Facebook pode ter influenciado os jovens que aterrorizam Moçambique?

Pelo menos 189 pessoas foram presas, os ataques que ocorreram em Cabo Delgado já somam um total de 200 pessoas mortas e várias casas incendiadas

Alexandre Nhampossa

Cabo Delgado

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Vários distritos da província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, tem sofrido, desde o dia 5 de Outubro de 2017, ataques protagonizados por um grupo armado desconhecido, em incursões que já resultaram em aproximadamente 200 mortos e várias casas incendiadas.

Em conexão com o caso, pelo menos 189 pessoas foram constituídas, arguidas em um julgamento que está a decorrer — um número que tende aumentar, visto que cada dia há mais pessoas sendo capturadas que se acredita terem alguma ligação com o fenômeno.

Os ataques, geralmente, acontecem de noite ou madrugada em zonas remotas da província. O grupo, munido de armas de fogo e objetos cortantes como catanas, invade certa aldeia, dispara contra a população, decapita, incendeia casas, rouba bens alimentares e foge para as matas.

São desconhecidas até aqui as motivações do grupo, muito menos a sua identidade. As autoridades moçambicanas esperam ter uma resposta no primeiro trimestre de 2019 quando se anunciar a sentença do julgamento das 189 pessoas, que estão sendo acusadas de homicídio, uso de armas proibidas, crimes contra a segurança do Estado e perturbação da ordem pública.

Entre os arguidos estão moçambicanos, tanzanianos, somalis e cidadãos naturais do Burundi e República Democrática do Congo, sendo que o grupo em julgamento inclui 42 mulheres e 147 homens.

A polícia da República de Moçambique várias vezes devolveu jovens as respectivas famílias, depois de capturá-los quando tentavam chegar aos distritos de ataques, após terem sido aliciadas por desconhecidos, que prometiam emprego em Cabo Delgado, uma província com grandes projetos em andamento nas áreas de exploração de gás, rubis, ouro, grafite e outros recursos.

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Retrato de habitaçõs destruídas pelo fogo posto durante os ataques. Foto: Borges Nhamire. Usada com a devida permissão.

Dentre vários meios de aliciamento, o Facebook, uma das redes sociais mais usadas no país, foi um dos escolhidos.

Uma conta, de nome Shakira Júnior Lectícia, manteve-se ativa durante 14 meses e as suas publicações visavam exaltar as incursões de Cabo Delgado convidando jovens a seguirem o mesmo caminho sob a promessa de elevadas quantias monetárias.

Segundo reporta a publicação eletrônica “Carta de Moçambique”, que fez acompanhamento da dinâmica da conta, nos dias 11 e 22 de Novembro passado, explica, por exemplo, que Shakira publicou fotos de um jovem exibindo dinheiro como provável recompensa por ter aderido à insurgência com a intenção de passar a narrativa de que quem se alista nos grupos tem gratificação instantânea:

Resultado de Pundanhar em Palma: “Estou cheio de grana e você continua na pobreza”. E em outro post, também exibindo várias notas, diz: “confirmado a transação.”

O ataque a Pundanhar, que a conta menciona, resultou na morte de seis pessoas que foram encontradas mortas no meio do mato. As vítimas, seis homens adultos, tinham saído para o mato para caçar e os corpos foram encontrados com sinais de ataque com catanas. Suspeita-se que Shakira tinha uma ligação com os atacantes visto que publicava informações sobre as incursões antes da média ter conhecimento.

Mas quem é então o promotor das incursões no Facebook?

A investigação da Carta de Moçambique apurou que, a conta foi criada 20 dias depois do primeiro ataque à Vila de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado, isto é, foi criada no dia 25 de Outubro de 2017, e ficou fora do ar no dia 10 de Dezembro de 2018, já com o limite de 5000 amigos e vários seguidores. Shakira Júnior Lectícia identificou-se, no seu perfil, como residente no bairro de Expansão, Cidade de Pemba, capital de Cabo Delgado.

Segundo a publicação, a foto de perfil que a conta ostentava pertencia à outra pessoa que disse ao jornal não conhecer nenhuma Shakira, e não saber como é que a tal teve acesso à foto dela.

O mesmo disseram outros três jovens publicados pela conta, incluindo os que aparecem exibindo dinheiro. Eles confirmam que são eles que aparecem nas fotos, mas juram não ter nenhuma ligação com a conta e não sabem como a Shakira teve acesso às fotos. Um deles conta que terá partilhado a foto num grupo de amigos e suspeita que tenha caído em mãos alheias a partir de lá.

As vítimas ouvidas pela publicação tem sempre alguma ligação com Cabo Delgado. Algumas vivendo na província, inclusive em distritos sob ataques, e outras fora da província, mas que já estiveram lá. O assunto já está sob investigação do Serviço Nacional de Investigação Criminal de Moçambique, SERNIC.

Em Janeiro de 2018 um alegado vídeo dos insurgentes circulou nas redes sociais, incluindo no Facebook. Gravado numa mata, o vídeo mostra um grupo de cinco homens trajados com vestes civis, de burca, empunhando metralhadoras, e um homem de catana em punho, apelando aos moçambicanos para se juntarem ao grupo.

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