Daniel Jorajuría Kars, dirigente da CTA-A: “Milei trata os grandes empresários nacionais como vendedores de sucata” (ComunicaSul)

“Milei comete industricídio em prol das corporações dos EUA”, denuncia Kars, da CTA

Dirigente da CTA denuncia desmonte do Estado argentino, avanço de corporações estadunidenses e ataques à soberania e aos direitos trabalhistas

Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul Global
Buenos Aires

Tradução:

Javier Milei está cometendo um industricídio em prol das grandes corporações”, denunciou Daniel Jorajuría Kars, secretário administrativo e responsável pelo departamento jurídico da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA-Autônoma), em entrevista exclusiva na sede da entidade, em Buenos Aires.

Daniel advertiu que, ao adotar esse comportamento para que as “corporações norte-americanas ganhem todas as licitações, o que Milei está fazendo é desmantelar o Estado-Nação”. “O memorando de livre comércio assinado com Trump é uma prova disso, pois é de absoluta submissão à economia dos Estados Unidos, onde os EUA podem exportar para o nosso país até gado em pé. E não pode haver coisa mais cruel do que exportar para a Argentina os mesmos produtos dos quais nós somos exportadores”, assinalou.

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Javier Milei – wikipedia

Kars denunciou o governo Milei como “o mais cruel que já tivemos na democracia”. “É um governo que veio para destruir o Estado Social de Direitos, que veio para se abraçar com as corporações econômicas no mundo e destruir a soberania nacional a fim de que as empresas entrem com tapete vermelho para explorar os trabalhadores”, condenou.

O dirigente da CTA adverte para o caráter perverso do esvaziamento da negociação coletiva, da manipulação dos índices de inflação e do ataque direto à liberdade sindical e ao direito de greve.

“Hoje, a negociação coletiva está sob intervenção do governo, está pisoteada, e os salários estão sendo arrochados, perdendo dia após dia o seu poder de compra, enquanto as tarifas sobem em dólares.

Além disso, este é um governo que atacou e eliminou praticamente a liberdade sindical e o direito de greve, que é a garantia de todos os nossos direitos”.

Milei enfrenta crise de popularidade e denúncias de corrupção na Argentina

Segundo Daniel Kars, o governo também começou a reestruturar o Judiciário trabalhista para blindar suas reformas ultraneoliberais:

“Está tentando eliminar a Justiça Nacional do Trabalho com juízes afins, transferindo-a para o Foro Contencioso Administrativo, que não tem o princípio protetório do Fórum do Trabalho. Por isso acabou de nomear cento e poucos juízes para esse foro, o que é um absurdo”.

Uma das acusações mais graves que apontou envolve as pressões diretas exercidas pelas autoridades estadunidenses sobre empresas argentinas e a dependência estrutural do país frente ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Recentemente, houve o caso de uma empresa argentina que teve o seu próprio presidente executivo submetido a chantagens dos norte-americanos, “recebendo mensagens do chefe de negócios da embaixada dos EUA dizendo para reverter a situação sobre um contrato assinado com uma empresa chinesa.

E depois o próprio embaixador fez uma publicação advertindo as consequências para essa empresa. Ou seja, esse é o grau de extorsão, de impunidade que os Estados Unidos vêm tendo dentro do país com o atual governo”.

Maior devedora do FMI, Argentina é submetida à inspeção em sua maior riqueza

“A Argentina é o maior devedor do FMI e a diretora-geral do Fundo, Kristalina Georgieva, veio inspecionar os recursos do país e visitou Vaca Muerta para ver se ali havia garantias para o recebimento do pagamento diante de uma eventual queda do governo Milei”. Uma “vistoria” constrangedora, que se deve à riqueza da formação que fornece mais de metade do gás e do petróleo do país e tem capacidade de impulsionar fortemente a produção nacional. Localizada na Bacia de Neuquén, na Patagônia, Vaca Muerta abriga a segunda maior reserva mundial de gás de xisto e a quarta maior de petróleo não convencional do planeta.

Segundo o entrevistado, mesmo empresários que apoiaram o presidente vêm sendo prejudicados por licitações feitas sob encomenda em prol de empresas norte-americanas, citando o caso de Paolo Roca. “Milei tratou o chefe da indústria de infraestrutura na Argentina como ‘chatarrín’, uma palavra absolutamente pejorativa como ‘sucateiro’. Assim ele descreve o maior empresário do país”.

Ao mesmo tempo em que destrata quem é de casa, informou Daniel, “o governo preparou licitações sob medida, perfeitas para o que uma empresa norte-americana precisa. Então as empresas nacionais acabam perdendo as licitações, pois são feitas sob encomenda, em função do acordado entre Milei e Trump”.

“Milei permite que a Inglaterra, com uma empresa israelense, coloque em dúvida a soberania das Malvinas”

A entrega de recursos estratégicos e o questionamento da soberania sobre as Ilhas Malvinas é outro ponto à flor da pele, que fica a cada dia mais escabroso, protestou. “Milei já está fazendo isso ao permitir que a Inglaterra, com uma empresa israelense, explore a plataforma submarina argentina ou esteja colocando em dúvida a questão das Malvinas, que é território argentino”.

Ao associar esse cenário a uma disputa geopolítica mais ampla dos EUA na região, incluindo suspeitas sobre a lisura de eleições recentes na América Latina, Daniel Kars vê a necessidade de uma maior integração entre as forças democráticas para barrar a ingerência ianque. “Não acreditamos que as últimas eleições na América foram transparentes, onde acabam ganhando, como no Peru ou na Colômbia, por um ponto, um ponto e meio, há sérias dúvidas de que isso foi manipulado”, ponderou.

Entre as vitórias, cita a inclusão da Argentina entre os países denunciados na Conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em que enalteceu o trabalho conjunto das três centrais para obrigar o governo a sentar no banco dos réus, “na lista curta de 24 países, demonstrando que Milei está com um trabalho minucioso: destruindo, desarmando e diluindo todos os direitos trabalhistas e a Justiça do Trabalho”.

Questionado sobre o crescimento da consciência popular diante das sucessivas mobilizações em defesa dos direitos dos aposentados, contra a política educacional e a estrangeirização da terra, Daniel Kars é direto sobre a necessidade de vencer definitivamente o serviçal de Trump: “Vamos derrotá-lo quando o povo que votou nele perceber que foi enganado e começar a marchar junto conosco nas ruas”.

“Milei tem claro para onde vai e vai tentar cumprir todos os seus planos: desmantelar o Estado, desregular absolutamente toda a economia, abrir as portas para a economia transnacional para quem manda e entregar a própria soberania. Cabe a nós darmos o ponto final à sua política”, frisou.

As eleições em outubro no Brasil terão um caráter estratégico não só para a região, mas para toda a América, avalia, “o que obrigou Milei a denegrir Lula publicamente num ato político para ver se fortalece Flávio Bolsonaro para derrotar o candidato popular e termos nossos países, máximos expoentes da América, retomados pelos EUA”.

Anteriormente, observa Kars, “os EUA tinham outros objetivos: petróleo, Oriente Médio, União Europeia”. “Agora perderam um pouco essa hegemonia e vêm para a América, retomando a velha doutrina Monroe de 1823, ‘a América para os americanos’, entendendo que os americanos são eles”. “De fato, já fizeram isso na Venezuela, miram Cuba e continuam com este objetivo. Então é imperiosa uma unidade latino-americana urgente, através da unidade absoluta e da integração dos nossos povos, porque isso vai levar a uma batalha nas ruas dos nossos povos pela retomada dos nossos governos”, concluiu.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Leonardo Wexell Severo Jornalista, analista internacional e diretor do Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo.

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