Conteúdo da página
ToggleDefensores do Estado de Israel nos Estados Unidos organizaram, durante décadas, a entidade de lobby de política externa mais poderosa da história norte-americana, mas que hoje enfrenta desafios sem precedentes à sua influência, segundo uma ampla investigação publicada em agosto.
Esse lobby israelense é liderado pelo American Israeli Public Affairs Committee (AIPAC), que investe centenas de milhões de dólares nos processos eleitorais norte-americanos, impondo controle sobre a forma como é elaborada a política em relação a Israel, e que atualmente continua financiando campanhas para conter qualquer desafio a esse objetivo.

Em Michigan, o AIPAC gastou mais de 30 milhões de dólares para derrotar um médico progressista e profissional de saúde pública apoiado por Bernie Sanders e outros progressistas como candidato ao Senado, porque Abdul El-Sayed declarou que Israel está cometendo genocídio em Gaza.
ONU: Israel matou 20 mil crianças em Gaza; menores presos sofreram tortura e violência sexual
El-Sayed conta com amplo apoio entre a comunidade árabe-americana em seu estado, mas também recebeu o endosso de grupos judaicos progressistas como Vozes Judaicas pela Paz e Nunca Mais, além de um grupo chamado Judeus por Abdul, bem como amplo apoio estudantil.
Às vésperas da eleição primária de 4 de agosto, as pesquisas indicam que El-Sayed está na frente, e essa disputa tornou-se mais um teste para verificar se dezenas de milhões de dólares do lobby israelense podem comprar a eleição para seu adversário, um democrata que se recusa a classificar a guerra contra os palestinos como genocídio.
O exemplo de Michigan é apenas a demonstração mais recente do poder do que Eli Clifton e Ian Lustick, autores de Israel’s Lobby, chamam de lobby de Israel nos Estados Unidos. Promotores de um Estado judeu no Oriente Médio atuam nesse país desde antes da fundação de Israel. De fato, os autores lembram que foi o presidente Harry Truman quem, contrariando a opinião de seus próprios assessores de política externa, decidiu ser o primeiro chefe de Estado a reconhecer Israel, em 1948.
Em seu amplo e profundamente pesquisado livro, os autores descrevem como os presidentes Gerald Ford (republicano) e Jimmy Carter (democrata) buscaram reconhecer os direitos plenos do povo palestino na década de 1970, mas suas tentativas foram frustradas pelo AIPAC e outros grupos.
“A invasão norte-americana do Iraque, em 2003, deu outra oportunidade ao lobby de Israel”, escrevem os autores, que reconstituem a já conhecida história de como um grupo de neoconservadores norte-americanos alinhados a Israel promovia uma invasão do Iraque muito antes de os atentados de 11 de setembro de 2001 lhes servirem de pretexto.
O luto sob o cárcere em Israel: a perda de Thiago Ávila e o abandono da diplomacia
Eles relatam como o acordo com o Irã firmado pelo presidente Barack Obama foi uma das derrotas mais significativas do lobby israelense, que investiu pesadamente na primeira eleição de Donald Trump, o qual, ao chegar à Casa Branca, rapidamente anulou esse acordo.
Vale destacar que esse lobby sempre foi bipartidário. O presidente Joe Biden definiu-se como “sionista” e recusou-se a considerar sugestões de seus assessores para pressionar Israel durante o início de sua guerra contra os palestinos em Gaza e, mesmo quando a contagem do genocídio já alcançava dezenas de milhares de mortos, cerca de 70% das armas de Israel — incluindo praticamente todos os seus mísseis, aeronaves e bombas — provinham dos Estados Unidos.
Grande parte do novo livro dedica-se a investigar como esse lobby mudou nos últimos 20 anos, com o surgimento de um governo ainda mais direitista em Israel. Os autores lembram que, nos primeiros anos, os líderes israelenses falaram repetidamente em garantir os direitos dos palestinos, mas esse jamais foi um objetivo do sionismo de direita e, em 2018, o Parlamento israelense já nem aceitava um debate sobre Israel como “um Estado para todos os seus cidadãos”. O árabe deixou de ser idioma oficial no país, e essa legislatura declarou formalmente que apenas os judeus tinham direito à autodeterminação em sua “pátria histórica”.
Essa guinada à direita provocou fissuras cada vez maiores entre diversos setores nos Estados Unidos, incluindo simpatizantes que repetiam incessantemente que Israel “é a única democracia do Oriente Médio”. Para o lobby israelense, o enfraquecimento do apoio incondicional nos Estados Unidos foi enfrentado, inicialmente, arrecadando mais recursos para utilizar no sistema político.
Em 2000, o AIPAC e suas organizações afiliadas arrecadavam aproximadamente 22 milhões de dólares por ano para seus esforços. Em 2023, arrecadaram quase 120 milhões de dólares e possuíam ativos superiores a 350 milhões. E vale lembrar que o lobby israelense nos Estados Unidos é muito mais amplo do que apenas o AIPAC, incluindo uma rede de organizações, filantropias, comitês de ação política e fundações, todos os quais investem ou distribuem recursos com o mesmo objetivo de defender e promover o Estado de Israel e seu atual governo de direita.
Mas mais dinheiro, por si só, não é suficiente. No início dos anos 2000, muitos dos defensores do Estado de Israel deixaram de justificar um regime cada vez mais de extrema direita e adotaram uma estratégia de “demonizar os demonizadores”, retratando todo crítico de Israel como antissemita.
Entre 2004 e 2013, denúncias formais de antissemitismo foram apresentadas contra universidades como Barnard (integrante da Universidade Columbia), Rutgers e a Universidade da Califórnia, entre outras, como parte dessa estratégia; algo que o governo de Donald Trump continuou utilizando com essa mesma retórica.
Os autores do novo livro, ambos judeus norte-americanos, deixam claro que o antissemitismo é real e está crescendo nos Estados Unidos, mas argumentam que o esforço para equiparar antissionismo a antissemitismo é uma ferramenta empregada para neutralizar qualquer crítica a Israel. De fato, Noam Chomsky já lembrou que o governo de Israel desenvolveu justamente essa estratégia de classificar toda crítica a seus governantes como “antissemitismo” desde a década de 1970.
A campanha internacional pacífica de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel, lançada pelos palestinos e seus aliados, representou um perigo para os sionistas nos Estados Unidos. No início, a estratégia de classificar essa campanha como “antissemita” funcionou, e cerca de 35 estados norte-americanos aprovaram resoluções que, de alguma forma, afirmam que o antissionismo é uma forma de antissemitismo.
Mas, mais recentemente, há cada vez mais evidências de que essa estratégia não está funcionando. A hipocrisia de classificar qualquer crítica a Israel como manifestação antissemita, combinada com a indignação diante das imagens cotidianas do genocídio em Gaza e das declarações extremistas do governo de Tel Aviv, está transformando a opinião pública nos Estados Unidos sobre o Estado de Israel, inclusive entre setores da comunidade judaica norte-americana, de uma forma que não pode mais ser contida com dinheiro.





