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Netanyahu tenta, urgentemente, conter o desgaste do apoio a Israel nos Estados Unidos (Foto: Pamela Drew / Flickr)

Mesmo entre judeus, cresce repúdio a Netanyahu nos EUA; evangélicos mantêm apoio

Um recente levantamento do Pew Research Center identificou que mais da metade dos EUA tem visão negativa sobre Israel e que a maioria dos judeus no país não confia em Netanyahu; confira os dados

David Brooks, Jim Cason
Diálogos do Sul Global
Washington

Tradução:

Tradução: Beatriz Cannabrava

Em 7 de julho último, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, se encontrou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington. Durante a visita, o governo do republicano reiterou enfaticamente seu apoio incondicional ao Estado sionista. Porém, ante o público estadunidense, Netanyahu enfrenta uma queda no apoio a Tel Aviv, além de incessantes acusações de genocídio contra os palestinos.

Todas as ruas ao redor da Casa Branca foram fechadas com caminhões para o convidado, que se instalou na residência oficial de hóspedes Blair House, em frente à Casa Branca. Trump jantou algumas vezes com Netanyahu, que também visitou o Pentágono e o Departamento de Estado, além de ter uma série de reuniões com lideranças legislativas de ambos os partidos.

Mas nem todos lhe deram as boas-vindas. Vários legisladores denunciaram a reunião. “Esta é a terceira visita de Netanyahu a Washington este ano. Criminosos de guerra não deveriam ser bem-vindos por nenhum presidente ou Congresso. Ele deveria prestar contas por seus crimes, e não receber palcos. É mais do que vergonhoso”, escreveu a legisladora Ilhan Omar nas redes sociais.

O senador independente Bernie Sanders declarou: “Lembremos que Netanyahu foi acusado de ser um criminoso de guerra pelo Tribunal Penal Internacional… Trump, assim como Biden antes dele, apoiou e patrocinou esse governo extremista de Netanyahu, que tem sistematicamente matado civis e provocado fome em Gaza. É um dia vergonhoso nos Estados Unidos.”

Bajulações e negociações

Em 7 de julho, quando iniciou sua visita oficial, Netanyahu entregou uma carta nomeando seu anfitrião, Trump, para o Prêmio Nobel da Paz (o governo do Paquistão, entre outros, fez o mesmo gesto), algo que deixou alguns humoristas satíricos sem palavras. Segundo analistas, o elogio fez parte do esforço de Netanyahu para obter a aprovação dos Estados Unidos ao seu plano de expulsar centenas de milhares de palestinos de suas terras em Gaza, enquanto consolida o controle sobre a Cisjordânia. Ao mesmo tempo, o mandatário israelense busca outra autorização de Washington para mais ações militares contra o Irã, informou o site Axios. Netanyahu confirmou em 9 de julho que suas conversas com Trump se concentraram no retorno dos reféns capturados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 e na política em relação ao Irã.

Outra tarefa urgente para Netanyahu é tentar conter o desgaste do apoio a Israel nos Estados Unidos. Ele próprio reconheceu que está perdendo simpatia, mas atribui isso a uma campanha “injusta” contra seu país. “Houve um esforço coordenado para promover o vilipêndio e a demonização de Israel nas redes sociais”, declarou ao concluir uma reunião com o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano Mike Johnson.

Sionismo: a barbárie e a concepção racista que sustentam a ideologia

Na noite de 9 de julho, Netanyahu participou de uma recepção importante, não apenas com líderes da comunidade judaica sionista, mas também com dirigentes evangélicos cristãos.

“A reunião desta noite é de grande interesse para Netanyahu, porque essa é sua base real nos Estados Unidos — os sionistas e os cristãos evangélicos de direita”, criticou Matt Duss, vice-presidente do Center for International Policy (Centro de Política Internacional, em tradução livre) e assessor do senador Sanders. Em entrevista ao Democracy Now, Duss acrescentou: “Os judeus estadunidenses votam majoritariamente nos democratas, são marcadamente liberais; uma grande parte deles apoia a libertação da Palestina e uma solução de dois Estados — e não apoia seu governo [de Netanyahu]”.

De fato, uma pesquisa recente do Pew Research Center registrou que a maioria dos judeus nos Estados Unidos “não confia” no governo de Netanyahu, enquanto os evangélicos cristãos apoiam de maneira esmagadora o mandatário israelense. Além disso, a guerra contra os palestinos em Gaza teve um grande impacto na percepção de Israel entre o público estadunidense. “Mais da metade dos estadunidenses (53%) expressa agora uma opinião desfavorável sobre Israel, um aumento em relação aos 42% em março de 2022, antes do ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023”, informou o Pew Research.

Leia mais notícias sobre Gaza na seção Genocídio Palestino.

A mudança de opinião entre os democratas é particularmente significativa. “Em 2013, segundo a Gallup, os democratas simpatizavam mais com Israel do que com os palestinos por uma margem de 36 pontos percentuais”, escreveu o analista judeu Peter Beinart em um artigo no New York Times. “Em fevereiro, a Gallup constatou que os democratas agora simpatizam mais com os palestinos do que com Israel por uma margem de 38 pontos. Segundo uma pesquisa de fevereiro realizada pelos meios The Economist e YouGov, 46% dos democratas querem que os Estados Unidos reduzam a assistência militar a Tel Aviv, e apenas 6% são favoráveis a aumentá-la.”

Embora a opinião pública não determine a política nos Estados Unidos, há cada vez mais evidências de oposição ao genocídio palestino, para além das constantes ações de protesto no Congresso, nas universidades e nas ruas do país – algumas encabeçadas ou coordenadas por judeus estadunidenses. A eleição do jovem socialista democrático Zohran Mamdani nas primárias democratas para prefeito de Nova York surpreendeu e está alarmando a cúpula política e econômica da cidade e do país. Seus opositores usaram milhões de dólares para rotulá-lo de “antissemita” por suas críticas à guerra contra o povo palestino e por ser muçulmano.

Mamdani foi o único pré-candidato democrata que não se comprometeu a fazer de Israel sua primeira viagem ao exterior, caso seja eleito prefeito. Ele tem insistido que apoia todos os habitantes e todas as religiões da metrópole. Mas talvez o mais alarmante para os simpatizantes de Netanyahu é que ele obteve apoio dentro da comunidade judaica – a maior do mundo fora de Tel Aviv – especialmente entre os jovens, além do endosso de políticos judeus locais e nacionais, incluindo um de seus principais adversários na primária.

Mesmo entre judeus cresce repudio a Netanyahu nos EUA mas evangelicos mantem apoio 3 e1753293275624
Cartaz no distrito de Bronx, em Nova York, qualifica Netanyahu como “procurado” e “criminoso de guerra” (Foto: Pamela Drew / Flickr)

Ao mesmo tempo, há outros sinais do enfraquecimento do apoio ao projeto sionista do governo direitista de Netanyahu. No ínicio de julho, os 3 milhões de membros da National Education Association (Associação Nacional da Educação, em tradução livre) – o maior sindicato de professores do país – votaram a favor de romper sua relação com a Anti-Defamation League (Liga Anti-difamação, em tradução livre), organização judaica de direitos civis, o que inclui deixar de usar seus materiais, em razão da postura do órgão de que toda crítica a Israel é “antissemita”. Esse argumento foi a estratégia do governo de Israel e de setores da cúpula estadunidense por décadas, mas vem sendo cada vez mais rejeitado por diversos setores, incluindo ativistas judeus.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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