"Sou judeu e brasileiro. E brado ao mundo: Bolsonaro e Netanyahu não me representam!"

Esclarecimentos e pensamentos sobre religiões, Israel, Brasil e o neofascismo que assola o mundo no século XXI

Jean Goldenbaum

Combate Racismo Ambiental

Por onde começar? Últimos dias do ano de 2018, tragédia anunciada, catástrofe prevista no Brasil. Está acontecendo. Um presidente fascista eleito, escolhido por dezenas de milhões, abertamente e sem desculpas. O circo poderia ser ainda mais horrendo do que imaginávamos? Para alguns, provou-se que sim. Para festejar a vitória do ódio e o prenúncio da opressão e da repressão, nada melhor do que a presença de outro ás da dominação, do abuso, da violência. Sob os olhos do mundo – e a vergonha alheia de muitos -, ontem no Rio de Janeiro o novo presidente do Brasil e o primeiro ministro de Israel, que veio para a posse do primeiro, se abraçaram e festejaram entre olhares o prazer que possuem em oprimir, em subjugar, em destruir.

Sou judeu e brasileiro desde que nasci. Etnia, cidadania, identidade e identificação. Me sinto parte destes povos e destas culturas. Sou artista e pesquisador, trabalho em uma instituição judaica. E ainda que eu celebre em minha Música diversas culturas – pois amo o pluralismo -, a judaica e a brasileira possuem compreensivamente espaços especiais em minha criação. Admiro-as e as vivo. Por isto, como venho fazendo ao longo dos anos, hoje mais uma vez não tomarei postura apática ou passiva diante deste que é um dos piores momentos para os brasileiros de bem e para os judeus de bem. E quando digo ‘de bem’, trato de algo muito simples: refiro-me às pessoas que optam por respeitar o próximo independentemente de etnia, cor de pele, orientação sexual, religião, condição social e por aí adiante. Falo das pessoas que constroem ao invés de destruir, que ajudam ao invés de oprimir, que celebram todas as partes da vida ao invés de procurar decepar as partes que lhes desagradam. Falo daqueles que despreendem-se de seu egoísmo e colocam-se a favor da humanidade e do convívio tanto com o semelhante quanto com o diferente.

Fernando Frazão/Agência Brasil
O presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visitam a sinagoga Kehilat Yaacov, em Copacabana.

Serei direto e objetivo: ao meu ver, Bolsonaro é a pior coisa que já ocorreu ao Brasil e Netanyahu a pior que já ocorreu a Israel. Líderes terríveis passaram, sem dúvida, mas estes superam todos. Enquanto o primeiro é a incorporação apical do Neofascismo, com direito a todas as suas características, o segundo é o líder que mais afastou o Oriente Médio da possibilidade da paz e que mais envergonhou os judeus com seus assentamentos na Cisjordânia e suas ações e leis plenamente racistas contra os palestinos, além de suas denúncias por corrupção.

Mas vamos ao presente ponto em si. Acredito que posso contribuir para com o conhecimento do leitor trazendo-lhe algumas realidades que possivelmente não sejam ainda de seu conhecimento. Por que Netanyahu considerou tão importante viajar ao Brasil (pela primeira vez!) e firmar sua proximidade e parceria com Bolsonaro? O que une os monstros? Além da sociopatia (ou psicopatia?) que os leva ao desejo incontrolável de dominação, podemos elencar pontos práticos. A resposta, apesar de à primeira vista parecer complexa, é, quando se entende, bastante simples: Bolsonaro, como fascista símbolo da contemporaneidade, segue à risca os parâmetros do Neofascismo do século XXI. Um destes parâmetros é a paradoxal “defesa” do Estado de Israel por parte dos fascistas. É paradoxal pois quem conhece o mínimo da história do mundo sabe que a extrema-direita sempre odiou e odiará os judeus, culminando em Hitler. Por que então os fascistas trazem hoje em seu discurso a “amizade” com os judeus? Por diversos motivos. Vamos a eles.

No país em que vivo, a Alemanha, o partido neonazista (AfD) foca seus ódio naqueles que considera seus principais inimigos no momento, os muçulmanos. Isso se dá pois a imigração de muçulmanos na Europa foi imensa nos últimos anos e deste modo a velha fórmula nazista ‘Eles destruirão nosso país e roubarão o nosso lugar!’ pôde ser novamente acionada (para mais informações sobre esta imigração, sugiro este meu artigo de 2016). Unindo isto ao fato de que, graças ao Holocausto, a opinião pública não aceitaria hoje absolutamente nenhum tipo de ataque aberto aos judeus na Alemanha, o AfD adota esta postura: pró-Israel e contra muçulmanos. Logicamente, o fato de Israel ser hoje conduzido por líderes de direita, também colabora perfeitamente com esta equação.

Nos EUA, o alucinado e megalomaníaco Trump adota a mesma postura com relação aos muçulmanos (não esquecendo, é claro, de destilar seu ódio também aos latinos, que da mesma forma constituem grande parte da população estrangeira e imigrante). Em seu caso particular, além do fator do lobbing evangélico (que veremos mais à frente), a islamofobia também se dá pelo fato de ser essencial que a Casa Branca agrade e mantenha ótimas relações com os doadores judeus norte-americanos conservadores, que fazem frente à maioria da comunidade judaica norteamericana, que é democrata.

Já no Brasil o caminho é outro, mas o resultado é o mesmo. Bolsonaro apega-se a questões que coloca como “valores familiares” (que fundamentalmente não passam de homofobia), que agradam e atraem grande parte da população evangélica do país. Sabemos que foi em grande parte graças ao seu ódio à comunidade LGBT, que ele angariou os votos da maioria absoluta dos evangélicos, algo que foi essencial para sua eleição. Embora haja no Brasil uma porcentagem pequena de muçulmanos e não haja porquê os fascistas atacá-los (ao menos por enquanto), o que conta neste caso é o fato de que é interessante à comunidade evangélica um presidente que vilanize os muçulmanos que vivem na região de Israel (incluindo Gaza e Cisjordânia). Isto se dá por motivos antes de mais nada religiosos: muitos evangélicos creem que Jesus voltará quando todos os judeus estiverem em Israel – e “aceitarem” Jesus como o messias -, ou seja, sem muçulmanos atrapalhando o caminho. Esta doutrina teológica e escatológica cristã chama-se Dispensacionalismo e permeia grande parte da comunidade evangélica brasileira e mundial. Assim, a receita foi perfeita para Bolsonaro: ele agrada seu fã/ídolo Trump, se alinha a outros movimentos fascistas europeus (diga-se de passagem, o AfD foi o único grande partido alemão a parabenizá-lo por sua vitória) e recebe apoio majoritário da comunidade evangélica brasileira.

Netanyahu, por sua vez não parece ter nada contra a comunidade LGBT e pouco se importa com a imigração muçulmana na Europa e nos EUA. Mas seu interesse é combater os muçulmanos in loco, em Israel. Assim, vem ele construindo ao longo dos anos uma política extremamente racista contra os palestinos, e destruindo todas as possibilidades de atingir-se um acordo de paz. A principal obssessão de Netanyahu em seu período de liderança tem sido a construção de assentamentos na Cisjordânia, ou seja, invasão e ocupação das terras palestinas.

A partir daqui tudo se entrelaça em perfeito sentido: Trump decide mover a embaixada norte-americana a Jerusalém, enviando um sinal muito claro aos palestinos de que ele e Netanyahu fazem o que querem e estão em integral comando. Por sua vez o presidente brasileiro, o irmãozinho, imediatamente promete copiar o Big Brother e mover a embaixada brasileira também. Une-se a tudo isto o fato de que grande parte do investimento para a construção de assentamentos israelenses em terras palestinas vem de doações de evangélicos. E assim está desenhado o romance entre fascistas e parte dos judeus.

Enquanto judeu, representante deste povo, é essencial para mim deixar claro ao caro leitor que Netanyahu não é sinônimo de judeu e nem é sinônimo de Israel. Muito pelo contrário. Israel está dividida em dois, entre seus apoiadores e a oposição, assim como também está dividido o Brasil e assim como também está dividida a comunidade judaica brasileira. O povo judeu, como qualquer povo do mundo, é formado por pessoas boas e más, conscientes e inconscientes, justas e injustas. Hoje o mundo vive um período sombrio, onde parece que os maus de fato possuem mais força do que os bons. Os atuais líderes mundiais são evidência disto e todas as negatividades que eles inspiram e legitimizam refletem na realidade de hoje.

Há pouco mais de 20 anos estávamos prestes a ver a paz entre judeus e palestinos ser concretizada por Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, até o primeiro ser brutalmente assassinado por um israelense de extrema-direita. Hoje estamos mais longe do que nunca de qualquer acordo. Há dez anos os EUA elegiam o primeiro presidente negro, e hoje faz-se necessária a existência de um movimento que “lembre” as pessoas de que vidas negras importam (‘Black Lives Matter’). O Brasil era visto no mundo como um país livre e aberto, um símbolo do pluralismo e de lindo amálgama de etnias e culturas. Hoje temos um dos mais horrendos líderes do mundo em termos de Liberdade, Tolerância e Direitos Humanos.

Mas nós não deixaremos de lutar. E não perderemos as esperanças. Trump deixará um legado terrível, mas Bernie Sanders (judeu, inclusive) está maravilhosamente revolucionando o pensamento político do mundo de um modo que a humanidade ainda não percebe, mas perceberá am algum momento. Em Israel os dias de Netanyahu chegarão ao final possivelmente em breve (ele possui diversas acusações de corrupção e há pouco convocou prematuras eleições nacionais, uma vez que não consegue governar por não ter apoio necessário do parlamento). Quanto ao Brasil confesso que é difícil hoje ser esperançoso, pois parece que o pior ainda está por vir (os prelúdios já foram terríveis – não esqueceremos de Marielle; Moa do Katendê; Reinaldo Pataxó; Celestino e Silva, líderes do MST e outros assassinados, executados). Mas permaneceremos na luta.

Antes de encerrar, penso que caiba uma breve lista de considerações finais e recados diretos:

1. Um recado dos judeus conscientes e do Bem ao fascistas: nós não aceitamos sua “amizade”, por duas razões: primeiro porque sabemos que o fascismo sempre caminha ao lado do antissemitismo. O fascista odeia o judeu da mesma forma que odeia o muçulmano, ainda que nos dias de hoje escancare o ódio a um e disfarce o ódio a outro conforme sua convieniência momentânea. E segunda razão: mesmo que vocês quisessem de fato ser nossos amigos, não aceitaríamos, pois o judeu que vive a essência do judaísmo se coloca como resistência a qualquer tipo de opressão, seja contra ele ou contra outros. (Inclusive, palmas à comunidade judaica alemã que publicou em 2018 uma carta aberta se posicionando inteiramente contra o AfD.)

2. Aos judeus brasileiros que abraçaram o fascismo: sempre houve em nossa comunidade pessoas como vocês. Vocês passarão. Ficarão na História os bons. Hannah Arendt, Walter Benjamin, Stefan Zweig, Erich Fromm, Albert Einstein, René Cassin, Bernie Sanders e muitos outros carregam consigo e em frente a Alma judaica da Democracia, do Respeito ao Próximo, dos Direitos Humanos. Os judeus amigos de Hitler (que de fato existiram) ou acabaram nas câmaras de gás, ou simplesmente terminaram suas vidas culpados e envergonhados.

3. Aos judeus brasileiros que acham que os evangélicos dispensacionalistas querem o bem dos judeus: milênios de árduo caminho não foram o suficiente para vocês aprenderem? Se continuar assim Israel será tomada por igrejas evangélicas muito antes das mesquitas que vocês tanto temem. Jeremy Ben-Ami, presidente da norte-americana J-Street, uma das principais instituições liberais pró-Israel e pró-Paz no Oriente Médio, alertou que os judeus devem “desconfiar em buscar ajuda daqueles que estão brincando com nossas vidas a fim de promover seus propósitos religiosos e ideológicos”.

4. A todos que vêem a bandeira de Israel ao lado do presidente do Brasil: compreendam por favor que em grande parte isto é ação dos evangélicos. Muitos inclusive se autointitulam judeus – vide o carnaval do “faraônico bispo” que “reconstruiu” o “templo de Salomão” em São Paulo e se veste de bíblico Aarão…

5. Muitas vezes apareceu neste texto o termo ‘evangélicos’. Deixo registrada aqui a mesma premissa que escrevi acima: em todos os povos ou grupos há pessoas boas e más. Tenho amigos evangélicos que são pessoas maravilhosas e nunca defenderiam um político que prega o ódio. Espero muito que estes evangélicos cresçam e tornem-se maioria em seu meio.

Por fim, ao concluir, só me cabe reiterar que meu intuito maior neste texto é deixar registrado de forma clara e indúbia que estes líderes não somente não me representam enquanto judeu e brasileiro, mas bem mais do que isto, são opostos a tudo o que sempre valorizei e cultivei em minha judaicidade e minha brasilidade. Escrevo em pessoa singular, porque só posso falar por mim mesmo. Mas sei que esta primeira pessoa é plural. Há dezenas de milhões de brasileiros e milhões de judeus navegando este mesmo barco. E estamos unidos. Somos a Resistência, somos a voz do Amor contra o Ódio e não deixaremos de nos manifestar enquanto houver um único índio, quilombola, LGBT, pobre, refugiado ou palestino sendo oprimido. Aos do nosso lado, envio aquele abraço brasileiro e o judaico eterno Shalom.

Dr. Jean Goldenbaum é compositor e musicólogo, professor do Centro Europeu de Música Judaica da Universidade de Música, Teatro e Mídia de Hannover, Alemanha. Ativista social, faz parte do grupo ‘Resistência Democrática Judaica’ e é um dos membros fundadores do ‘Observatório Judaico de Direitos Humanos’. www.jeangoldenbaum.com

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Isabel Carmi Trajber.

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