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Moeda digital na Argentina: o que é e pra que pode servir a proposta de Massa?

"Este é um debate que está em todo o mundo", aponta o economista Juan Valerdi
Redação Paco Urondo
Agencia Paco Urondo - APU
Buenos Aires

Tradução:

A AGÊNCIA PACO URONDO falou com o economista Juan Valerdi sobre a proposta de Sergio Massa de criar uma moeda digital.

O que é e para que pode servir? Confira a entrevista a seguir.

APU: O que é uma moeda digital?
Juan Valerdi: O objetivo de Massa tem a ver com seduzir um voto jovem vinculado ao mundo das criptomoedas, das moedas digitais que não são de blockchain mas estão vinculadas, como bitcoin e as demais. E também as plataformas de pagamento com este tipo de moedas. São setores que hoje seguem Javier Milei, porque em geral muita gente que está nesses esquemas está vinculada aos anarco-capitalistas.

É importante dizer que em matéria de moedas digitais, propriamente ditas, há muitos anos que existem no mundo. Basta ver que grande parte do que se move, do que pagamos, tem a ver com os 0 e 1 que indicam os bits das contas dos bancos, que dizem digitalmente quanto você tem. Isso vale para quando você paga com cartão de débito, crédito ou saca um prazo fixo.

APU: O que mudaria então com uma moeda digital?
JV: Hoje você tem os bancos intermediando ou tem máquinas digitais, como pode ser a do Mercado Pago ou o Banco Província. Mas se poderia ir mais além, poderiam ser os bancos centrais os que emitam moeda digital. É uma discussão muito profunda. O Banco Central argentino poderia emitir o criptopeso e isso poderia ser muito disruptivo. Com pouca potência tecnológica, um banco central poderia captar depósitos das pessoas e ao mesmo tempo emprestar dinheiro, prescindindo dos bancos privados. Os bancos centrais não querem fazer isso porque estão capturados pelos bancos privados. Na Argentina, o Banco Central está regulamentado pela lei de Entidades Financeiras, da última ditadura. Os funcionários do Banco Central estão muito contentes com essa lei. O debate de fundo é quem controla essa intermediação e quem a regulamenta. Também nestes dias houve a discussão com o Mercado Livre que Massa finalmente encerrou.

Continua após o vídeo

“O Banco Central representa os bancos privados (aqui e em todo o mundo)”

APU: Quando alguém põe dinheiro no Mercado Pago, do Mercado Livre, qual é o lucro do Mercado Livre?
JV: O mesmo que o de qualquer banco. Pega o dinheiro e faz investimentos financeiros ou faz empréstimos às pessoas. E estes empréstimos podem ser superiores aos depósitos, o que se chama criação secundária de dinheiro. No caso do setor financeiro privado, tradicional, existe um sistema internacional que regulamenta como se dá este intercâmbio, a partir do sistema SWIFT, controlado pelos Estados Unidos. Não existem reservas físicas, como disse Patricia Bullrich. Em nenhum banco central do mundo há reservas. Cuba e Venezuela, que estão bloqueadas, também necessitam de algum meio de pagamento, não podem mandar um caminhãozinho com dinheiro para pagar a outro país. As moedas digitais têm seu próprio sistema de intercâmbio, que gera confiança e faz que você diga que te mandei tal quantia e a outra pessoa acredite que é assim. No caso de que falamos é o Mercado Livre. Os bancos centrais não fazem isso, em geral, regulamentam por cima todo o sistema. Mas se criassem sua própria moeda digital, poderiam interagir eles mesmos com as pessoas, os comércios, com a economia. No caso da Argentina seria preciso acabar com a lei de Entidades Financeiras de Martínez de Hoz.

APU: Se todos quiséssemos tirar o dinheiro que temos no Mercado Pago, não poderíamos?
JV: Isso acontece no Mercado Pago ou em qualquer banco. Na realidade, é difícil que isso possa acontecer. Porque pode tirar liquidez de outro lado, se vê que isso está acontecendo. O mesmo que pode acontecer com um banco, que tem outro problema extra, que é que as pessoas podem querer sacar dinheiro físico. Nesse caso, o Banco Central pode cobri-lo e dar-lhe liquidez.

"Este é um debate que está em todo o mundo", aponta o economista Juan Valerdi

Foto: Reprodução/Twitter – Sergio Massa
"A moeda digital pode ser usada para propostas muito interessantes, novas, [e também] para o mal", explica Juan Valerdi

APU: Como você viu a discussão com o Mercado Livre, que Massa acabou resolvendo ou cortando?
JV: A resolução do Banco Central era contra todos os meios de pagamentos não bancários, não só o Mercado Pago. Havia as fintech. Há um ano que vem isso. Massa disse que ia cortá-lo mas os diretores do Central disseram outra coisa. Este curto-circuito não terminou. Há tempo que o Central pede ao Mercado Pago que ceda seu posnet, o equipamento para pagar, para que possa ser usado para qualquer meio de pagamento. O Mercado Pago não quer porque cresceu muitíssimo na pandemia nesse item. Hoje o vemos em açougues, quitandas e supermercados chineses. É um posnet muito mais barato que o dos bancos, que é caríssimo.

APU: Massa não parece estar pensando em uma nova lei de Entidades Financeiras. Então o que propõe especificamente?
JV: O macrismo estimulou muitíssimo o Mercado Pago e todo esse tipo de empresas que se dedicam a pagamentos digitais não bancários. Com o atual Banco Central, isso voltou para trás. Agora Massa diz que promoveria o setor. É certa a objeção que diz que este sistema é muito perigoso, porque é pouco confiável, pode haver estafas etc. Além disso, há lavagem de dinheiro etc. Mas também é certo que os bancos privados não querem que este setor cresça e o Banco Central representa os bancos privados (aqui e em todo o mundo). Massa vai tentar integrar os dois sistemas. Este é um debate que está em todo o mundo. A moeda digital pode ser usada para propostas muito interessantes, novas, que permitam trabalhar com setores informais da economia, por exemplo. Ou pode ser usada para o mal. Há experiências de todo tipo no mundo.

Redação | Agência Paco Urondo
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Redação Paco Urondo

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