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“Magyar fez campanha com a promessa de desmantelar o regime de Orbán e reorientar a Hungria para o Ocidente, embora sem dizer ‘sim’ a tudo na União Europeia", diz o cientista político Carsten Schneider. (Foto: Reprodução / Facebook)

Quem é Péter Magyar, novo premiê da Hungria que sinaliza pragmatismo com Rússia e Ucrânia

Magyar rompeu com Orbán há poucos anos e tornou-se seu principal oponente; assim, construiu uma narrativa heroica, do protagonista que se cansa de seus senhores autoritários, promete vingança e rompe o sistema por dentro

Javier Biosca Azcoiti
elDiario.es
Budapeste

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

No último domingo (12), a Hungria elegeu como primeiro-ministro Péter Magyar, dando fim ao governo de Viktor Orbán após 16 anos no poder. Nascido em 1981 no seio de uma família de classe média alta, Magyar estudou Direito e cresceu nos últimos anos do governo comunista, o que o levou desde muito cedo a observar Orbán e aquele círculo de democratas liberais que desafiavam os soviéticos. “Ele faz parte desse grupo destinado a apoiar o Fidesz [União Cívica Húngara, o maior partido húngaro]. Era o instrumento da mudança, os que se opunham aos socialistas. Eram pró-europeus e queriam transformar o país”, diz ao elDiario.es Bálint Ruff, um reconhecido estrategista e analista político húngaro.

Magyar, nacionalista e conservador, construiu sua carreira dentro do Fidesz e do regime de Orbán, com quem só rompeu em 2024 para lançar seu próprio partido, o Tisza. “Ele pertence a essa classe média cristã que se vê como a elite intelectual do país”, afirma Ruff. Em seu discurso de vitória, Magyar fez referência à Bíblia: “Seguindo a sabedoria da Bíblia, não tenham medo. Podemos conseguir.”

O líder do Tisza ingressou no Fidesz em 2002 e, em 2006, casou-se com Judit Varga, também política conservadora que viria a se tornar uma destacada ministra de Orbán. Juntos passaram vários anos em Bruxelas, onde Magyar ocupou diferentes cargos diplomáticos representando a Hungria e posições de alto escalão no Ministério das Relações Exteriores, quando Orbán já confrontava diretamente a União Europeia com uma política de extrema-direita. Ela trabalhava para um importante eurodeputado do Fidesz.

Ambos retornaram à Hungria em 2018 e, um ano depois, Varga tornou-se ministra da Justiça. Já Magyar manteve um perfil discreto, mas ocupou cargos relevantes em diversas instituições e agências públicas de segundo escalão. Em 2023, Varga deixou o cargo e fez campanha para se tornar eurodeputada. Um escândalo em 2024 mudou tudo, quando veio à tona que a presidente Katalin Novák concedeu indulto a um cúmplice condenado em um caso de abuso sexual infantil. Novák e Varga — que apoiou o indulto — renunciaram.

No dia seguinte à renúncia de Varga, Magyar concedeu uma longa entrevista a um popular canal opositor no YouTube e rompeu publicamente com o Fidesz, acusando o governo de Orbán de corrupção sistêmica. O casal havia se divorciado em 2023, e Varga acusou o ex-marido de traição quando ele publicou conversas privadas nas quais ela se queixava da interferência política no Judiciário. Varga também denunciou episódios de violência de gênero, o que ele nega.

A entrevista em que Péter Magyar anunciou sua ruptura com o Fidesz, concedida em fevereiro de 2024, acumulou mais de 2,7 milhões de visualizações — um número extraordinário em um país com cerca de 10 milhões de habitantes. Desde então, ele organizou uma série de protestos contra o regime e rapidamente anunciou sua candidatura às eleições europeias pelo partido Tisza, até então desconhecido. Em apenas três meses, obteve 30% dos votos — uma ascensão meteórica — e integrou-se ao Partido Popular Europeu. Desde então, passou a concentrar todos os esforços em derrotar Orbán em 2026.

4 anos de guerra na Ucrânia: da promessa de vitória rápida ao risco de confronto geral na Europa

“Por que ele só rompe em 2024 e decide se candidatar é a pergunta de um milhão de dólares. Uma possível resposta é ideológica. Outra tem a ver com seu casamento. Publicamente, ele diz que sempre criticou o que não gostava, mas que chegou um momento em que se cansou”, afirma Ruff.

O estrategista político acredita que um dos fatores de seu sucesso é justamente o fato de muitos húngaros enquadrarem sua trajetória como uma dessas histórias em que o protagonista se cansa de seus senhores autoritários, promete vingança e rompe o sistema por dentro. “Lembra Lúdas Matyi, um conto popular húngaro”.

“Magyar fazia parte do regime do Fidesz e ganhou alguma credibilidade quando começou a mudar de lado e revelar coisas que as pessoas já sabiam, mas que nunca haviam sido ditas de forma tão clara”, diz Carsten Schneider, cientista político e reitor da Central European University, perseguida e fechada por Orbán em 2017.

O que Magyar propõe

“Haverá enormes diferenças em relação a Orbán. É impensável que haja continuidade. Ele é um político de esquerda que ampliará o Estado de bem-estar além do imaginável? Não. Em parte porque não há recursos. A situação da economia é catastrófica, e isso também foi um dos fatores de seu sucesso eleitoral”, afirma Schneider.

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“Magyar fez campanha com a promessa de desmantelar o regime de Orbán e reorientar a Hungria para o Ocidente, embora sem dizer ‘sim’ a tudo na União Europeia, mas também sem bloquear ou vetar muitas decisões”, acrescenta.

Magyar evitou qualquer contato com a imprensa internacional e concentrou-se em questões internas. Embora tenha classificado a Rússia como agressora na guerra da Ucrânia — ao contrário de Orbán —, o próximo primeiro-ministro se opõe a uma rápida entrada da Ucrânia na União Europeia e rejeita o envio de armas. Ainda assim, Orbán tentou retratá-lo como uma marionete de Volodímir Zelenski, presidente ucraniano.

Por sua vez, Magyar defende uma relação “pragmática” com a Rússia. “Pragmatismo significa que não temos nada a dizer sobre os assuntos internos da Rússia, e eles também não têm nada a dizer sobre os nossos”, declarou. “Somos países soberanos e nos respeitamos mutuamente, mas não precisamos gostar uns dos outros. Isso não significa que devemos parar de usar petróleo russo de um dia para o outro. Significa que devemos fazer bom uso dos recursos da União Europeia.”

O partido Tisza rejeitou, no Parlamento Europeu, propostas de maior integração, assim como a política migratória. No entanto, em seu discurso de vitória neste domingo (12), Magyar afirmou que “a Hungria voltará a ser um país europeu”. Enquanto isso, seus apoiadores gritavam: “Russos, para casa.”


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Javier Biosca Azcoiti Mestrado em Diplomacia e Relações Internacionais, com especialização em geoestratégia e segurança internacional. Trabalhou anteriormente no 20minutos, na Europa Press, na Casa Turca e na Embaixada da Espanha nos Estados Unidos (Washington, D.C.).

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