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A importância das "apitadas" na disputa pela democracia e liberdade de imprensa nos EUA

As cúpulas políticas e sobretudo o chamado setor de segurança nacional em geral detestam em princípio toda revelação não autorizada por eles

Os apitos contra o abuso e o uso ilegal do poder marcaram a história dos Estados Unidos, sobretudo durante o último meio século. Trump agora está sendo investigado para um julgamento político graças a um whistleblower (literalmente, alguém que assobia, ou que sopra um apito), e vale recordar que os apitos ajudaram a pôr fim a uma guerra, frear alguns programas de espionagem massiva de cidadãos e programas de tortura, revelar corrupção em vários níveis e até derrubar um presidente.

Há uma diferença entre um denunciante e um filtrador, o primeiro emprega os canais internos oficiais estabelecidos por lei para alertar o Congresso sobre algo indevido no exercício do governo; o segundo tenta entregar informação sobre abusos e delitos oficiais ao público geralmente via mídia. Ambos dão uma apitada para revelar abusos de poder ou atos ilegais.

Para alguns são heróis que resgatam a democracia; para outros são espiões e traidores. Depende dos interesses das cúpulas em dadas conjunturas e obviamente sobre o que se está divulgando e sobre quem.

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Os apitos contra o abuso e o uso ilegal do poder marcaram a história dos Estados Unidos

Foi justamente há 50 anos que o analista militar Daniel Ellsberg começou a fazer cópias dos chamados Papéis do Pentágono que revelavam as mentiras oficiais sobre a guerra no Vietnã. Foi acusado pela Casa Branca de Nixon de violar a Lei de Espionagem e o governo tentou proibir a publicação dos documentos no Washington Post e no New York Times em 1971, disputa que chegou até a Suprema Corte, que decidiu a favor dos meios.

Pouco depois estalou o escândalo conhecido como Watergate e foi outro tipo de denunciante — apelidado de “Garganta profunda (Deep Throat) que guiou os repórteres do Washington Post a chegarem ao fundo das operações ilegais de Nixon, detonando um processo de impeachment e culminando com a renúncia do mandatário antes que fosse destituído. A fonte foi revelada em 2005: Mark Felt havia sido durante esse tempo ninguém menos que o subdiretor do FBI.

O denunciante (e agora são dois ou talvez mais), um oficial de inteligência que detonou o atual processo de impeachment contra Trump é festejado pela cúpula política democrata como um patriota valente cumprindo com o seu dever, e se exige que lhe sejam dadas todas as proteções sob a lei.

Mas diferentemente dos denunciantes no caso de Trump, a cúpula política estadunidense de maneira bipartidária denuncia como “criminosos” os filtradores/denunciantes  e os que publicam, incluindo três dos mais importantes dos últimos anos que foram acusados de violar a Lei de Espionagem entre outras: Julian Assange, fundador do Wikileaks, que se encontra encarcerado em Londres sob ameaça de ser extraditado aos Estados Unidos, por publicar documentos oficiais secretos inclusive sobre crimes de guerra e manipulações diplomáticas, Chelsea Manning de novo encarcerada por se recusar a cooperar no caso contra Assange depois de ter cumprido 7 anos de prisão por filtrar documentos militares ao Wikileaks, e Edward Snowden. asilado em Moscou depois da talvez maior filtração de documentos de segurança nacional na história dos Estados Unidos revelando, entre outras coisas, massivos programas de espionagem de cidadãos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.  

Em seu livro recém-publicado, Permanent Record, Snowden se identifica assim: “Antes eu trabalhava para o governo, mas agora trabalho para o público”.

E há vários mais que estão ou foram encarcerados, perderam seus empregos e mais por atrever-se a alertar sobre programas ocultados do público, desde tortura a métodos de espionagem e programas secretos de assassinato por drones e múltiplas mentiras oficiais. 

As cúpulas políticas e sobretudo o chamado setor de segurança nacional em geral detestam em princípio toda revelação não autorizada por eles sobre o que desejam ocultar do povo ao que supostamente servem. Por isso, o debate sobre apitadas é essencialmente uma disputa sobre a democracia (e dentro disso, a liberdade da imprensa).

*David Brooks é correspondente do La Jornada em Nova York

**Tradução: Beatriz Cannabrava

***La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

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