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Foto: Matthias Berg / Flickr

Leste da Alemanha votou na ultradireita por revolta contra desigualdade, afirma especialista

Segundo Franco Delle Donne, doutor em Comunicação pela Freie Universität de Berlim, promessa de igualdade pós-queda do Muro de Berlim não foi cumprida pela Alemanha ocidental
Paula Sabatés
Página 12
Buenos Aires

Tradução:

Ana Corbisier

Os resultados das eleições europeias acuaram o governo alemão, cujos partidos-membros ficaram atrás das opções de direita e ultradireita. Nas últimas horas, o chanceler Olaf Scholz afirmou que “o resultado foi mau para os três partidos do governo” e que é importante que a coalizão governante “garanta que o país se modernize e progrida” e que se prepare para poder “obter a confiança dos cidadãos às vésperas das próximas eleições federais”. Além de seu partido – o Partido Socialdemocrata da Alemanha (SPD), que teve a pior eleição de sua história em eleições europeias –, seus sócios dos Verdes e do Partido Democrático Livre (FDP) também pioraram suas performances.

Recuperar a confiança parece difícil. Depois de conhecidos os resultados definitivos, uma imagem circulou mais do que nenhuma outra no país germânico. Mostra de novo duas Alemanhas, como antes da reunificação do começo dos anos 90, mas desta vez divididas pelos votos majoritários na direita (a União Democrata Cristã, CDU, que ficou com o Oeste) e a ultradireita (Alternativa para Alemanha, AfD, que triunfou forte no ex-território oriental). Só umas poucas cidades – as grandes – estão pintadas de verde. Uma imagem que convida à reflexão dos perdedores, mas também de toda a sociedade, a quase 35 anos da queda do muro de Berlim.

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“O que aconteceu no Leste se explica porque muitas pessoas ali se consideram cidadãs de segunda classe em relação aos do Oeste. A promessa de igualdade de possibilidades com a Alemanha ocidental não se cumpriu e isso se expressa, como sintoma ou como consequência, em um apoio à visão nacionalista da AfD. É uma reação muito forte contra as elites e, também de nativismo, de recuperar a dignidade alemã”, analisa em diálogo com a PáginaI12 Franco Delle Donne, doutor em Comunicação pela Freie Universität de Berlim, especializado em política alemã e ultradireita.

Confira a entrevista:

Paula Sabatés | Em que sentido não foi cumprida essa promessa da reunificação?

Franco Delle Donne | Dou exemplos. Se você trabalha tanto quanto alguém do Oeste, mas no Leste, você recebe 17% menos. Depois, salvo algumas exceções, não há empresas relevantes no que foi a parte oriental. Além disso, todas as elites políticas, mas também em relação a posições de mando, por exemplo, em universidades, em hospitais, estão pessoas do oeste. Então, há uma desigualdade muito profunda ainda. Antes, isso se expressava eleitoralmente a favor da esquerda, do partido Die Linke, um partido pós-comunista, que por uma questão de herança e de idiossincrasia tinha êxito no Leste. Agora Die Linke está desaparecendo e neste território ganha o partido que ideologicamente é o oposto, mas que tem uma visão ultranacionalista.

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Se se desagregam os dados por atividade, a AfD também ganhou entre os operários…

Para mim isso se explica em boa parte pela sensação de sentirem-se indignos, de não serem respeitados, de não serem ouvidos. Aparece o discurso antissistema, anti-classe política, que é vista como elite e como inimiga do povo. Estes operários, que têm uma posição menos acomodada que outros, rejeitam os políticos que tomam decisões e não os consultam. Por exemplo, com o tema Rússia, que é um elemento superforte aqui, porque a guerra gera uma inflação como não houve há muito tempo na Alemanha e isso impacta os bolsos dos que menos têm. Antes essa gente ficava em casa e não votava. Hoje votam na AfD porque sentem que os representa. Ainda que nem todos concordem ideologicamente, porque muitos efetivamente não concordam. Por isso me custa afirmar que houve uma guinada à direita na ideologia na população.

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Você acha que não houve?

Não considero que 100% daqueles que votaram na AfD sejam filo-nazistas e, em geral, quando se chega a tais conclusões, termina-se errando o diagnóstico e termina-se gerando mais frustração em quem sente que não o escutam. Além disso, dizia-se que a AfD ia arrasar e acabou abaixo de seu ponto culminante, em janeiro deste ano, quando obtiveram 24 pontos. Se se quiser ver em termos mais amplos, de toda a Europa e não só a Alemanha, aconteceu a mesma coisa. O grande medo era que os ultradireitistas iam dominar tudo e isso não aconteceu. Os números dos partidos de centro mais pró europeístas são bastante parecidos em termos de média de lugares, embora haja mudado em alguns países. Não digo que seja um resultado para alegrar-se, mas tampouco creio que tenha sido uma catástrofe. O que é inegável é que há coisas que vão começar a mudar, mas isso já se via que ia acontecer, por exemplo, com o novo pacto migratório, que tem um verniz ultradireitista.

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A CDU já disse ao governo de Scholz que tem que convocar eleições. Acredita que ele vai fazer isso?

Não, isso na Alemanha não costuma acontecer regularmente. É raro que o partido mais importante do país, como é a CDU, que indicou todos os chanceleres com exceção de uns poucos, convoque algo assim como uma mudança forçada de governo. Não sei que tipo de governo eles pensam que poderiam armar; parece-me que teriam os mesmos problemas que o governo atual, vendo os resultados. Creio que teve mais a ver com uma mensagem política, como apoderar-se da vitória, mas insinuá-lo já é um grande passo. Não é algo comum na Alemanha.

Protesto em Berlim em 25 de fevereiro de 2023 pede por desarmamento, cessar-fogo e paz. Na placa, lê-se: “Não temos medo de Putin, temos medo de vocês” (Foto: Matthias Berg / Flickr)

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Alguma pérola da eleição? 

Os 6% que obteve Sahra Wagenknecht, ex-Die Linke que saiu do partido e fundou o seu próprio para debutar nestas eleições. Chama a atenção, ainda que diferentemente do que aconteceu com a AfD; tenho minhas dúvidas de que vá se manter no tempo. Vejo como difícil na Alemanha se desenvolver uma liderança carismática desse estilo; não é um país para que isso aconteça. De fato, há uma cultura política que rejeita isso, ao contrário do que pode acontecer na Argentina ou na América Latina. E há uma razão lógica, que é o que aconteceu na última vez que houve uma liderança carismática na Alemanha. Por isso chama a atenção e é para se olhar

Em setembro há eleições em três regiões do Leste da Alemanha e a AfD está muito bem nas pesquisas. Acha que o resultado de domingo pode se repetir nessas eleições e até mesmo nas federais do próximo ano?

Acho que sim, mostram o que muito provavelmente vai acontecer no Leste no fim do ano. Todas as pesquisas indicam que a AfD vai obter mais de 25 ou 30%, apesar de todos os escândalos que vêm tendo. A nível federal é outra história, não iria tão longe, deixaria por aí e depois mais à frente veria o que acontece.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paula Sabatés Jornalista de Página/12.

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