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O G-20 e a trégua alcançada na guerra fria tecnológica entre os Estados Unidos e a China

O setor americano de alta tecnologia é o último bastião da superioridade produtiva dos Estados Unidos mas atualmente dependem integralmente de investimentos privados

A cúpula do G20 na semana passada em Osaka não obteve qualquer acordo substancial na guerra comercial e tecnológica que os EUA estão travando com a China. No máximo, uma trégua foi alcançada sobre o aumento de tarifas e outras medidas contra empresas de tecnologia chinesas. Mas um acordo duradouro não foi alcançado. Porque é uma 'guerra fria' pela supremacia econômica entre o poder econômico em declínio relativo dos EUA e o novo e perigoso rival, a China. Como a última "Guerra Fria" entre os EUA e a URSS, essa pode durar uma geração ou mais antes que um vencedor surja. E as chances que seja os EUA diminuem quanto mais ela durar.

O artigo é de Michael Roberts, economista marxista britânico, que trabalhou 30 anos na cidade de Londres como analista econômico, publicado em seu blog The Next Recession, 08-07-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

No G20, Trump e Xi concordaram com uma trégua na escalada de medidas de retaliação e renovarão as “negociações”. Trump fez algumas concessões, permitindo que as empresas americanas voltassem a vender produtos para a Huawei. Portanto, presumivelmente, aplicativos do Google, Android, etc. reapareceram nos dispositivos Huawei. E a China poderá, presumivelmente, comprar os processadores e chips de que precisa da Intel, Qualcom e Micron. Mas não está claro se essas concessões incluem que a Huawei possa vender para empresas nos Estados Unidos (ou seja, redes 5G).



Mas tão certo quanto a noite segue o dia, a guerra comercial será retomada em algum momento, porque as principais demandas dos Estados Unidos são simplesmente inaceitáveis para a China: que os chineses renunciem competir com a tecnologia dos EUA e aceitem ser supervisionados nos assuntos econômicos.

O G20 pode oferecer um breve respiro aos mercados financeiros, mas não freará a desaceleração geral que a economia global está experimentando, com a provável e cada vez mais próxima recessão de produção, comércio e investimento. As taxas de atividade global nos setores manufatureiros e nos chamados serviços já diminuíram para níveis que não eram vistos desde o final da Grande Recessão em 2009.

Em junho, o índice de atividade global do JP Morgan sugere que o crescimento econômico global desacelerou a uma taxa anual de 2,5% — uma cifra que se costuma considerar o limiar de uma “velocidade de perda”, isto é, abaixo dessa taxa pode se cair em uma recessão global.

A realidade é que Trump não pode reverter o declínio constante da capacidade manufatureira industrial dos Estados Unidos, nem o desafio da China a sua superioridade tecnológica. O emprego manufatureiro nos EUA caiu de cerca de 25% da população ativa em 1970, para 9% em 2015. Essa queda não se deve a estrangeiros desagradáveis que traem os acordos comerciais, como Trump gosta de afirmar. A maioria dos estudos (não todos) descartam essa tese. Um estudo meu com outros autores conclui que a concorrência chinesa causou a perda de 985.000 empregos industriais entre 1999 e 2011. Isso é menos de um quinto da perda total de empregos industriais durante esse período e uma parte muito pequena do declínio industrial de longo prazo.

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Ilustração

A principal razão pela qual Trump não pode trazer esses empregos de volta para a indústria de manufatura é porque eles foram perdidos em grande parte devido ao êxito da "eficiência" nos EUA. Nas últimas três décadas e meia, os fabricantes cortaram sete milhões de empregos, produzindo mais coisas do que nunca. O Instituto de Política Econômica (EPI) aponta em The Manufacturing Footprint and the Importance of US. Manufacturing Jobs (A Plataforma Manufatureira e a Importância dos Empregos Manufatureiros para os EUA) que "para entender por que tantos empregosdesapareceram, a resposta é que o comércio não tem sido a causa, mas acima de tudo a tecnologia... 80% dos postos de trabalho perdidos não foram substituídos por trabalhadores na China, mas sim por máquinas e automação. Esse é o principal problema, se as tarifas desaparecerem. O que se descobre é que as empresas americanas são capazes de substituir seus trabalhadores mais caros por máquinas".

O que esses estudos revelam é o que a teoria econômica marxista tem dito muitas vezes. Sob o capitalismo, o aumento da produtividade do trabalho é o resultado da mecanização e da redução do trabalho, ou seja, pela redução dos custos do trabalho. Marx explica no Capital que essa é uma das principais características da acumulação capitalista - o viés pró-capital da tecnologia - algo que a teoria econômica convencional continua a ignorar até hoje.

Marx explicou isso de maneira diferente à teoria econômica convencional. O investimento no capitalismo é feito com fins lucrativos, não para aumentar a produção ou a produtividade como tal. Se o benefício não aumenta em mais horas de trabalho (mais trabalhadores e jornadas mais longas) ou intensificando o esforço (velocidade e energia - tempo e movimento), a produtividade do trabalho só pode aumentar graças a uma melhor tecnologia. Portanto, em termos marxistas, a composição orgânica do capital (o valor das máquinas e instalações em relação ao número de trabalhadores) deve aumentar continuamente.

Apesar do que a teoria econômica convencional, do "livre-mercado", acredita, historicamente tem sido o gasto público que sustentou o desenvolvimento de tecnologias não comprovadas. Em geral, foi produzido à força, sendo a inovação nos períodos de guerra um notável motor de desenvolvimento, levando a grandes avanços em materiais, produtos e processos. A comercialização de motores a jato, foguetes, radar e toda a informática moderna tem sua origem na Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria e a corrida espacial os desenvolveram, desencadeando a atual era tecnológica nos anos 90.

A corrida espacial foi importante, pois ambos os lados da Guerra Fria usaram os cientistas e engenheiros alemães capturados para impulsionar seus projetos de foguetes. Isso culminou com o programa Apollo do presidente Kennedy. Os EUA foram derrotados pelos soviéticos no que se tratava de mandar o primeiro homem para o espaço, mas reagiram dedicando imensos recursos para alcançá-los. No auge da corrida espacial, quase 400.000 pessoas participaram, com a colaboração de 20.000 empresas industriais e universidades privadas. A missão não apenas produziu inúmeras inovações – grande parte da tecnologia necessária para chegar à Lua não existia quando o programa foi anunciado – mas também criou grupos de novas indústrias de alta tecnologia nos EUA, a partir de redes que haviam começado a emergir durante a guerra.

Isso acelerou o desenvolvimento de várias tecnologias de computação, como circuitos integrados, transferência massiva de dados e software de sistema. Essas foram tecnologias de ponta que impulsionaram o desenvolvimento da IBM e da HP como gigantes da computação. Outros engenheiros de programa fundaram a Intel e muitas outras empresas de tecnologia de ponta. Sem a Apollo, é improvável que o Vale do Silício se tornasse a grande potência tecnológica e econômica estabelecida hoje. A Apollo também promoveu inovações de negócios mais amplos, incluindo algumas que os consultores experimentaram desde então, como planejamento estratégico, orçamento, bem como processos aprimorados de gerenciamento e tomada de decisões.

Mas, à medida que a lucratividade do setor capitalista caiu (desde meados da década de 1960), os impostos foram reduzidos e, portanto, os gastos com inovação financiados pelo Estado caíram drasticamente. A falta de investimento estatal tornou o progresso tecnológico americano cada vez mais dependente do investimento do setor privado. Mas não automaticamente. O setor capitalista dos Estados Unidos, como os das principais economias capitalistas, optou por transferir sua produção para o exterior em busca de mão de obra barata e depois exportar a produção de volta. Primeiro com investimentos na América Latina (especialmente no México) e depois na China.

Houve uma exceção: o setor de alta tecnologia dos EUA. Os avanços tecnológicos dos Estados Unidos dependem agora completamente do investimento privado. Tudo nos EUA agora depende dos FAANGs (Facebook, Apple, Alphabet, Netflix, Google) e Microsoft. Essas empresas investem sozinhas impressionantes 80% em inovação. Este número corresponde a quase todos os gastos públicos em educação, transporte, ciência, espaço e tecnologia. Este volume de gastos supera o programa Apollo, cujo investimento em uma década foi de aproximadamente 150 bilhões de dólares hoje. Ou seja, menos de dois anos do custo total atual das FAANGs.

O setor americano de alta tecnologia é o último bastião da superioridade produtiva dos Estados Unidos. O banco de investimentos Goldman Sachs indicou que, desde 2010, esse setor é o único em que os lucros corporativos cresceram. E isso, de acordo com a Goldman Sachs, é inteiramente devido às empresas de supertecnologia. Os benefícios globais, sem levar em conta as empresas de tecnologia americanas, são apenas moderadamente maiores do que antes da crise financeira. Enquanto isso, os benefícios da tecnologia cresceram rapidamente, refletindo seu impacto global.

Se a China for capaz de competir com as FAANGs, a lucratividade do capital americano cairia significativamente e, com isso, o investimento, o emprego e a renda nos Estados Unidos pela próxima década. Esta é a razão para a guerra comercial e tecnológica e por que ela continuará.

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