Apagar a memória, ou substituí-la por outra pré-fabricada, é uma antiga tática de controle político de uma sociedade. Desde que chegou ao poder, no início de 2025, a Casa Branca (Trump) e seus aliados no meio acadêmico e nos governos estaduais e locais vêm tentando, de forma aberta e explícita, promover uma lavagem cerebral em escala nacional.
Isso vem sendo feito por meio de uma combinação de ordens executivas para depurar e modificar a narrativa histórica do país, tornando-a “mais patriótica” e menos crítica em museus, arquivos federais e até em exposições de parques nacionais, além de pressões e ameaças contra várias das principais universidades do país caso não aceitem as diretrizes impostas pela Casa Branca e, nos níveis estadual e local, por meio da censura de livros em escolas e bibliotecas.

Exatamente no 250º aniversário do país, celebrado em 4 de julho, a Casa Branca divulgou um relatório de 162 páginas de seu Conselho de Política Doméstica, intitulado “Salvando a História da América”, no qual acusa o Museu Nacional de História da Smithsonian Institution de ter sido “capturado institucionalmente por uma ideologia ativista radical, fundamentalmente oposta à história nobre e honesta do grande país que conhecemos e amamos”.
O relatório afirma que o museu não celebrou adequadamente o aniversário da nação, que promove um ativismo “anti-branco” e favorável aos “imigrantes ilegais”, que busca “doutrinar” professores e estudantes, e que sua presidente é “uma ativista que promove uma agenda ideológica contrária ao propósito fundador do museu de promover o patriotismo”.
Na semana de 5 de julho, o diretor da Smithsonian Institution — o complexo de museus e centros educacionais federais — voltou a rejeitar essas acusações, afirmando que o trabalho da instituição é guiado por “um compromisso de contar a totalidade da história americana” e que seus profissionais têm a missão de “ajudar uma nação a encontrar compreensão, esperança e clareza”. Muitos acreditam que seus dias à frente da instituição estejam contados.
Marc Stein, presidente da Organização dos Historiadores Americanos, escreveu na revista Time que esse ataque à Smithsonian Institution representa “um ataque à história dos Estados Unidos” e que o novo relatório é apenas parte de “um esforço mais amplo que ameaça reduzir a história americana a uma ideologia conservadora”.
Nos últimos meses, foram retiradas instalações e exposições de alguns desses museus — entre elas, uma charge do cartunista mexicano Feggo e uma Estátua da Liberdade feita de papel machê carregando uma cesta de tomates, utilizada durante marchas e manifestações por melhores condições para trabalhadores rurais nos campos do sul do país, nas campanhas da Coalizão dos Trabalhadores de Immokalee —, além da modificação de outras exposições, tanto em Washington quanto em parques nacionais e outros centros federais.
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Não há grande mistério quanto às razões disso: trata-se de uma parte integrante da agenda da direita, tanto hoje quanto no passado.
“A verdade é que o establishment depende muito da amnésia histórica… Isso facilita que o governo diga ao povo coisas que são imediatamente aceitas…”, comentou o grande historiador Howard Zinn em entrevista ao La Jornada há mais de 20 anos.
Em um de seus livros, Zinn explicou: “O futuro dos Estados Unidos está ligado à forma como compreendemos nosso passado. Por essa razão, escrever sobre história, para mim, nunca é um ato neutro. Ao escrever, espero despertar uma maior consciência sobre a injustiça racial, a discriminação de gênero, a desigualdade de classes e a arrogância nacional.
Também quero trazer à luz a resistência, pouco registrada, das pessoas contra o poder do establishment… Omitir esses atos de resistência é apoiar a visão oficial de que o poder está apenas nas mãos daqueles que possuem as armas e a riqueza…”.
Essa tarefa é ainda mais urgente hoje diante do esforço massivo de lavagem cerebral em curso nos Estados Unidos.





