A violência contra as mulheres começa muito antes da agressão física. Ela nasce na linguagem da juventude, nas piadas, nas humilhações e na desumanização. Reportagem e artigo publicados recentemente mostram uma realidade alarmante: em colégios considerados de excelência, adolescentes classificam meninas de 14 e 15 anos em categorias de conotação sexual.
Algumas chegam a ser chamadas de “estupráveis”. Não se trata de uma brincadeira de mau gosto. É a banalização da violência sexual, a naturalização da cultura do estupro e uma forma de incitação que a sociedade não pode tolerar.

O problema é agravado pelo ambiente digital. O cyberbullying é crime previsto no Código Penal, e a legislação brasileira também estabelece punições para a disseminação de ódio contra mulheres na internet.
A lei define misoginia como a prática, a indução ou a incitação à violência, à discriminação, à restrição do pleno exercício de direitos ou a qualquer conduta que ofenda a dignidade da mulher em razão de sua condição. Ainda assim, a violência continua se espalhando pelas redes sociais em velocidade assustadora.
Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, entre 2022 e 2025 foram registrados cerca de 22,8 mil casos de estupro coletivo no Brasil, média superior a 15 ocorrências por dia.
No mesmo período, foram contabilizados 98,4 mil casos de violência sexual contra mulheres adultas e 14,4 mil contra meninas, crianças e adolescentes. Os números revelam uma tragédia cotidiana que exige resposta firme do Estado, da escola, das famílias e de toda a sociedade.
Em artigo intitulado Algoritmos, adolescentes e misoginia, publicado em 19 de julho no Estado de S. Paulo, Luciana Temer chama atenção para outro aspecto igualmente preocupante.
Meninas e mulheres são frequentemente retratadas como meros objetos de consumo e prazer masculino, algo que deveria ser inaceitável por si só. Mas as plataformas digitais agravam esse quadro.

Os algoritmos funcionam como uma espiral: um vídeo leva a outro, um conteúdo semelhante sucede o anterior, e o jovem acaba exposto repetidamente às mesmas mensagens. Ideias que inicialmente parecem estranhas, radicais ou inaceitáveis vão sendo normalizadas pela repetição, criando um ambiente favorável à radicalização e à naturalização da violência.
Cannabrava | Juventude sob violência: um retrato alarmante do abuso sexual no Brasil
Mas há um segundo dado que merece igual preocupação. Levantamento do cientista político Murilo Medeiros, também publicado no Estado de S. Paulo em 19 de julho, mostra que os partidos políticos perderam quase 1,5 milhão de filiados entre jovens de 16 a 34 anos entre 2010 e 2026, redução equivalente a 54% desse universo. É um indicador eloquente do crescente afastamento da juventude da vida política organizada.
Esse desinteresse é extremamente grave. A juventude representa o futuro do país, e uma democracia não se fortalece quando suas novas gerações abandonam a participação política.
Os próprios partidos precisam fazer uma profunda autocrítica. Em sua maioria, deixaram de representar projetos coletivos de transformação nacional para se converter em instrumentos eleitorais voltados apenas à disputa por cargos e recursos públicos.
O Brasil precisa de uma reforma política que fortaleça partidos comprometidos com programas claros e com um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento.
Não faz sentido manter uma infinidade de legendas sem identidade, verdadeiros “partidos-ônibus”, que aparecem apenas nas vésperas das eleições para negociar tempo de televisão, recursos do fundo eleitoral e alianças circunstanciais.
Combater a misoginia, proteger a juventude da radicalização promovida pelos algoritmos e reconstruir a participação política são desafios inseparáveis. Sem uma juventude crítica, consciente e comprometida com o interesse público, dificilmente construiremos um Brasil mais justo, democrático e soberano.





