Foto: Vanessa Martina-Silva

Lindbergh: Flávio Bolsonaro não se candidata a presidente do Brasil, mas a gestor de colônia dos EUA

Articulações de Flávio com autoridades estadunidenses reacendem debate sobre soberania, ingerência externa e ofensiva de Trump sobre a América Latina

Vanessa Martina-Silva
Diálogos do Sul Global
Paraty (RJ)

Tradução:

“Diante do projeto de recolonização de Donald Trump, Flávio Bolsonaro parece estar se candidatando a ser o gestor de uma colônia, não o presidente de um país soberano, grande como o Brasil. Ele tem assumido uma posição de submissão aos Estados Unidos e de entrega das nossas riquezas.”

File:Dep. Lindbergh Farias.jpg - Wikimedia Commons
Lindbergh Farias – Wikimedia

Dessa forma, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) definiu, em declaração exclusiva à Diálogos do Sul Global (DSG), a postura do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) diante de suas articulações políticas com autoridades estadunidenses, marcadas por sinais de submissão aos interesses de Washington.

Lindbergh esteve em Paraty, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (1º), para uma conversa com a militância regional do Partido dos Trabalhadores (PT) sobre os desafios do Brasil e da cidade diante das eleições que o país realizará em outubro.

Articulações em Washington

Flávio Bolsonaro tem ampliado suas articulações em Washington. Em maio, o senador se encontrou, na capital estadunidense, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o vice-presidente, JD Vance, e com o secretário de Estado, Marco Rubio.

De acordo com declarações de Flávio à agência Reuters, as conversas incluíram discussões sobre combate ao crime organizado, terras raras e liberdade de expressão.

Já no início de junho, Flávio enviou uma carta a Rubio agradecendo “a decisão de designar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas” e pedindo aos EUA que não imponham novas tarifas ao Brasil, por temer que isso poderá fortalecer a reeleição do presidente Lula.

Chama a atenção como Flávio coloca o Brasil à disposição dos Estados Unidos no texto:

“Como já afirmei, estou confiante de que serei eleito presidente do Brasil neste mês de outubro. Caso essa seja a vontade do meu povo, estou preparado para colocar imediatamente minha equipe de transição à sua disposição, para que possamos concluir, o quanto antes, um amplo acordo de comércio e investimentos benéfico para ambas as nossas nações — construído sobre o livre mercado, o respeito mútuo e a aliança estratégica que nossos dois povos merecem.”

Rubio respondeu à missiva agradecendo por Flávio ter colocado sua “equipe de transição” à disposição dos Estados Unidos e elogiando seu “apoio” à decisão do governo Trump de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

Para o governo brasileiro, a classificação de organizações armadas como terroristas representa ingerência externa e ameaça iminente à soberania interna do país, que passa a ser alvo potencial de sanções e eventuais bloqueios.

Lindbergh acrescenta também que essas articulações ganham contornos ainda mais graves porque ocorrem justamente quando Trump redefine a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos e ressuscita, em chave ainda mais agressiva, a velha Doutrina Monroe. Sob essa nova “Doutrina Donroe”, “Washington volta a tratar a América Latina como seu quintal”, diz o deputado.

Soberania não se negocia: carta de Flávio Bolsonaro rompe limite da independência nacional

A troca de correspondências entre Flávio e Rubio motivou o PT a abrir uma representação criminal contra Flávio Bolsonaro na última terça-feira (30). 

No documento enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR), os autores pedem que o Ministério Público Federal (MPF) apure se as articulações de Flávio Bolsonaro configuram corrupção passiva, crimes contra a soberania nacional e violação de sigilo funcional.

A movimentação ganha peso porque ocorre no mesmo contexto em que o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, por coação no curso do processo. Em 16 de junho, a Primeira Turma decidiu, por unanimidade, que Eduardo atuou dos Estados Unidos para incentivar sanções contra autoridades brasileiras e produzir um ambiente de pressão externa sobre a Corte.

“Nunca na história do Brasil Nunca na história do Brasil – nem com os integralistas, que eram a extrema-direita da época – houve um grupo político tão capacho e submisso aos interesses estadunidenses como a família Bolsonaro”, ressaltou o líder petista.

Intervenção nas eleições

Diante da denúncia realizada pelo presidente colombiano Gustavo Petro de uma suposta intervenção dos Estados Unidos no processo eleitoral da Colômbia, Lindbergh disse não acreditar que algo semelhante possa ocorrer no Brasil.

O político petista alertou, porém, que poderá haver “influência das Big Techs” no processo eleitoral. Defensor da regulação das plataformas, ele considera que “eles já começaram a fazer espécie de censura” contra a esquerda no Brasil.

Disputa no Rio de Janeiro

Além da dimensão nacional e geopolítica, Lindbergh também avaliou os impactos da conjuntura no Rio de Janeiro, tradicional reduto eleitoral da família Bolsonaro.

Para ele, o quadro político melhorou para o campo progressista. A saída do grupo de Cláudio Castro teria enfraquecido a direita no estado, enquanto Lula “se recuperou bem” entre o eleitorado fluminense.

“Eles perderam força. Não têm nenhum candidato ao Senado estruturado”, afirmou.

Para Lindbergh, o terreno no Rio está favorável para uma aliança ampla com Eduardo Paes, o que, em sua avaliação, pode beneficiar tanto a campanha de Lula quanto a disputa do PT ao Senado.

Com informações do R7


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Vanessa Martina-Silva Trabalha há mais de dez anos com produção diária de conteúdo, sendo sete para portais na internet e um em comunicação corporativa, além de frilas para revistas. Vem construindo carreira em veículos independentes, por acreditar na função social do jornalismo e no seu papel transformador, em contraposição à notícia-mercadoria. Fez coberturas internacionais, incluindo: Primárias na Argentina (2011), pós-golpe no Paraguai (2012), Eleições na Venezuela (com Hugo Chávez (2012) e Nicolás Maduro (2013)); implementação da Lei de Meios na Argentina (2012); eleições argentinas no primeiro e segundo turnos (2015).

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