Um homem está de pé nas ruínas de Hiroshima após os americanos lançarem a bomba atômica sobre a cidade, em 6 de agosto de 1945. Reprodução: wikipedia - Imagem restaurada por IA

Cannabrava | Hiroshima e Nagasaki: a impunidade dos vencedores

O lançamento das bombas atômicas inaugurou a era nuclear e deixou uma pergunta que permanece sem resposta: por que um dos maiores atos de terrorismo de Estado da história continua protegido pela justiça dos vencedores?

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

No dia 6 de agosto, Hiroshima. Três dias depois, Nagasaki. Em poucos instantes, centenas de milhares de civis foram mortos ou condenados a uma lenta agonia pelas consequências da radiação. Mulheres, crianças, idosos, trabalhadores. Gente comum. Não eram soldados em combate. Eram populações civis. Ao todo, mais de 100 mil pessoas morreram.

Passados mais de oitenta anos, permanece uma pergunta incômoda: não foi esse um dos maiores atos de terrorismo de Estado da história da humanidade?

Bomba nuclear – Wikipédia, a enciclopédia livre
Bomba nuclear – Wikipédia

A justificativa oficial dos Estados Unidos foi a de que as bombas atômicas seriam necessárias para forçar a rendição do Japão e abreviar a guerra. Essa versão, entretanto, é contestada por numerosos historiadores.

O Japão encontrava-se militarmente derrotado, com sua capacidade de combate profundamente comprometida. A necessidade militar daquele ataque continua sendo objeto de intenso debate.

Outra interpretação sustenta que o verdadeiro destinatário das bombas não era apenas o Japão, mas também a União Soviética.

O lançamento das bombas representaria uma demonstração de força destinada a marcar o início da nova ordem mundial do pós-guerra, deixando claro quem detinha o mais devastador instrumento de destruição já criado.

“Erradicar armas nucleares é um trabalho de todos”, conclama sobrevivente de Hiroshima

A ironia da História é que a União Soviética, embora tenha desenvolvido armas nucleares posteriormente, jamais as utilizou em combate.

Foi a nação que suportou o maior peso da guerra contra o nazismo, perdeu milhões de vidas, expulsou o exército alemão de seu território e avançou até Berlim. Ainda assim, nunca lançou uma bomba atômica contra outro povo.

Independentemente das interpretações estratégicas, um fato permanece incontestável: a decisão de lançar bombas atômicas sobre cidades densamente povoadas significou a morte deliberada de centenas de milhares de civis.

O sofrimento não terminou com as explosões. Durante décadas, milhares de pessoas continuaram morrendo ou convivendo com doenças provocadas pela radiação. As vítimas das bombas não foram apenas as que morreram naquele agosto de 1945, mas também gerações marcadas pelos efeitos da contaminação nuclear.

250px TRUMAN 58 766 06 %28cropped%29.jpg?utm source=pt.wikipedia
Harry S. Truman – wikipedia

Hiroshima e Nagasaki continuam sendo um alerta permanente sobre os limites da guerra e os perigos de justificar qualquer ação em nome da vitória militar. A memória dessas vítimas exige mais do que cerimônias anuais. Exige que a humanidade reconheça que nenhuma razão de Estado pode legitimar o extermínio indiscriminado de populações civis.

Os julgamentos de Nuremberg estabeleceram um princípio que marcou a história do direito internacional: governantes e chefes militares podem ser responsabilizados pessoalmente por crimes contra a humanidade e crimes de guerra. No entanto, esse princípio foi aplicado aos vencidos, jamais aos vencedores. A universalidade da justiça cedeu lugar à justiça dos vencedores.

Se esse princípio tivesse sido aplicado com o mesmo rigor a todos os lados do conflito, Harry S. Truman deveria ser responsabilizado, ainda que apenas no julgamento da História. Sua morte não extingue a responsabilidade moral por uma decisão que abriu as portas para a era do terror nuclear.

O lançamento das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki constituiu, a meu ver, um dos maiores atos de terrorismo de Estado da história. Seu principal responsável jamais foi julgado, nem mesmo simbolicamente condenado. A impunidade de Truman revela uma verdade incômoda: a justiça internacional costuma ser severa com os derrotados, mas complacente com os vencedores.

Enquanto essa lógica prevalecer, Hiroshima e Nagasaki continuarão a denunciar não apenas a barbárie da guerra, mas também a seletividade da memória e da justiça. Sem uma condenação moral inequívoca daquele crime contra a humanidade, o mundo continuará convivendo com a perigosa ilusão de que a força pode substituir o direito e de que os vencedores estão acima da própria História.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

LEIA tAMBÉM

Trump
Primeiro, as bombas. Depois, hotéis de luxo: Conselho da Paz, o plano de Trump para lucrar com as ruínas de Gaza
Arábia Saudita
Arábia Saudita, Turquia e Paquistão montam novo eixo de defesa e desafiam tutela dos EUA
Ebola
Ebola mata quase 2 mil na RDC no surto de propagação mais rápida já registrado no mundo
Chávez
Chávez expulsou Israel por massacrar Gaza. Agora governo Delcy abre caminho para retomar relações