governo estadunidense, a sanção poderá ser revertida tão logo o Brasil conceda o agrément ao político indicado por Washington.

Cannabrava | Trumpaço nas tarifas e a reação do Brasil

O governo brasileiro reagiu afirmando que a justificativa apresentada pelos Estados Unidos se baseia em premissas falsas e que a escalada diplomática é motivada por razões ideológicas.

Em Brasília, também prevalece a avaliação de que a indicação de Daniel Perez, somada às medidas de pressão adotadas pela administração Trump, revela a intenção de influenciar o ambiente político brasileiro às vésperas das eleições gerais de outubro.

Independentemente dos desdobramentos imediatos, o episódio revela uma mudança preocupante na condução das relações internacionais dos Estados Unidos.

A diplomacia, tradicionalmente voltada à construção de entendimentos entre Estados soberanos, passa a ser utilizada como instrumento de intimidação política.

Durante mais de um século, Brasil e Estados Unidos construíram uma relação marcada pela cooperação. Em muitos momentos, essa cooperação foi além da cordialidade e assumiu contornos de evidente assimetria, com o Brasil frequentemente acomodando seus interesses às prioridades de Washington. Ainda assim, preservaram-se as formas diplomáticas e o respeito institucional.

Agora, a lógica parece outra. O objetivo deixa de ser o entendimento para dar lugar à imposição da vontade da maior potência sobre um parceiro que procura preservar sua autonomia.

A resposta brasileira deve ser firme, mas serena. Firme na defesa de sua soberania e de suas instituições; serena para não transformar divergências diplomáticas em crises permanentes. O Brasil não precisa romper relações com os Estados Unidos, tampouco alimentar confrontos estéreis. Precisa apenas agir como um país soberano, consciente de seus interesses e de seu papel no mundo.

Os Estados Unidos continuarão sendo um parceiro importante. Mas não são o único. O Brasil mantém relações econômicas, políticas e culturais com dezenas de países e dispõe de condições para ampliar sua presença internacional sem aceitar pressões incompatíveis com sua condição de Estado independente.

Soberania não é hostilidade. É a capacidade de decidir os próprios caminhos sem tutela externa. Nas relações entre nações, o respeito não se impõe pela força; conquista-se pelo reconhecimento mútuo da independência e da dignidade de cada povo.

É esse princípio que deve orientar o Brasil neste momento de tensão diplomática.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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