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Reprodução Rede TVT

Movimentos Populares | A fé que desce do altar: o “esperançar” como arma contra o avanço da extrema direita

Em encontro histórico, Movimento Fé e Política articula bases para as eleições de 2026 e reafirma a espiritualidade como força contestadora contra o neofascismo no Brasil e na América Latina

Frei Betto, Claudio Ribeiro
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

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“Fortalecer a democracia, o esperançar e o bem viver”. Este foi o tema central do 13º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, que reuniu, em São Bernardo do Campo (SP), entre os dias 24 e 26 de abril, lideranças e grupos militantes de todo o país. Vale ressaltar que tais encontros constituem, há décadas, um espaço singular de convergência entre espiritualidade, compromisso social e reflexão crítica sobre a realidade brasileira.

 

Mais do que simples eventos, funcionam como verdadeiros laboratórios de cidadania, onde diferentes tradições religiosas, movimentos pastorais, populares, sindicais e militantes partidários se reúnem para pensar caminhos concretos de transformação social à luz de valores éticos e espirituais.
Em um país como o Brasil, marcado por profundas desigualdades, os encontros cumprem papel fundamental ao reafirmar que a fé não pode ser reduzida à esfera privada. Ao contrário, possui implicações públicas e políticas, especialmente quando inspirada por princípios como justiça, solidariedade e dignidade humana. Nesse sentido, o Movimento Fé e Política ajuda a resgatar uma compreensão mais ampla da espiritualidade, conectando-a às lutas por direitos, à defesa da democracia e à construção de uma sociedade mais justa.
O Movimento Fé e Política possui caráter plural. Em seus encontros se reúnem participantes de diversas denominações cristãs, além de representantes de outras tradições religiosas e pessoas sem filiação religiosa institucional, mas comprometidas com valores humanistas inspirados pelos grandes mestres da espiritualidade. Essa diversidade favorece o diálogo, combate o sectarismo e amplia horizontes. Em tempos de polarização e intolerância, a simples experiência de escuta mútua e convivência respeitosa já se torna, por si só, um testemunho político relevante.
Além do diálogo inter-religioso, os encontros locais, regionais e nacionais também promovem a articulação entre fé e prática social. Oficinas, mesas de debate e celebrações permitem que experiências concretas — como atuação em periferias urbanas, defesa de povos ancestrais, economia solidária e direitos humanos — sejam compartilhadas e fortalecidas. Isso contribui para a formação de redes e o surgimento de novas iniciativas comprometidas com a defesa da democracia e a transformação social.
A dimensão formativa é outro pilar importante. Ao reunir lideranças populares e agentes de base, pastoralistas, teólogos e teólogas, cientistas sociais, lideranças populares e agentes de base, os encontros oferecem subsídios teóricos e espirituais para uma atuação política mais consciente e qualificada. Trata-se de um espaço onde se aprofunda a compreensão das estruturas sociais, sem perder de vista a dimensão ética e simbólica que sustenta o engajamento. Assim, o Movimento Fé e Política não apenas mobiliza, mas também forma sujeitos críticos e comprometidos.

O encontro foi marcado por quatro grandes objetivos, como indica a Carta-Compromisso assumida ao final: “1) Enfrentar a extrema direita no Brasil e no mundo, fortalecendo a Democracia, por meio de candidaturas progressistas em 2026 que se comprometam com as lutas sociais, o esperançar e o bem viver; 2) Fortalecer os trabalhos de base, contribuindo para a construção de um projeto de país orientado para o Socialismo, o Bem-viver e o Reino de Deus; 3) Manter vivas as memórias e ampliar as lutas sociais e políticas, em especial das mulheres, movimentos negros, povos originários e comunidades tradicionais; 4) Realçar o papel das artes, das culturas e das juventudes para novos protagonismos na luta social e política nas periferias”.

Os encontros também têm função de memória e continuidade. Revisitar trajetórias históricas de resistência e compromisso social, ajudam a preservar uma tradição que muitas vezes é invisibilizada. Ao mesmo tempo, abrem espaço para novas gerações, garantem renovação e atualização das pautas. Essa combinação entre memória e novidade é essencial para manter vivo o horizonte libertador que anima o movimento.

Nesse sentido, um grande desafio se mantém, sobretudo para as pessoas de “cabelos brancos” – expressão que se tornou conhecida em nosso meio. É a sensibilização para abrir caminhos de maior participação das juventudes.

Na Carta-Compromisso do encontro está indicado que é preciso:

“1) Dar espaços reais de escuta e diálogo com as juventudes, reativar mecanismos permanentes de participação e garantir presença juvenil qualificada nos processos de decisão, com coordenação compartilhada e paridade em todos os espaços, como já iniciado no 13o ENFP.

2) Superar resistências adultocêntricas nas organizações e incentivar coletivos, pastorais e lideranças a se colocarem ao lado das juventudes, escutando com humildade, partilhando responsabilidades e reconhecendo seu protagonismo.

3) Assumir a pauta climática como prioridade juvenil e inserir a justiça socioambiental nas ações e formações. Compreender que a crise climática afeta diretamente a vida, os territórios, o presente e o futuro das juventudes.

4) Renovar metodologias de trabalho com juventudes para gerar maior interesse. Repensar linguagens, encontros e processos formativos, adotar métodos mais participativos, criativos, digitais e conectados com a realidade juvenil. Essa renovação deve ser feita a partir de um processo de escuta ativa das juventudes e de suas reais necessidades.

5) Valorizar o testemunho das diversas gerações e a conexão com a prática, fortalecendo lideranças coerentes, próximas e capazes de dialogar a partir da experiência concreta”.
Por fim, os encontros nacionais do Movimento Fé e Política reafirmam a esperança como força política. Ela se faz esperançar, na feliz expressão de Paulo Freire. Em contextos de crise, descrença e retrocessos, reunir pessoas em torno de um projeto comum, inspirado por valores éticos, evangélicos, espirituais, é um ato profundamente contestador. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas de uma esperança ativa, que se traduz em compromisso concreto com a justiça e a dignidade.

Mais uma vez, a Carta-Compromisso nos interpela: “O momento que vivemos, numa ótica global, é por demais complexo e desafiador. De maneira particular, o Continente Latino-Americano e Caribenho, fragmentado social e politicamente, está com os sinais de alerta ativados contra as tendências fascistas que querem mantê-lo como quintal de potências estrangeiras.

A partir do nosso Continente, emergiu neste encontro o sonho por uma reformulação global, onde os países se respeitem mutuamente, para que a soberania de cada um seja o ideal da convivência pacífica, fundada na justiça entre os povos. Trata-se do foco na multipolaridade, com forte impacto no Sul Global, onde países como o Brasil, soberanamente, precisam ter influência decisiva nas políticas globais. Reafirmamos aqui em especial o grito por Palestina Livre, do rio ao mar! Basta. Não aceitaremos o genocídio do povo palestino e a invasão de tantos territórios soberanos no Oriente Médio e no mundo”.

E a Carta-Compromisso, entre variados, urgentes e significativos desafios, também reforça as lutas das mulheres, das pessoas com deficiências e neurodivergentes, da população LGBTQIA+ e dos grupos que lutam pelo direito à terra, moradia e pela reforma agrária.
A importância desses encontros do Movimento Fé e Política reside na sua capacidade de articular fé, reflexão e ação, promovendo um diálogo plural e comprometido com a transformação social e a defesa da democracia. Em um mundo fragmentado, marcado pela violência e a ascensão do neofascismo, eles oferecem um raro espaço de encontro e comunhão, onde diferenças não se fazem divergências, são colocadas a serviço de um projeto comum de humanidade e de conquista da paz como fruto da justiça.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.
Claudio Ribeiro pastor metodista e professor de Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora

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