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Guerra na Ucrânia, sanções e sinais geopolíticos do encontro entre Modi e Putin em Moscou

Diante do risco de sanções secundárias dos Estados Unidos à Índia e suas empresas, não houve a tradicional solenidade de troca de declarações ao final das reuniões entre Modi e Putin sobre a guerra na Ucrânia
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Beatriz Cannabrava

“Na qualidade de seu amigo, sempre tenho dito que o futuro brilhante de nossa geração de amanhã requer, sem falta, a paz. Por isso, consideramos que a guerra não é a solução. Bombas e mísseis não são a solução. Eu creio no diálogo, e o diálogo é indispensável”, afirmou, em referência à Guerra na Ucrânia, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante as conversações oficiais no Kremlin, no último dia de sua estadia em Moscou.

Putin, por sua parte, destacou que “ontem (segunda-feira (8)) tivemos a oportunidade de falar praticamente de todos os temas em um ambiente distendido. Agradeço a atenção que presta aos problemas mais agudos, incluindo a tentativa de encontrar algumas vias para resolver também a crise ucraniana, é claro, em primeiro lugar, de forma pacífica”.

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O premier indiano agradeceu a franqueza com que o mandatário russo expôs seus argumentos na ceia privada na segunda-feira (8) à noite e celebrou que “concluímos que há que estabelecer a paz o quanto antes possível, e nós estamos dispostos a contribuir nesta tarefa”. Também disse que, ao escutar os “enfoques e reflexões positivas” de Putin, sentiu-se “otimista, apareceram esperanças de cara ao futuro”.

Guerra na Ucrânia: morte de crianças e sanções

O titular do Kremlin não fez nenhuma referência à tragédia causada pelo míssil que destruiu um dos edifícios da clínica pediátrica mais importante da Ucrânia, em Kiev. Seu porta-voz, Dmitri Peskov, limitou-se nesta terça-feira (9) a repetir a versão russa de culpa do exército ucraniano. O primeiro-ministro indiano não pôde evitá-lo: “Excelência, tomemos uma guerra, qualquer conflito ou atentado terrorista: qualquer pessoa que acredita na humanidade sente dor quando morre gente e, em especial, quando morrem crianças que não têm nenhuma culpa. Quando sentimos essa dor, arrebenta nosso coração, e ontem à noite tive a oportunidade de falar sobre isto”, assinalou.

Em alusão às críticas que Nova Délhi recebe por ajudar Moscou a eludir as sanções dos Estados Unidos e seus aliados, ao multiplicar por 20 o volume de petróleo russo que comprou no ano anterior, Modi destacou que “todo o mundo deve reconhecer que, graças à cooperação entre Índia e Rússia em matéria energética, asseguramos a estabilidade do mercado global”.

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Nada foi divulgado sobre os acordos que poderiam ter sido feitos durante a reunião à porta fechada. Diante do risco das sanções secundárias que os Estados Unidos podem impor a empresas e bancos que colaborem com a Rússia, Putin e Modi não quiseram concluir a visita com a tradicional entrevista coletiva.

Comércio bilateral e sistema de pagamentos

O hermetismo para evitar eventuais contramedidas, ainda antes de implementar possíveis soluções, suprimiu até as habituais filtrações sobre que variantes ou projetos foram propostos para resolver o problema mais delicado da relação bilateral: o mecanismo de pagamentos de uma balança comercial em completo desequilíbrio.

Antes do conflito armado na Ucrânia, segundo cifras oficiais, o comércio bilateral rondava os 10 bilhões de dólares. No ano passado, chegou a 65 bilhões, dos quais 54 bilhões correspondem a importações indianas de petróleo cru russo, enquanto as exportações de Nova Délhi a Moscou mal chegam a 4 bilhões de dólares, aumentando em apenas mil bilhões desde fevereiro de 2022.

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A maior dor de cabeça, de acordo com Mijail Krutijin e outros analistas, não é que a Índia adquira o petróleo cru russo com um grande desconto, significativamente mais baixo que o petróleo Brent de referência mundial, permitindo abastecer seu mercado interno e reexportar uma parte, mas que alguns contratos foram acordados em rúpias, que não é moeda conversível. Além disso, ao não poder usar o sistema SWIFT, é muito complicado transferir dinheiro da Índia. A Rússia não precisa comprar artigos indianos pela soma acumulada em contas bancárias em 2023, cerca de 25 bilhões de dólares, tendo que investir essas rúpias em papéis governamentais, ações de empresas e infraestruturas indianas.

Resgate e regresso

A única informação divulgada pela comitiva de Modi, através do canal de televisão indiano NDTV, é que Putin prometeu, na ceia privada, satisfazer a petição de seu convidado. A Rússia vai retirar todos os cidadãos indianos que, supostamente em troca de uma oferta de trabalho falsa, alistaram-se no exército russo para participar na operação na Ucrânia, e os repatriará para a Índia.

As autoridades indianas informaram, em maio, sobre a detenção de quatro indivíduos que formavam parte de uma rede de tráfico de pessoas, pela qual pelo menos 35 cidadãos indianos, já identificados, acabaram nos campos de batalha na Ucrânia.

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O chefe do Estado russo se esforçou por receber seu hóspede durante sua estada na capital da Rússia com gestos pouco usuais: além da ceia privada em sua residência oficial, mostrou-lhe sua cavalariça e ofereceu um espetáculo equestre com belas amazonas (o próprio Kremlin divulgou fragmentos de vídeo). Ele também acompanhou Modi na visita ao pavilhão Átomo Rosaram, na VDNJ (antiga exibição de conquistas da economia soviética, agora centro de exposições da Rússia e parque de atrações), e lhe concedeu a Ordem de Santo André, a principal condecoração desde os tempos do Império Russo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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